Jornal do Brasil

Visto de Fora

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Miguel Paiva

Não me surpreende

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Não me surpreende, por exemplo, o Bolsonaro ser a favor do porte e do uso da arma. Afinal ele é militar, reacionário e não vê outra solução para conflitos que o uso da força. Não me surpreende também que seus filhos pensem igual. Um alimenta o outro e por aí vamos radicalizando a cada passada de geração. Por isso não me surpreende que um dos filhos possa estar envolvido com suspeitos milicianos. Uma coisa leva à outra e num regime em que as armas falam mais alto, natural que forças paralelas o façam também.

Não me surpreende que eles apoiem o tal Guaidó da Venezuela. Independente dos problemas internos do país o tal do Guaidó luta contra o Maduro que eles odeiam mais do que tudo. Só não mais do que o Trump. Isso me faz lembrar que também não me surpreende que as pessoas ainda não acreditem no golpe que houve aqui. Não um golpe clássico de gibi ou de judô. Um golpe em que as força políticas, econômicas e jornalísticas fizeram de tudo, licitamente ou não para derrubar um governo que não interessava mais.

Macaque in the trees
(Foto: Miguel Paiva / JB)

Não me surpreende vocês acharem também que isso é delírio esquerdopata da minha parte. Pode até ser, mas faz o maior sentido. O que não me surpreende mesmo é o fato das pessoas não pararem nem um pouco para pensar no assunto. Será que existe um bando de idiotas de esquerda no mundo que passam a vida imaginando coisas? E olha que é gente de nome, grosso calibre da economia, da história e do jornalismo. Não sou eu. Eu penso, logo existo e questiono. Mas não me surpreende que quase ninguém faça isso.

Não me surpreende esse corte na verba para a Educação. Quem está interessado na Educação? Provavelmente os mesmos esquerdopatas doidões que ficam imaginando coisas. Afinal, não me surpreende que a Educação seja uma das primeiras etapas do desmonte que acontece por aqui. Educar, segundo Paulo Freire, é proporcionar material para transformar o futuro. Não sei se a frase é dele mas reflete bem o que ele pensava. Trabalhei com Paulo Freire na Guiné- Bissau e na Suíça e pude perceber o ser humano extraordinário que era. Não me surpreende, falando do Paulo, que agora queiram tirar dele o título de patrono da Educação no Brasil. Podem até colocar o Alexandre Frota no lugar mas esse título não é como o de Mr. Músculos, superficial. Ele vem de toda uma vida e não se tira só querendo. Já é. Já está incorporado. Não vai adiantar e Paulo Freire sabia que esperar é às vezes o único caminho. Mas não me surpreende que esta pessoa maravilhosa possa causar tanto medo em que está no poder.

Medo de quê?

Medo do povo, medo das pessoas poderem crescer, evoluir e transformar o país. Medo do desconhecido porque essa classe média só enxerga o carro novo do vizinho ou a tela de 70 polegadas da tv da casa ao lado. Esse medo é na realidade falta de coragem de brigar pelos próprios direitos. Que os donos do poder tenham medo não me surpreende também. Afinal, nada pior para um regime autoritário do que um povo estudando. O desmonte da Educação é isso. Desarmar de conhecimento e saber quem pode querer mudar a situação. E falo de desenvolvimento humano, redistribuição de renda, impostos para as grandes fortunas e aplicação do dinheiro de verdade nos serviços públicos.

Dai, não me surpreende que eles queiram um estado- zero. Mas um estado-zero onde o dono da bola pode mexer no time, mudar as regras e o placar. Vai acabar dando merda, o que também não vai me surpreender. Ou é neoliberal ou é estatal. Os dois juntos não casam.

Portanto, para finalizar, não me surpreende se ainda formos viver uns bons anos sob esta barbárie social e cultural. É difícil mudar um modo de pensar justamente sem Educação. Vai ser duro. Não me surpreende. Só me choca.