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Literatura: Peripécias de Forsyth

Jornal do Brasil CECILIA COSTA*

Em seu livro “O outsider”, Frederick Forsyth conta com maestria de escritor consagrado várias passagens de sua vida. São grandes e pequenas aventuras, algumas delas bem arriscadas, que dariam origem a livros best-seller que virariam filmes, como “O Dia do Chacal” e “O Dossiê Odessa”. Apesar de não ter desejado escrever uma autobiografia, passamos a conhecer bem melhor a vida deste famoso correspondente internacional que está perto dos 80 anos e que muitas vezes exerceu, na pele de jornalista, o papel de espião inglês nos países nos quais se encontrava. E foram muitas as viagens, já que desde criança tinha uma curiosidade insaciável e imensa vontade de conhecer o mundo.

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O OUTSIDER: MINHA VIDA NA INTRIGA (Foto: Divulgação)

O livro começa com Forsyth explicando como se tornou escritor. Foi por acaso, quando voltou da África, onde cobriu a Guerra de Biafra, e estava desempregado e sem dinheiro algum. Neste momento, inspirado no ataque de rebeldes argelinos a De Gaulle, resolveu escrever sobre um atentado a um presidente e a caçada ao assassino. O livro foi aceito por uma editora, que ainda por cima lhe encomendou mais dois, e sua vida mudou completamente, porque passou a viver da escrita. Ele observa que o escritor é uma das pessoas mais solitárias do mundo, já que para escrever tem que ficar sozinho, de preferência sem ouvir nenhum ruído. A única profissão tão solitária, diz, é a do faroleiro. Ao mesmo tempo, pode aparecer em festas, beber, dar boas risadas e ser bem sociável, quando necessário, pois precisa ter contato com suas personagens, apurar comportamentos e histórias para os livros. Fazer anotações. Ou seja, é um outsider, alguém que tem que estar sempre fora de tudo, livre social e politicamente, mas também tem que estar “dentro”.

Frederick Forsyth nasceu em Kent, Inglaterra, em 1939, ano em que Hitler declarou guerra ao mundo, ao invadir a Polônia. Seus pais, que ele elogia muito, resolveram tirá-lo do cenário da guerra, enviando-o aos 20 meses para uma escola de babás. Passou a odiar talco, já que as alunas viviam a lhe trocar as fraldas ao menor sinal de xixi ou cocô, empoando-lhe as partes baixas continuadamente. Felizmente, um ano depois, os pais o tiraram deste tormento, trazendo-lhe de volta para casa.

Dono de uma loja de peles e major do Exército inglês na Segunda Guerra, o pai se preocupou muito em fazer com que o filho estudasse línguas, dando-lhe uma ferramenta que usaria por toda a vida: a fluência em francês e alemão e o conhecimento de russo. Para isso, foi enviado à França, ainda garoto, e depois para a Alemanha, passando a morar com uma família francesa uns seis meses e depois com uma alemã, sempre nas férias. No caso do francês, chegou a aprender as gírias, o argot, e falava tão bem que poderia ser tomado por um francês. O mesmo ocorreria, aliás, com o alemão. Falaria sem sotaque algum. Mais tarde, adolescente, por conta própria passaria uns tempos na Espanha, tendo ficado fluente também em espanhol.

Sua primeira forte experiência quando criança, lá pelos 5 a 6 anos, foi ver em 1944 um tanque no jardim dos pais, dirigido por um americano, e depois ter visitado um hangar cheio de Sitiares da base aérea de Hawking. Jurou que seria piloto de caça quando crescesse. E por isso, enquanto estudava numa escola rígida que odiou (a Old Big Sacholo, de Tonbridge), procurou ainda bem jovem tirar o brevê de aviador da Força Aérea Real, a RAF. Concluiu o ensino médio e, ao mesmo tempo, com apenas 17 anos, ganhou “as asas” da RAF, mas, ao descobrir que não poderia dirigir o avião que queria, o supersônico Hawker Hunter, resolveu que seria jornalista.

Fez então um curso num jornal do interior inglês, o “Eastern Daily Press”, de Norfolk, e depois foi para Londres procurar emprego na rua dos grandes jornais e das agências, a Fleet Street. Teve dificuldades no início, chegando a desanimar. mas encontrou num bar um jornalista mais velho que também trabalhara no Eastern Daily Press, tendo coincidentemente sido formado nas “pretinhas” pelo veterano Frank Keeler. Foi um golpe de sorte. Este jornalista apresentaria Forsyth a um amigo da Reuters onde ele seria imediatamente contratado por causa do conhecimento de línguas. Primeiro trabalhou na Inglaterra, mas logo estaria viajando, com a primeira parada tendo sido na França de De Gaulle, no momento crucial em que o presidente francês enfrentava muita oposição por causa da Guerra de Argélia.

