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Cultura

A voz do Brasil se cala

Símbolo do apogeu da Era do Rádio, cantora Angela Maria morre, aos 89 anos, em São Paulo

Jornal do Brasil AFFONSO NUNES, affonso.nunes@jb.com.br

A Música Popular Brasileira amanheceu ontem mais pobre e com a voz embargada. Angela Maria, um dos símbolos da Era do Rádio, foi sepultada ontem à tarde no cemitério de Congonhas, em São Paulo. A eterna “Sapoti”, como a cantora era conhecida por seus fãs, estava internada no Hospital Sancta Maggiore, desde o fim de agosto, por causa de uma infecção generalizada e não resistiu a uma parada cardíaca. O destino não poderia ter reservado outro destino a seu repouso: o corpo foi para o mesmo jazigo onde foi enterrado o cantor e grande parceiro Cauby Peixoto, há dois anos. “O espaço é da nossa família e o emprestamos para o Cauby. É o marido musical dela”, justificou o empresário Daniel D’Angelo, com quem a artista vivia há 40 anos. Pelas redes sociais, ele postou um emocionado vídeo comunicando a morte da companheira. “É com meu coração partido que eu comunico a vocês que a minha Abelim Maria da Cunha, e a nossa Angela Maria, partiu, foi morar com Jesus”, disse, emocionado, ao lado de Alexandre, um dos quatro filhos adotivos do casal.

Angela, que gravou seu depoimento para o Museu da Imagem do Som em 2011, revelou seus sofrimentos. Nunca pode ter filhos, por um problema no útero diagnosticado já em sua adolescência. Apesar dos inúmeros tratamentos, jamais conseguiu engravidar. Antes de unir-se a D’Angelo, teve vida sentimental conturbada: casou-se cinco vezes e teve muitos namorados. Sofreu com humilhações e até agressões físicas.

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Com uma vida pessoal conturbada, Angela teve altos e baixos na carreira, mas foi um dos raros casos de ídolos da Era do Rádio a fazer sucesso nos anos seguintes (Foto: Divulgação)

Dedicou-se a interpretar principalmente sambas-canções, mas também gravou muitos boleros, tangos e versões de baladas e músicas espanholadas e italianas. Seu repertório até 1962 é considerado por alguns críticos como mais sofisticado, embora ela tenha sido sempre uma cantora popular. Na década de 1970, foi considerada uma cantora cafona pela crítica. Nessa época, muitos jovens compositores consolidavam carreiras seguindo caminhos estéticos surgidos com a Bossa Nova e Tropicália. Nada disso a fez abdicar do estilo de cantora romântica, com ênfase em boleros e sambas-canções. Continuou sendo cultuada pelos fãs, mesmo com espaço reduzido na mídia. Foi talvez a única cantora da chamada Era do Rádio que logrou sucessos de venda nas décadas seguintes.

Ao longo de sua trajetória, gravou ou participou de 114 álbuns, que alcançaram vendas de 60 milhões de exemplares. Ainda assim, teve poucos momentos de estabilidade financeira. A artista quase perdeu tudo, uma vez que seu patrimônio era administrado por seus assessores, que mesmo ela dando o dinheiro a eles, não pagavam suas contas e a lesavam. Desesperada com a vida de folhetim que levava, mudou-se para São Paulo em 1967, porém nada mudava. Não dava sorte e continuava a lidar com empresários e namorados golpistas. Foram tempos de grande pobreza, shows em boates decadentes e condição de precisar melhorar a renda fazendo faxinas. Foi a união com D’Angelo que mudou sua vida e lhe deu estabilidade emocional e financeira.

Em sua carreira, iniciada como crooner de boate no fim dos anos 1940, a cantora promoveu parcerias com Roberto Carlos, Gal Costa, Caetano Veloso, Agnaldo Timóteo, Alcione, Fafá de Belém, Ney Matogrosso e Cauby Peixoto, entre outros. Com Cauby, outro crooner, gravou dezenas de canções e dividiu muitos palcos. A sintonia era perfeita. “Era o meu melhor amigo”, disse, em meio a muitas lágrimas, no enterro do parceiro.

