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Cultura

Louis Garrel é grife de excelência

Jornal do Brasil RODRIGO FONSECA*, Especial para o JB

Divulgado anteontem na Europa, o anúncio de que Louis Garrel vai estrelar o novo filme de Roman Polanski, “J’accuse” - sobre um polêmico caso de falsa acusação da França do século XIX, de cunho antissemita, que resultou na prisão do oficial Alfred Dreyfus, - coincide com um dos momentos de maior prestígio profissional do ator e cineasta parisiense.

Muitas vezes rotulado como galã, pela beleza com que magnetiza espectadoras/es desde a sua aparição em “Os sonhadores” (2003), de Bernardo Bertolucci, o astro de 35 anos pode sair da 66ª edição do Festival de San Sebastián, que termina hoje, com outra designação: a de cineasta autoral.

História sobre (des)amores, “L’homme fidèle”, seu segundo longa como diretor, passou pelo evento espanhol como um rolo compressor, na competição pela Concha de Ouro de 2018. Há quem aposte que ninguém tira de Garrel o troféu de melhor direção e, de quebra, o de melhor roteiro, assinado por ele e por um mito do cinema: Jean-Claude Carrière, parceiro de Buñuel em cults como “A bela da tarde” (1967).

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Garrel contracena com a mulher, Laetitia Casta, em "Lhomme fidèle" (Foto: Divulgação)

Lições de sabedoria

“A França é uma terra marcada pela diversidade no cinema. Diversidade alimentada por mestres, como Leos Carax, Olivier Assayas, André Téchiné, e Carrière, sempre generoso. Já havia consultado Carrière antes, em ‘Dois amigos’, e ouvi dele, com seu bom humor precioso, uma lição de sabedoria. Ele me disse: ‘Vou te ensinar um truque de roteiro pra te ajudar pela vida inteira. Sempre que você pensar que vai exagerar no mel numa cena entre um casal, coloque um terceiro personagem, sem muito relevo para a trama, como testemunha do que se passa. Faça essa pessoa reagir com desdém, ou mesmo com nojo, diante de todo o açúcar que você adicionar aos beijos de seu casal. O público vai rir´. Ouvi esse conselho e pus em prática. Deu certo. Carrière é um professor mesmo. Fazer cinema é a arte de saber ouvir”, disse Louis em recente entrevista ao JB, enfatizando que sua alfabetização audiovisual se deve ao berço artístico onde nasceu: sua mãe é a atriz Brigitte Sy e seu pai, o cineasta Philippe Garrel.

Aclamado mundialmente por filmes como “Amantes constantes” (2005), Philippe escalou seu filho como ator diversas vezes e o estimulou a dirigir curtas antes de partir para projetos de alta voltagem dramática como “L’homme fidèle”. Neste romance, ele contracena com a própria mulher, a atriz e modelo Laetitia Casta. Na trama, vive Abel, um jornalista que acredita ter uma vida de plenitude com a namorada, Marianne (Laetitia), até o dia em que esta confessa estar grávida de outro. Mas não é outro qualquer: o pai é Paul, o melhor amigo de Abel. Para acentuar a carga de melodrama, Paul morre e Marienne quer voltar. Mas uma nova paixão se candidata ao coração de Abel, Eve, interpretada pela filha de Johnny Depp, Lily-Rose.

“Não sei muito explicar o que existe por trás das histórias que conto, mas conheço bem os sentimentos que existem por trás dela. O principal deles é a compreensão. Não julgo os erros, não julgo as ansiedades. Tudo isso faz parte da natureza humana. Essa foi uma das melhores lições que aprendi vendo meu pai filmando e construindo uma ótica pautada pela ética”, diz Garrel, que arrebatou os holofotes de San Sebastián.

Já escalado para o elenco de “Little women”, releitura do romance de Louisa May Alcott feita por Greta Gerwig (de “Lady Bird”), Garrel vê seu cacife internacional subir, sobretudo após o convite de Polanski. “Um dia, vi na televisão uma entrevista dele dando um conselho a jovens diretores. Dizia assim: ‘Pega a história que você deseja filmar e conte ela para alguém. Se você prender seus ouvintes do início ao fim, o filme vai dar certo. Mas, se em algum momento, seus interlocutores demonstrarem preguiça, seu projeto tem problemas. Preste atenção no local aonde seus ouvintes bocejaram ou se dispersaram, pois ali está seu ponto fraco’”.

*Roteirista e crítico de cinema

 



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