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No palco da perseverança: confira crítica de "Marvin"

Jornal do Brasil RODRIGO FONSECA *, Especial JB

Sutilezas nunca foram o ponto forte da diretora Anne Fontaine (“Coco antes de Chanel”) na representação de sentimentos represados ou de possíveis ambiguidades: a obra desta atriz e cineasta é guiada pela exposição crua das angústias de seus personagens. Assumida essa natureza, por vezes indigesta, ela deita e rola na releitura para as telas de “En finir avec Eddy Bellegueule”, as confissões autobiográficas do escritor Édouard Louis acerca do calvário do bullying e da rejeição familiar. A partir de um diálogo cheio de licenças poéticas com o livro, Anne estrutura o drama “Marvin ou la belle éducation” como um ensaio sobre a arte de perseverar, na fronteira tênue entre a mágoa e o perdão. Seu protagonista não é Eddy, e sim, Marvin Bijou, garoto pobre que cresce acossado pelo rancor homofóbico de colegas e parentes, até se salvar num encontro com o espaço de criação dos palcos, onde vai exorcizar seus demônios.

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Finnegan Oldfield é Marvin, ator que encontra em Isabelle Huppert um colo para descansar de sua luta (Foto: Divulgação)

Uma chance de trabalhar com Isabelle Huppert – que interpreta a si mesma nesta produção coroada com o Queer Lion, a láurea LGBT do Festival de Veneza – amplia seu senso de descoberta e de autocrítica no relato construído a cada cena deste longa-metragem. A força confessional do filme ganha potência plástica na delicada fotografia de Yves Angelo (“Germinal”) e no carisma do ator Finnegan Oldfield, que vive Marvin na idade adulta, já com outro nome, mas com os mesmos sonhos de paz de seus dias de menino. É o longa de maturidade de Anne como realizadora.

*Roteirista e crítico de cinema

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MARVIN: *** (Bom)

Cotações: o Péssimo; * Ruim; ** Regular; *** Bom; **** Muito Bom



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