Intérprete de canções como “Babalu” (Margarita Lecuona), “Gente humilde” (Garoto/Chico Buarque/Vinicius de Moraes) e “Orgulho” (Waldir Rocha/Nelson Wederkind), serviu como fonte de inspiração para Elis Regina, Djavan, Milton Nascimento, Ney Matogrosso, Cesária Évora e Gal Costa, além de ter sido apontada pelo Ibope, por anos seguidos, a cantora mais popular do Brasil. 

De operária à diva da MPB

Abelim Maria da Cunha, verdadeiro nome da artista, nasceu em Conceição de Macabu, no Norte Fluminense, em 13 de maio de 1929. Passou a infância em Niterói, São Gonçalo e São João de Meriti. Filha de pastor protestante, desde criança cantava em coro de igrejas. Antes de se dedicar totalmente à música, Angela trabalhou como inspetora de qualidade na fábrica da General Eletric. A partir de 1947, tentou a sorte em programas de calouros. Apresentou-se no “Pescando estrelas”, de Arnaldo Amaral, na Rádio Clube do Brasil; na “Hora do Pato”, de Jorge Curi, na Rádio Nacional; no programa de calouros de Ari Barroso, na Tupi; e do “Trem da Alegria”, de Lamartine Babo, Iara Sales e Heber de Bôscoli, na Nacional. Usava o nome Angela Maria para não ser descoberta pela família que não encarava a carreira artística com bons olhos.

Suas interpretações eram consideradas belíssimas, sempre tirava nota máxima e ganhava todos os concursos. Muitas boates a queriam para cantora e foi parar no famoso Dancing Avenida. Sua performance de palco chamou a atenção dos compositores Erasmo Silva e Jaime Moreira Filho, que a recomendaram a Gilberto Martins, então diretor da Rádio Mayrink Veiga. Aprovada nos testes, deslanchou sua carreira. O apelido “Sapoti” lhe foi dado por Getúlio Vargas. “Menina, você tem a voz doce e a cor do sapoti”, disse-lhe o presidente, numa referência à fruta muito apreciada nas regiões Norte e Nordeste.

Álbum com velhos amigos

Em 1951, estreou na RCA Victor em disco com “Sou feliz” e “Quando alguém vai embora”. No ano seguinte, sua gravação do samba “Não tenho você” bateu recordes de venda, marcando o primeiro grande sucesso de sua carreira. Sua popularidade era tão grande que, em 1954, foi eleita rainha do rádio, concurso popular que corou estrelas como Dalva de Oliveira, Emilinha, Marlene e Doris Monteiro. Em 1996, foi contratada pela gravadora Sony Music e lançou o CD “Amigos”, com a participação de vários artistas como Roberto Carlos, Maria Bethânia, Caetano Veloso, Chico Buarque, entre outros. O trabalho foi um sucesso, celebrado num espetáculo no então Metropolitan (hoje Claro Hall), e um especial na Rede Globo. O disco vendeu mais de 500 mil cópias.

Foi uma fase muito feliz da carreira da cantora que, no ano seguinte, apresentou o álbum “Pela saudade que me invade”, com sucessos de Dalva de Oliveira, de quem sempre foi fã, e um ano depois gravou, com Agnaldo Timóteo, o CD “Só sucessos”, também na lista dos cem álbuns nacionais mais vendidos. Após a saída da Sony, Angela voltou a gravar em 2003, desta vez pela Lua Discos, o Disco de Ouro, com um viés eclético, abrangendo compositores que vão de Djavan a Dolores Duran.

Em 1994, Ney Matogrosso gravou o disco “Estava escrito”, em homenagem a Angela Maria. O álbum contém canções do repertório da cantora e que ficaram consagradas em sua voz. Sua biografia foi lançada em 2015 pelo jornalista Rodrigo Faour e a a Rede Globo tem programada uma série sobre sua vida para 2019.

O último álbum de estúdio da artista foi “Angela Maria e as canções de Roberto & Erasmo”, lançado em 2017, pela gravadora Biscoito Fino.



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