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Sempre aos domingos: A roupa como uma tomada de posição

Jornal do Brasil GILBERTO SCOFIELD JR.

A jogadora de tênis Serena Williams é um gigante aos 36 anos como atleta. Com os 23 troféus conquistados em torneios do Grand Slam, é a maior campeã da história de torneios do gênero (a alemã Steffi Graf tem 22 troféus). É ainda mais velha campeã de todos os quatro Grand Slam do momento: Wimbledon, aos 34 anos, Australian Open, com 35 anos; Roland Garros, aos 33 anos; e US Open, aos 32 anos. É também medalhista de ouro em três Olimpíadas. Juntas, suas premiações renderam à Serena quase US$ 100 milhões. Serena arrisca pontas como atriz e, por ser negra, virou inspiração para milhares, talvez milhões de meninas negras ao redor do mundo, que nunca associaram um esporte tão elitista quanto o tênis à presença de gente de cor.

Serena é dona de uma personalidade forte, briga às claras por algo que considera errado, tanto na vida pessoal quanto profissional. Há coisa de três anos, a ativista e pesquisadora de Filosofia Política Djamila Ribeiro escreveu um artigo para a “Carta Capital” intitulado “Comentaristas esportivos: respeitem Serena Williams”. Dizia ela: “A mídia racista e sexista não se conforma em ver uma mulher negra com personalidade. John McEnroe, um grande tenista da história, era excêntrico, discutia com os árbitros, possuía um comportamento até agressivo muitas vezes. Mas como ele é homem e branco era tido como alguém de personalidade forte, irreverente. Serena é tida como encrenqueira, mau exemplo para os fãs, bruta... Tanto na ESPN como no Band Sports, os comentaristas se referem à Serena Williams como “Serenão”, por ela ser forte. Percebem a falta de respeito nisso? É como se uma mulher para ser forte precisasse ser colocada num padrão masculino; está se dizendo que mulher e força não combinam, reproduzindo o mito da fragilidade feminina. Além disso, tem garra, expressa raiva, tem jogo agressivo, atitudes quase criminosas para uma mulher”.

Macaque in the trees
Serena Williams em seu macacão negro, "A roupa de Wakanda", em Roland Garros (Foto: AFP)

Isto posto, vamos ao que interessa. Dona de sua própria marca de roupas, na quarta-feira, dia 30/5, Serena competiu contra Kristyna Pliskova em Roland Garros e venceu por 2 sets a 0, marcando sua volta triunfal às quadras, mesmo com dificuldades. Explique-se: em sua gravidez recente, Serena teve problemas no trabalho de parto e se submeteu com urgência a uma cesárea depois que os médicos perceberam que os batimentos cardíacos de sua primeira filha, Alexis, caíram surpreendentemente. Estas dificuldades lhe renderam problemas circulatórios com alto risco de formação de coágulos. Por conta disso, Serena pediu à Nike que a desenhasse um macacão de pressão que auxiliasse na circulação sanguínea durante os jogos em Garros.

A jogadora se apresentou com o macacão negro, para espanto geral do mundinho esportivo. No Instagram de Roland Garros, fotos de Serena no macacão foram acompanhadas de uma declaração da atleta: “Me sinto como uma guerreira, como uma princesa guerreira, a rainha de Wakanda. Eu estou sempre vivendo em um mundo de fantasia. Eu sempre quis ser uma super-heroína. Este é meu jeito de ser uma super-heroína. Me sinto como uma quando uso essa roupa!”. A Roupa de Wakanda (pátria do herói negro da Marvel Pantera Negra), como ficou conhecida, foi usada para inspirar mães que tiveram dificuldades no parto. “Para todas as mães que enfrentam uma recuperação complicada depois do parto. Se eu consigo enfrentar, vocês também podem. Amor para todas nós!”, disse no Twitter. Tem coisa mais humana? Serena usou uma maneira poderosa e estilosa para demonstrar que se sentia bem a respeito de seu corpo após um parto complicado. E que qualquer mulher podia fazer o mesmo. O mundo da moda também tratou de celebrar aquela maneira de quebrar com o estilo mauricinho das competições do Grand Slam, uma lufada de modernidade em meio à austeridade da festa.

O entusiasmo de Serena durou um dia. Pliskova questionou a WTA (Associação Mundial de Tênis) se o macacão de Williams seria apropriado para jogar e se encaixava nas regras de Garros. No dia seguinte, o dirigente de Roland Garros, Bernard Giudicelli condenou o traje, qualificando-o de desrespeitoso: “É um pouco tarde, porque a coleção já foi confeccionada, mas vamos pedir aos fabricantes que nos digam o que está por vir. Eu acredito que há coisas que vão muito além. O traje de Serena neste ano não será mais aceito. Nós devemos respeitar o jogo e o local”, disse ele à revista “Tennis Magazine”. Como assim, respeitar o local? Ela estava nua?

Essa tomada de posição de Serena não encontrou ressonância na elite de homens brancos e ricos de Garros e sua concepção de como uma mulher deve se vestir com respeito ao torneio. Muitos reagiram. A decisão de Giudicelli foi classificada assim pelo ex-jogador americano Andy Roddick no seu Twitter: “Isso é tão estúpido e de uma visão tão estreita das coisas que chega a machucar”. A Nike fez uma campanha com a foto de Serena e sua Black Panther com os dizeres: “Você pode tirar a roupa da super-heroína, mas jamais seus superpoderes”.

Serena levou na boa. Em coletiva, disse que não se repete roupa polêmica. E, quando se esperava que ela aparecesse com a sainha típica das jogadoras de tênis, ela surpreende de novo e entrou na quadra na quinta, dia 30/5, para jogar contra a polaca Magda Linette com um traje que consistia numa malha de um ombro, saia de tutu, todas pretas, e um par de tênis prateados. O modelito foi desenhado por Virgil Abloh, o papa da streetwear, criador da Off-White e diretor artístico da coleção masculina da Louis Vuitton. Na mochila preta, o aviso: AKA Queen.

Já há entre os frequentadores de Roland Garros e entre os atletas a ideia de que pouco importa como os jogadores se vestem, desde que o jogo valha a pena o ingresso. Mas a elite dirigente do Grand Slam não parece perceber isso e insiste em “respeito ao jogo”, em detrimento do respeito ao jogador decidir como ele prefere se vestir e usar seu corpo dentro das circunstâncias. Giudicelli fez um esforço danado para colocar a situação como uma questão de “vestimenta inapropriada”, mas há indisfarçáveis traços de inconformismo diante de uma mulher negra e rica que decide usar uma roupa que, do ponto de vista do esporte e de sua condição médica, era a melhor opção. Como dizia Djamila lá no início, é a velha elite masculina branca dizendo a uma mulher como se vestir e como se postar. Caros, o século é 21, caso ainda não tenham percebido.



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