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Um escritor sem fim: confira crítica da peça 'Lima entre Nós - Estudo compartilhado a atualidade de Lima Barreto'

Jornal do Brasil CLAUDIA CHAVES*, Especial para o JB

O Brasil não tem povo, tem público. Essa é uma frase emblemática da obra de Lima Barreto espalhada em romances, sátiras, contos, crônicas e em periódicos, que cunhou desde sempre uma fina observação, as vezes satírica, as vezes dramática e muito irônica da sua visão do Brasil. Mulato, nascido em data premonitória, exatamente sete anos antes da Lei Áurea (13 de maio de 1881), lutou contra o preconceito, a loucura, a inadaptação social até a sua morte em 1922. Essa força de percepção, do texto primoroso, da palavra sempre bem encaixada é o que vemos no monólogo “Lima entre nós - Estudo compartilhado a atualidade de Lima Barreto.

O projeto de Leandro Santanna, dirigido por Marcia do Valle, é o resultado de um profundo e bem combinado quebra-cabeças de textos de Lima Barreto para evidenciar a potência de um texto que, há mais de cem anos, já apontava para as mazelas estruturais do Brasil. Preconceito, misoginia, racismo, ignorância, elitismo, corrupção são os temas que nos são apresentados pela voz e o corpo de Leandro, concorrente ao Prêmio Shell de 2018 como melhor ator.

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Leandro Santanna, que foi indicado ao Prêmio Shell, está em cartaz no Teatro Dulcina, hoje, às 19h (Foto: Divulgação)

Vestido de branco, em um figurino que nos lembra a roupa de escravos, ou um possível pijama de hospício, Leandro vai, ao lado de um pequeno móvel e rodeados de folhas escritas, desfiando os textos tirados da literatura, de cartas, dos diários, que se transformam em um importante depoimento pessoal de um sujeito sofrido, às vezes apartado do mundo quando internado nos manicômios, a sua inadaptação ao mundo chamado normal. A escolha, bastante acertada para fazer a ponte dos cem anos, tem a capacidade de trazer aos dias de hoje o pensamento de um dos mais importantes escritores do Brasil.

Leandro, ele mesmo negro, morador da Baixada Fluminense, é ator, produtor e diretor da Companhia Teatral Queimados Encena, consegue estabelecer um diálogo com a plateia de forma que sejamos levados a perceber que é importante se encarar o Brasil de hoje, com a mesma coragem que Lima encarou no século passado. A voz é forte, as palavras bem pronunciadas, a interpretação varia de acordo com o tom do que está sendo dito: revolta, alegria, perplexidade, desalento, coragem, e uma imensa tristeza de o Lima/personagem se ver sozinho na luta com a sua própria loucura, mas sobretudo no combate aos horrores do Brasil.

A peça vai num crescendo, do homem simples ao homem complexo, do lugar ao deslugar e a transformação de um sujeito subalterno, seja pela doença, seja pela cor, será substituída pelo imortal artista. Descalço o tempo todo, ao final Leandro/ Lima tira do pequeno móvel um terno listrado, símbolo dos poderosos da época, calça os sapatos, torna-se um dândi, tipo emblemático das elites da época. Leandro/Lima vai além da atualização do texto. Como grande ator, Leandro entende o papel do artista e consegue incorporar o desejo do autor: o povo é nosso público sempre.

*Professora do Depto. de Comunicação da PUC-Rio e doutora em Letras



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