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A prata do terror renasce em Veneza sob aplausos e vaias

Jornal do Brasil RODRIGO FONSECA *, Especial JB

Sangrento, sensual e fora das convenções do cinema de gênero em sua narrativa de múltiplos cortes, “Suspiria” é a polêmica de que o Festival de Veneza necessitava em seu empenho para se tornar o evento mais pop entre as grandes mostra do audiovisual: dividiu o público e a crítica entre vaias e aplausos, entre narizes torcidos e declarações de amor. Só o fato de a Europa ver um filme de terror (daquele dos mais assustadores) de igual pra igual com experimentos narrativos autorais e intelectualizados já prova que o flerte com a estética do espetáculo deu certo. Porém, o novo filme de Luca Guadagnino – realizador do badalado “Me chame pelo seu nome” – vai muito além de jogada de marketing. É uma declaração de amor ao filão do assombro, em uma elegante e ousada recriação do cult homônimo de 1977, rodado por Dario Argento. Tilda Swinton entra aqui como a coreógrafa de uma companhia de dança lotada de bruxas que cultuam entidades malignas. E é a jovem bailarina Susie (Dakota Johnson, de “50 tons de cinza”) quem vai pagar o pato das Trevas – ou quase...

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Estrela da franquia "50 tons de cinza", Dakota Johnson se confronta com bruxaria na refilmagem de "Suspiria" (Foto: Divulgação)

“Eu vi ‘Suspiria’ quando tinha uns 15 anos e passei a ver tudo de Dario. E, eu te garanto, eu não estaria aqui se não fosse por ele”, confessa Guadagnino ao JB. “Mas eu tenho um episódio anedótico com ele, da adolescência. Nessa época de ardor pelos filmes dele, uma amiga da minha mãe a ligou dizendo que esbarrou com Dario em um restaurante de Palermo, onde a gente vivia. Eu corri para lá e me grudei no vidro da fachada esperando ele olhar para mim. Dario é uma figura gentilíssima e foi um doce. Mas eu fico pensando que ele deve ter estranhado aquele garoto vidrado nele, como um doido. Até levei a situação para o meu ‘Suspiria’, numa cena com Tilda”.

Falando em Tilda, ela é, até aqui, a favorita para o prêmio de Melhor Atriz de Veneza: no papel de Madame Blanc, uma referência da dança contemporânea na Berlim de 1977, onde a trama se passa, ela cria uma figura soturna, mas maternal. Nada é definível de cara em “Suspiria”. Tudo é dúbio, até o caráter de Suzie, a suposta mocinha que Dakota encarna com expressões angelicais. O que incomodou Veneza, em tanta dubiedade, foi a alusão que Guadagnino cria entre o terror mítico, de fantasia, e o horror dos terroristas, em uma menção ao grupo alemão Baader-Meinhof.

“Eu levei muito do (cineasta alemão) Fassbinder, um mestre da crueldade, fã de figuras femininas fortes, para este trabalho”, disse Guadagnino, forte candidato ao Leão de Ouro, sobretudo diante do fato de que o presidente do júri do prêmio, o diretor mexicano Guillermo Del Toro (“A forma da água”), cultua o universo fantástico.

Nos calcanhares de “Suspiria” há dois longas cheios de vigor. Do lado mais experimental, vem “ROMA”, de Alfonso Cuarón, que se grafa em maiúsculas como uma brincadeira com a palavra “amor”: num preto e branco refinado, o diretor de “Gravidade” (2013) revisita o México dos anos 1970, pelos olhos de uma empregada doméstica ameríndia. No lado mais clássico, está “Peterloo”, do britânico Mike Leigh, mestre do naturalismo que recria de modo cru um massacre em Manchester, em 1819 para silenciar as lutas democráticas de ingleses pobres. A brutalidade da sequência do embate de tropas armadas contra 6 mil pessoas de baixa renda levou espectadores a fechar os olhos.

Neste sábado, o Lido conferiu o melhor dos documentários apresentados até o momento: “Camorra”, de Francesco Patierno. Pautado numa estrutura investigativa calcada em imagens de arquivo, o longa viaja pela História, de 1960 a 1990, com foco em Nápoles e a construção da célula mafiosa local, em resposta à pobreza e ao êxodo rural. Numa sequência espantosa, o filme resgata uma entrevista de um menino de 5 anos que passa os dias a vender cigarros para garantir o sustento dos parentes.

Hoje, a briga pelo Leão de Ouro avança pelo Oeste americano, na diligência do francês Jacques Audiard (ganhador da Palma de Ouro por “Dheepan: O refúgio”), que estreia em língua inglesa com o filme de caubóis “The Sisters Brothers”. Na trama, os irmãos Eli e Charlie Sisters atravessam as pradarias dos EUA à caça de um explorador de minas de ouro. No fim do dia, rola a projeção do esperadíssimo “Sunset”, releitura da vida na Hungria na I Guerra Mundial do diretor László Nemes, oscarizado por “O filho de Saul”, em 2016. O festival termina dia 8, com a premiação e a exibição de “Driven”, de Nick Hamm.

* Roteirista e crítico



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