Filhos sem pai: a dura realidade das famílias abandonadas nas favelas

Quem se atreveu a perguntar para alguma criança na favela “cadê seu pai? ”, sabe da difícil realidade das muitas crianças criadas pelas mães solteiras, avós ou parentes. Infelizmente, a maioria da resposta é de chorar: “não sei quem é meu pai”, “ele me abandonou quando era pequeno, nem sei onde ele está” ou “ele não me ajuda em nada”.  Hoje, após fazer uma seleção de jovens que buscavam uma vaga de jovem aprendiz, pude ouvir muitas histórias. 

Onde estão os homens? O sujeito tem a coragem de engravidar uma mulher, muitas vezes, diversas mulheres e colocar no mundo um (na verdade, muitos) filho para ser criado sem pai. Esse mesmo sujeito se orgulha der ser “machão” mas, pelo contrário, está longe de ser homem. Aliás, está longe de seu papel na sociedade. 

A primeira que ouvi o relato era uma menina de 15 anos, moradora da parte alta da Rocinha. Com um problema grave na vista, estava atrasada na série escolar e mesmo aos 15 anos pode ser considerada semianalfabeta. É criada pela mãe que é faxineira e com ajuda da avó, uma senhora que cuida de crianças. Seu sonho: “pode ganhar dinheiro e ajudar minha avó e minha mãe, comprar comida pra casa”.

Depois de muitos depoimentos, bate na porta outra menina de também 15 anos. Eu já estava saindo para almoçar, quando ela me pergunta “vocês estão precisando de gente pra trabalhar?” Antes mesmo de eu dizer que as inscrições haviam acabado, ela começa a chorar e pede “por favor, não me fala que não”. Pedi para se acalmar e fui ouvir sua história. Com muito choro, ela contou que tinha um filho de um pouco mais de 1 ano, havia engravidado aos 13 anos. O pai da criança não dava nenhuma assistência e se mudou com a família. A mãe da jovem havia dado um prazo para ela sair de casa com a criança. Ela já não estudava. Com um tempo, encontramos uma solução para jovem, desde que se ela se comprometesse a voltar com a matrícula da escola realizada. 

Por fim, uma menina de apenas 14 anos. Ela informou o nome da mãe e deixou o nome do pai em branco. Quando perguntei por seu pai, ela, com os olhos cheio de lágrimas, disse: “Não fala nisso por favor, não quero nenhum contato e nem falar desse assunto”. 

Já pelo fim do dia, depois de mais de 50 jovens atendidos com as mais difíceis histórias, continuei me perguntando, onde estão esses homens? Já era hora de ir embora, fui buscar minha filha na escola. Ela saía com o maior sorriso na porta quando me viu. Estava com o cabelo lindo, com uma trança feita pela professora, e me contava com alegria do seu primeiro dia de volta às aulas. Peguei ela no colo, a beijei, mas não consegui esquecer a dor vivida por todas essas crianças. 

Já é noite, ainda não tirei da minha cabeça o choro desses jovens. Por isso, uso essa coluna para relatar as dificuldade de tantas famílias abandonadas por sujeitos que se dizem homens. Aos tais sujeitos, deixo a reflexão. Parabenizo a todas essas mulheres guerreiras, mães, avós, tias que dão duro nos seus trabalhos de domésticas, costureiras, balconistas, cozinheiras, babás e não deixam faltar o pão na mesa e a esperança de um amanhã. 

* Davison Coutinho, morador da Rocinha desde o nascimento. Bacharel em desenho industrial pela PUC-Rio, Mestrando em Design pela PUC-Rio, membro da comissão de moradores da Rocinha, Vidigal e Chácara do Céu, professor, escritor, designer e liderança comunitária na Comunidade.