As aventuras de Forsyth apenas começavam. E não pararam até hoje. Ele passou a acompanhar todas as saídas de De Gaulle, a pedido da Reuters, tendo assistido o Citröen do grande homem e sua mulher Yvonne ser cravado de balas. Da França, seria indicado para Berlim Oriental, onde ficaria sob constante vigilância da Stasi; veria os alemães chorarem a morte de Kennedy e viveria um outro momento emocionante: a da queda do avião espião americano em campo dominado pelos russos, em março de 1964. A Reuters mandou seu jornalista procurar o avião abatido em Magdeburg e ele o achou. Assim como achou os russos que haviam capturado os pilotos. Foi capturado também, mas se fez de idiota, falando um péssimo alemão, e desta forma conseguiu voltar para o carro e depois ditar uma longa reportagem para Londres, que correria o mundo.

Decepção com a BBC e fé na Ibolândia

Ao voltar de Berlim Oriental, Forsyth decidiu que iria tentar entrar para a BCC. Fez uma prova e conseguiu. Perceberia logo que a escolha fora um erro. Oficialesca, a BCC era reacionária e dominada por burocratas. A primeira experiência foi um desastre. Foi enviado para a África para cobrir o que seria a insurreição de um enclave rebelde na Nigéria. Todas as informações que recebeu em Londres, logo descobriria, estavam equivocadas. Haviam sido dadas pelo comissário inglês em Lagos, Sir David Hunt, esnobe e racista. O grupo rebelde ibo, em guerra com os hauçás muçulmanos do Norte, se provaria um grupo resistente, e o que era considerado um movimento insurrecional pífio, que logo seria abafado, se transformaria numa sangrenta guerra de três anos. Em seu primeiro relato, Forsyth revelou tudo o que vira e ouvira, ou seja, a realidade do que vinha ocorrendo na Nigéria, e por isso a BBC ordenou que voltasse imediatamente para Londres. Voltou, mas decidiu deixar a BBC de vez, dar um pulo em Israel, já que o haviam proibido de cobrir a Guerra dos Seis Dias, e retornar a África por conta própria, para fazer matérias sobre a valentia do povo ibo – a Ibolândia – para inúmeros órgãos de imprensa. Em outras palavras, por causa da Guerra de Biafra, da fome e das crianças esquálidas, se tornaria um correspondente internacional ativo com passe livre.

Foi tamanho o seu envolvimento com o sofrido povo liderado pelo coronel Emeka Ojukwu (que havia estudado em Oxford e se tornaria um amigo leal de Forsyth) que houve quem dissesse que ele mesmo havia se tornado um rebelde, já que houve momentos que, para se proteger, teve de usar a roupa camuflada do exército do amigo. Várias vezes quase morreu, devido à proximidade de balas, morteiros e bombas. Uma das balas, das quais escapou, ele carregaria num cordão no pescoço quando fosse visitar outras áreas conflagradas. E um dia, num evento em Londres, um dos presentes que pertencera ao Serviço Secreto Britânico e também estivera na África pelo lado oficial, o que era apoiado por Harold Wilson, contou-lhe que o tivera na mira de sua arma, mas que decidira não matá-lo. Sorte, pura sorte.

Sim, desde o primeiro jornal e da primeira agência, muitas vezes foi a sorte que guiou a vida deste grande escritor, que obteve grandes reportagens de campo, e também grandes entrevistas, como a que fez com David Ben-Gurion, num deserto em Israel, e aquela que fez com Simon Wiesenthal, pesquisador que participara dos julgamentos de Nuremberg e era a principal fonte das caçadas aos nazistas, o que haviam se exilado e os que ainda habitavam a Alemanha pós-guerra. Tanto Gurion como Wiesenthal disseram que não queria falar nada, mas, quando se encontraram com Frederick Forsyth, que recorria no começo da entrevista sobretudo ao vívido passado, falaram pelos cotovelos. Com base nas informações de Wiesenthal, ele pode escrever “O Dossiê Odessa” e ajudar a encontrar um açougueiro nazista que estava na Argentina, o criminoso de guerra Eduard Roshmann.

E são inúmeras as outras histórias, já que quis escrever também sobre mercenários e tráfico de cocaína, correndo novamente riscos que deixavam suas mulheres – foram duas, Carrie e Sandy – estressadas. Não parou e não quer parar, seguindo à risca a instrução do primeiro chefe, Frank Keeler, que dizia que tinha que apurar, apurar, apurar, até começar a redigir o texto. E há também em “Outsider” as pequenas histórias deliciosas, como a de quando fez amor com uma agente da política secreta de Praga, que o estava vigiando na capital tcheca; quando foi à África do Sul e ficou amigo de Pik Botha, achando que o ministro não sabia que ele estava trabalhando para o Ministério de Relações Exteriores da Inglaterra, mas o ministro o sabia, é claro, ou quando quase morreu num barquinho no Pacífico, durante uma terrível tempestade, tendo sido salvo pela competência do barqueiro Moon.

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SERVIÇO

O OUTSIDER: MINHA VIDA NA INTRIGA, de Frederick Forsyth. Ed. Record, 2018, 336 págs.).Tradução: Alessandra Bonrruquer. A partir de R$ 40,90.

*Jornalista e escritora



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