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No rastro de Kusturica: entrevista com o cineasta

Cineasta sérvio, que emocionou o Festival de Veneza com documentário sobre Mujica, revê a dimensão política da fábula nas telas

Jornal do Brasil RODRIGO FONSECA *, Especial JB

Em Veneza, o sérvio Emir Kusturica já é de casa. Duas vezes premiado com a Palma de Ouro em Cannes, por “Quando papai saiu em viagem de negócios” (1985) e “Underground – Mentiras de guerra” (1995), o cineasta há tempos deixou de ser um queridinho da Croisette, por conta de suas declarações políticas polêmicas e pela rejeição a seus trabalhos de ficção recente. Mas, na terra das gôndolas, ele encontrou um porto seguro e uma legião de fãs, que, segundo relatos da imprensa europeia, foram às lágrimas diante de seu novo projeto, “El Pepe, uma vida suprema”. Seu tema: o legado do octogenário ex-estadista uruguaio Pepe Mujica, que estava na plateia e se comoveu. Projetado fora de concurso, o longa é decorrência de uma jornada latino-americana de Kusturica, iniciada com um .doc sobre Maradona, de 2008, e com um segmento do longa em episódios “Words with Gods”, idealizado pelo mexicano Guillermo Arriaga.

Há dois anos, o diretor encantou o Lido com sua última ficção, “On the Milky Road”, ficção estrelada por ele e Monica Bellucci que abriu o Festival Mimo, no Odeon, na Cinelândia, em 2017, mas nunca teve espaço em circuito comercial. Ele agora prepara um novo drama, “If not now, when?”, baseado na prosa de Primo Levi, e um novo CD com sua banda de rock, The Non-Smocking Orchestra. Esta entrevista ao JB foi dada em meio à preparação das entrevistas com Mujica e, nela, ele revê seu papel ético no cinema.

 

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Em Veneza, Kusturica leva o estadista uruguaio às lágrimas com seu novo projeto, "El Pepe, uma vida suprema" (Foto: Divulgação)

 

JORNAL DO BRASIL: Sua visão política, expressa no documentário sobre Mujica e em ficções como “On the Milky Road”, espelha de que maneira a realidade da sérvia e dos conflitos do Velho Mundo?

EMIR KUSTURICA: Meu cinema é uma resposta ao mundo ao meu redor. Eu vivo em um ambiente complexo, de turbulências, e é desse turbilhão que posso falar. Cresci sobre a influência do cinema americano dos anos 1970, quando filmes como “Taxi driver” me ensinaram que espetáculos populares podiam transgredir e, ainda assim, abrir uma ampla comunicação com plateias de todo o mundo. Filmo atrás desse efeito, buscando diálogo. Não sei dizer se isso é um gesto político. Mas sei que este mundo que me inspira está ficando cada vez mais perigoso.

E como reagir ao perigo?

Eu não sei o quanto, nem como, filmes e canções conseguem transformar a realidade de perigo à nossa volta. A Europa está doida. Mas a arte ainda pode afetar o real, e as pessoas, abrindo novos pontos de vista sobre os fatos.

Seus últimos sucessos foram documentários. Mas sua fama nas telas veio de filmes com base na fabulação.

Como está sua relação com a fábula hoje?

O que você chama de fábula eu chamo de poesia. E o maior problema do cinema contemporâneo é que ele fica cada vez menos poético a cada filme. O cinema quer ser explícito e direto, mas, com isso, ele se empobrece na perda de simbolismos. Eu ainda aprecio o valor das metáforas. Sou um sujeito que ouve Nino Rota, o compositor das trilhas do Fellini, ao mesmo tempo que curte Lou Reed e The Clash. Eu gosto de misturas autorais. *Roteirista e crítico

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Filme fala sobre a condenação de Mujica

Além do filme de Kusturica, a memória de Mujica ganhou destaque nas telas de Veneza a partir de uma coprodução Uruguai-Argentina que tentou a sorte na Mostra Horizontes: “La noche de 12 años”. A direção é de Alvaro Brechner, consagrado pela comédia “Sr. Kaplan” (2014). Em seu novo (e eletrizante) longa, o cineasta revive um dos momentos mais tensos da ditadura da América do Sul, quando os militares uruguaios resolveram condenar três presos à solitária por 12 anos. Mujica foi um deles. É o espanhol Antonio de la Torre quem vive o político.

Com “ROMA”, de Alfonso Cuarón, e “Sunset”, de László Nemes, como favoritos, a briga pelo Leão de Ouro de 2018 chega ao fim neste sábado. Hoje, Veneza recebe mais dois competidores: “Nuestro tempo”, do cultuado mexicano Carlos Reygadas, e “July 22”, no qual o campeão de bilheteria Paul Greengrass (cineasta inglês que rodou a franquia Jason Bourne) revê o massacre de Utoya, na Noruega, em julho de 2011.



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