Jornal do Brasil

Visto de Fora

Visto de Fora

Miguel Paiva

O Povo na Rua

Jornal do Brasil MIGUEL PAIVA

Da padaria Século 20, em frente à TV Globo até a esquina da Rua Jardim Botânico o caminho é tranquilo. Quando não vira um rio caudaloso por causa das chuvas é um passeio com cheiro de verde. Como vou de bicicleta fico atento a quem vem de encontro na via compartilhada e capricho na buzina para não atropelar um distraído pedestre e seu celular.

Chegando na Jardim Botânico começa a aventura. Tenho que ir até a academia que fica a duas quadras mas o trajeto é complicado. O certo, e quase sempre faço , é ir na calçada oposta. Ir pela rua é pedir para ser atropelado. Portanto, vou lentamente pela calçada desviando do povo na rua. As farmácias abundam. As doenças pululam e o clientes, mesmo não tento o que curar, frequentam as farmácias para sentir que estão em contato constante com a saúde vendida aos olhos da cara. Mas, também podem comprar água, havaianas e colônias duvidosas. Logo vejo a casa de bolos, sempre cheia, apesar de os bolos parecerem sempre iguais.

Macaque in the trees
Coluna (Foto: Miguel Paiva)

A calçada te obriga, mesmo que você não queira, a ir devagar, Os buracos nas pedras portuguesas são uma constante ameaça. Antes da esquina , no ponto do ônibus, turistas que se misturam aos passageiros querendo saber onde é a entrada do Jardim Botânico. Parecem seres de outro planeta que demonstram uma tranquilidade ingênua e uma perplexidade estrangeira diante daquele mundo louco. Tanta gente indo para tantos lugares ao mesmo tempo. Os ônibus se revezam na baia pegando e soltando passageiros. No sinal, logo ali na frente, que abre para pedestres antes de abrir para os automóveis, os ciclistas não param. Para eles, o pedestre que está atravessando é que tem que se cuidar. As motos também fazem o mesmo e se você estiver desatento, adeus.

Consigo desviar de um vendedor de frutas que navega no seu celular enquanto senhoras examinam as laranjas em busca de um defeito que justifique a recusa. Trocam informações e o vendedor nem aí. Atravesso a esquina da Lopes Quintas aproveitando o intervalo relâmpago entre um sinal que fecha e outro que abre. Abaixo a cabeça para superar o teto de uma carrocinha de salgados ao lado de um “árabe” que vende esfihas e um camelô de óculos para leitura e películas para celulares. Paro para olhar e deixar a massa de transeuntes passar ( para onde irão todos?) e continuo.

¬¬Um bom dia para o dono da banca de jornais e tantas outras coisas já que jornais quase não existem, e quase atropelo a moça que escolhe algum dos sapatos usados exposto no chão ao lado da banca. São sapatos curiosos que poderiam estar em brechós e de uma certa forma estão, ali naquele “brecéu”, ao invés de brechó. Em frente, o rapaz franzino vende livros já lidos, aventuras espalhadas em páginas sujas e gordurosas mas sempre histórias, sempre fascinantes. Um senhor mais velho examina de longe os títulos.
Empurrando a bicicleta supero esta área de conflito entre sapatos e livros e chego à frente do supermercado onde a calçada se estreita pela cestas de apoio aos produtos que ocupam boa parte da calçada e o recuo na calçada em frente ocupado por caminhões de transporte ou veículos que avançam pela já estreita calçada que resta. Outro dia pedi gentilmente ao rapaz do caminhão que fechasse a porta que já liberaria um bom espaço. Ele me olhou com uma cara de surpresa e não deu bola. Eu fechei a porta e segui assim como todos a minha volta seguiam sem reparar, ou sem parar.

Quase chegando à minha meta fica a entrada da ABBR, único lugar que merece que todos parem. Um poderoso sinal de pedestre que dura mais de 30 segundos abre esse imaginário mar vermelho onde carros e ônibus bloqueiam a faixa de pedestre e o milagre do mar aberto tem que contar com a boa vontade dos motoristas. Às vezes rola um briga, outras vezes gestos solidários de pessoas ajudando outras a atravessar ou a subir nos coletivos. É um momento de trégua apesar da tensão ao olhar o reloginho que conta os segundos para o “mar vermelho” fechar novamente.

Antes de chegar ao meu destino ainda passo na frente de uma loja chamada Mil Coisas, como uma redundância ao mercado local. Essas mil coisas devem ser diferentes das mil pelas quais passei.

Finalizo minha aventura cansado e tenso, pronto para uma hora de exercícios que me acalmarão para a volta. Outras pessoas mas o mesmo caminho tortuoso por entre trabalhadores que tentam sobreviver nesse país onde a trabalho informal virou a única salvação e não haverá reforma da previdência suficiente para salvá-los. Nesse vai e vem a esmo fica a impressão que nem eu nem eles sabemos para onde vamos.