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ArtRio começa hoje na Marina da Glória com propostas inovadoras

Jornal do Brasil MÔNICA LOUREIRO, monica.loureiro@jb.com.br

A arte brasileira é o destaque da 8ª edição da ArtRio, que abre hoje ao público na Marina da Glória. O visitante vai ver desde “Bumba Meu Boi”, o impactante painel em óleo sobre tela de Di Cavalcanti, da década de 1960 - e a obra mais cara do evento, ultrapassando os R$ 20 milhões - até os pequenos objetos de alumínio de Franklin Cassaro, intitulados “Cassarídeo Tubiliforme Alúmen”, que estão sendo vendidos a quilo - R$ 20 a cada 100g. “O cliente escolhe, pesa e leva. É um questionamento de valores”, diz Martha Pagy, que participa do programa Vista e conta que sua galeria funciona em casa, onde recebe os colecionadores em encontros agendados. Em contraponto, a paulista Almeida e Dale Galeria de Arte exibe telas dos artistas mais cobiçados e renomados do evento. Além do painel, Di Cavalcanti comparece com a tela “Vaso de flores”, de década de 1930, Lygia Pape, com um sem título, e Tarsila do Amaral com “Paisagem” e “Fazenda”. “Nosso acervo é moderno e temos a tradição de oferecer o que há de melhor. Convencemos dois grandes colecionadores de São Paulo a trazer as telas de Tarsila, que são da década de 1950. Diante da situação do país, eles estão preocupados e ficam sem saber se vendem suas obras ou esperam para ver se o mercado muda”, explica o proprietário Antônio Almeida.

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"Espelho, espelho meu" , tapeçaria em lã feita à mão, faz parte da última série de Nelson Leirner, esta em homenagem ao artista italiano Alighiero Boetti, que trabalhava com mapas (Foto: José Peres)

“Entre nossas prioridades está a de reforçar a arte brasileira neste mercado, tanto com o reconhecimento aos grandes nomes de nossa história como também com a apresentação de nova geração de artistas. Temos hoje no Brasil um mercado amadurecido, em total sintonia com as melhores práticas e regras éticas da cadeia global”, diz Brenda Valansi, presidente da ArtRio.

O evento está ocupando todo o pavilhão com os setores Panorama - galerias com atuação estabelecida no mercado de arte moderna e contemporânea - e o Vista - nove galerias, entre elas três estreantes, com até dez anos de existência e projetos desenvolvidos exclusivamente para a feira. As galerias dos programas Solo, Mira e Brasil Contemporâneo ficam no espaço Esplanada, uma grande tenda após a área de alimentação externa.

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Eduardo Berliner e suas novas técnicas (Foto: José Peres)

Logo no início do pavilhão, estão as conceituadas Marcia Barrozo do Amaral e Paulo Kuczynski. A primeira optou por apresentar apenas obras de Leo Battistelli, argentino radicado no Rio. “Não há trabalho parecido em toda a feira”, destaca a galerista, referindo-se às peças em cerâmica. “Uso moléculas de plantas poderosas, como a Cannabis, e de seres humanos. Tenho cuidado com o aproveitamento de material e energia, faço um trabalho ecosófico”, define Leo. A segunda, paulista, exibe obras que custam de R$ 150 mil a R$ 2 milhões: telas de Volpi, um busto feminino de Victor Brecheret datado de 1940 e as raridades “Paisagem do Rio de Janeiro”, tela de Cícero Dias de 1930, e uma obra de Luis Tomasello, de 1969.

 

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Novidade na feira de arte: obra a peso (Foto: José Peres)

 

Entre as propostas de obras mais acessíveis entre as galerias participantes da ArtRio, a Carbono opta por trabalhar com tiragens limitadas de artistas com trajetórias consolidadas. “Temos um Abraham Palatinik, que tem 25 cópias, com valor de R$ 32 mil. Um similar, sendo peça única, poderia custar entre R$ 100 e R$ 150 mil. Há também os quadros de Eduardo Berliner que, inclusive, nos contou abriram novas perspectivas, pois descobriu técnicas para criar múltiplos. A ideia é atrair clientes do chamado ‘novo colecionismo’ e também os VIPs, que podem ser atraídos por algum trabalho diferente”, explica a galerista Renata Castro e Silva.

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Gravura de José Pedro Croft (Foto: José Peres)

A visita no pavilhão ainda permite descobrir obras delicadíssimas como as telas de linhas bordadas de Bel Vasconcelos (Galeria Gaby Indio da Costa), as gravuras do escultor português José Pedro Croft, participante da Bienal de Veneza (Mul.Ti.Plo Espaço Arte) e uma obra de cores fortes e volumosa de Angelo Venosa (Galeria Nora Roesler). A tapeçaria em lã de Nelson Leirner intitulada “Espelho, espelho meu”, que custa R$ 185 mil, destaca-se na parede da Silvia Cintra. Ela faz parte de uma série que dialoga com o italiano Alighiero Boetti, símbolo do movimento artístico Arte Povera, nos anos 1960.

Entre os programas com curadoria, está a primeira edição do Brasil Contemporâneo, com curadoria de Bernardo Mosqueira, dedicado a galerias e artistas fora do eixo Rio - São Paulo. Cada galeria apresenta um projeto com obras de um único artista. Uma delas é a curitibana Soma, fazendo sua estreia na ArtRio com Gabriele Gomes, que tem atelier em Santa Teresa. Ela mescla colecionismo e arte nos trabalhos resultantes de uma viagem à Grécia. Do mesmo programa participa a OÁ Galeria, de Vitória, com um trabalho engajado de Rafael Pagatini. “Eu fiz uma investigação sobre o período militar e descobri um material interessante nos arquivos do Dops no Espírito Santo. São fotos e anotações que um agente fez na época durante um evento da Igreja Católica”, mostrando os blocos de madeira onde podem-se ver fotos desbotadas e “fichas” com nomes e frases que, na época - e até hoje, infelizmente - poderiam soar comprometedoras politicamente. Em outra parede, caixas de arquivo de papelão exibem fotos do general Figueiredo, Maluf e Geisel durante a inauguração da Rodovia dos Bandeirantes.

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Trabalho de Rafael Pagatini (Foto: José Peres)

Uma boa novidade desta edição da ArtRio é o site que vai ao ar hoje, com a abertura do evento. A iniciativa é pioneira, pois é a primeira feira de arte do mundo a ter a venda online de obras das galerias. O ArtRio.com estará ativo durante todo o ano. “Nosso foco será possibilitar para os galeristas e para o público comprador um novo canal, que alia segurança, rapidez, comodidade e conveniência”, explica Brenda Valansi.

O site é bem prático, com filtros para navegar por galeria, artista, obra e valor. A lista tem pintura, fotografia, escultura, desenhos, instalação e videoarte, incluindo até a opção de gift cards.

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Leo Battistelli com uma de suas obras na ArtRio (Foto: José Peres)

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SERVIÇO

ARTRIO 2018 - Marina da Glória (Av. Infante Dom Henrique, s/n – Glória).

Qui. a sáb., das 13h às 21h. Dom., das 13h às 20h. R$ 40. www.artrio.art.br



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