O roubo Rocinha e o roubo JBS: duas histórias, duas justiças

Na Rocinha conheço um jovem, réu primário, de 23 anos, que recebeu pena de quatro anos por uma tentativa de roubo de um celular próximo ao Jardim Botânico. Ele me contou o quanto sofreu durante a detenção. A família sofreu juntamente ao longo do período em que ele esteve em regime fechado, enfrentando as piores humilhações nas revistas vexatórias e tendo que pagar até a água para manter o jovem vivo. 

Essa não é a realidade exclusiva deste jovem, mas é uma realidade que atinge os milhares de presos e seus familiares no sistema prisional do Brasil. A população carcerária é formada em sua maioria por jovens negros, pobres e com baixa escolaridade. A maior parte dos presos cumpre pena por tráfico e roubo. 

Essa realidade só não atinge aos grandes ladrões do Brasil. Os corruptos responsáveis por deixar o povo sem comida na mesa, sem escola e morrendo nas filas de hospitais. Afinal, no Brasil ser corrupto compensa, desde que seja muito rico e poderoso. 

Como podemos aceitar que um senhor desvie milhões do Brasil, faça um acordo de delação, lucre com a delação na bolsa, roubando ainda mais o país e ainda sim siga sua vida em um prédio de luxo em Nova York?

Esse senhor é delinquente e deve ser responsabilizado diretamente pelo desemprego, pobreza e crise que atinge o pais. A JBS é a segunda empresa que mais deve à Previdência Social, devendo R$ 2 bilhões e que continua operando normalmente. Essa é a causa do déficit na previdência e não os aposentados com seus salários mínimos. Mas é ele e outros empresários milionários que dão as cartas no Congresso, por isso a pressa nas reformas para atender a estes interesses. 

Não adianta Operação Lava-Jato e delação se for para deixar esses senhores impunes. Se ele construiu patrimônio às custas do povo, o mínimo que deveria acontecer é prisão e a intervenção de suas empresas. Os brasileiros esperam por justiça e também pelas eleições diretas, do contrário este senhor é quem vai eleger o próximo presidente. 

Enquanto ele curte Nova York, o preso pobre continua atrás das grades. Justiça? 

* Davison Coutinho, morador da Rocinha desde o nascimento. Bacharel em desenho industrial pela PUC-Rio, Mestre em Design pela PUC-Rio, membro da comissão de moradores da Rocinha, Vidigal e Chácara do Céu, professor, escritor, designer e liderança comunitária na Comunidade