Jornal do Brasil

Cultura

Malick encara o nazismo

Avesso aos holofotes, diretor finaliza longa sobre um fazendeiro que desafiou Hitler

Jornal do Brasil RODRIGO FONSECA *, Especial JB

Uma versão estendida do polêmico “A árvore da vida”, o ganhador da Palma de Ouro de 2011, com 188 minutos (e não com os 139 minutos originais), ganhou o Festival de Veneza, há um mês, como atração especial, fora de concurso, servindo como distração para os planos reais de seu realizador: o misterioso Terrence Malick. Avesso a fotos, imune a badalações e desconfortável com entrevistas (em quase três décadas, só deu uma coletiva, em 2017, no Texas), o realizador de 74 anos tem um longa-metragem sobre a II Guerra Mundial - vista do lado germânico não hitlerista -, no forno, pronto para sair. Chama-se “Radegund”. Nesta coprodução EUA e Alemanha, o ator August Diehl (de “O jovem Karl Marx”) interpreta o fazendeiro austríaco Franz Jägerstätter, um mártir das lutas de oposição ao nazismo, que combateu o Eixo nas regiões rurais de seu país, mobilizando a juventude local.

Macaque in the trees
Terrence Malick (Foto: Divulgação)

Jägerstätter foi assassinado pelas tropas de Hitler em 1943 e, anos depois, acabou sendo beatificado pela Igreja Católica. O agricultor cruza o caminho de um oficial do exército alemão também em crise, Herder (vivido pelo belga Matthias Schoenaerts), enquanto inventa estratégias para resistir às forças nazistas. O prestígio de Malick serviu como um ímã para atrair mitos germânicos dos palcos e das telas como Bruno Ganz (“Asas do desejo”) e Jürgen Prochnow (“O barco”), que integram o elenco do longa, fotografado por Jörg Vidmer (de “V de Vingança”). É o projeto mais intimista do cineasta e, ao mesmo tempo, o mais esperado pelo mercado, por representar uma ruptura com as narrativas mais filosóficas e messiânicas de seus últimos filmes, como “De canção em canção”, lançado ano passado.
Há uma expectativa de que “Radegund” possa abrir o 69º Festival de Berlim (7 a 17 de fevereiro) ou entrar na disputa de prêmios, pois, em 1999, ele saiu de lá com o Urso de Ouro por “Além da Linha Vermelha”, pelo qual também concorreu ao Oscar. A estreia está prevista para março, em solo europeu – mas nada foi oficializado. Tudo em Malick é cercado de segredo. Nem se sabe se ele vá aparecer na Berlinale, se for selecionado. Em 2011, quando “A árvore da vida” conquistou a Palma dourada de Cannes, ele não participou de nenhum dos eventos públicos ligados ao longa, embora o cineasta tenha estado na Croisette e jantado com os diretores artísticos do evento.
Ao longo de 49 anos de carreira, no qual finalizou onze filmes, Malick foi visto raríssimas vezes em público, recusando ser fotografado ou entrevistado. Um dos únicos jornalistas que romperam seu claustro foi o francês Michel Ciment, editor da revista “Positif”, que falou com ele no início dos anos 1970, logo após a estreia de “Terra de ninguém” (1973), Na ocasião, o então jovem cineasta falou de sua paixão pela obra de mestres como George Stevens (“Assim caminha a Humanidade”) e Elia Kazan (“Sindicato de ladrões”). Falou ainda que era fiel a um credo: os filmes falam por si, sem a necessidade de que a vaidade de seus realizadores ultrapasse as dimensões da tela. Há ainda um segundo credo nessa cabeça fervilhante, que repetidamente usa a metáfora do Éden como signo da decadência humana: o transcendentalismo.
Sempre amparado por fotografias arrojadas, Malick professa na tela uma homilia espiritualista, presente em longas como o cultuado “Cinzas no Paraíso” (1978) e o controverso “Amor pleno” (2012): a tese de que a natureza está acima da vontade dos homens. Em Malick, a Natureza é a onipotência em estado puro, só que esta é tratada a partir de contornos quase religiosos, num reflexo da formação do diretor pelo transcendentalismo, expresso em ensaístas como Ralph Waldo Emerson e Henry David Thoreau. O ideal transcendental desses autores escorre por Malick, seja pela evasão (no tempo ou no espaço) ou pelo tratamento quase divino dado ao ato de amar. A saga de Franz Jägerstätter é a forma de ele empregar a lógica transcendental nos feitos de um herói Real, que até hoje é adorado na Áustria por sua coragem. Há placas em homenagem a ele em diversos locais do território austríaco, como um emblema de resistência – palavra central na obra de Malick.
*Roteirista e crítico de cinema



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