A cultura e a sobrevivência

Macaque in the trees
(Foto: Miguel Paiva)
Não é nada boa a sensação de viver no Brasil com este governo depois de tantos anos de trabalho na minha área. Como cartunista passo enormes dificuldades pela extinção, ou quase, da imprensa tradicional escrita, como era chamada. Vivo publicando meus cartuns e escrevendo meus textos aqui nas redes sociais e no Jornal do Brasil online para manter os músculos do cérebro aquecidos e não emburrecer de vez. Sinto um enorme prazer em manter viva esta relação com o leitor, sobretudo quando o prazer é recíproco.

Mas dinheiro que é bom e que minha história profissional justificaria, nada. O mercado praticamente acabou. Além da crise que serve de desculpa para a falta de coragem empresarial e a covardia financeira de gente que prefere investir na bolsa que na cultura ou em qualquer outra produção, o dinheiro não tem circulado pelas minha bandas. Também vivo de cinema e teatro, escrevendo roteiros e peças. Ganho até um dinheiro razoável quando tem alguma coisa em cartaz ou quando estou trabalhando em algum filme. Nada demais, mas, pelo menos, você se sente justamente recompensado.

A nova Lei de Incentivo ( ex- Lei Rouanet), ainda engatinhando, vai precisar de muitos ajustes antes de tentar ser realmente uma lei de incentivo. As poucas salas de teatro que restam por conta da crise e os corajosos produtores independentes que insistem em produzir não podem se limitar aos monólogos porque custam pouco. Os musicais que viraram uma especialidade dos artistas brasileiros se inviabilizarão. Só o investimento direto não será suficiente. Poderemos ficar reduzidos a uma produção cultural de gabinete ou sem a menor importância transformadora.

O tão criticado ( e discutível) viés político dos governos anteriores volta vestido com outros figurinos. A última intervenção do governo (não era não-intervencionista?) na campanha publicitária do banco do Brasil mostra a ideologia conservadora prevalecendo contra os interesses do próprio banco. E estamos no século 21!

Agora Bolsonaro tira do bolso a ideia de não mais dar dinheiro para as faculdades de ciências humanas. Querem formar um país sem pensamento, sem questionamentos. Um país de bitolados superdotados.

Entraremos para a História com um país que inventou tantas coisas na música, no teatro, no cinema mas deixou tudo ir por água abaixo. O povo não conseguiu mudar a mentalidade e prefere cair nas mentiras e fake- news que colocam nas redes os artistas como vagabundos aproveitadores. Criar não é repetir o que já ouvimos. É arriscar, é levar o pensamento lá na frente mesmo criando discórdias mas preservando a reflexão e a discussão. Pensar sobre a vida, a realidade, as pessoas é a maior característica da arte. Se não houver isso estaremos só criando informativos oficiais ou ilustrando a realidade como uma bela paisagem ou natureza morta, mas morta mesmo.

A arte jamais sobreviveria sem arriscar. Não haveria a pintura de Picasso, o cinema de Pasolini, Visconti ou Fellini, nem o teatro de Dario Fo. O Rock and Roll teve que vencer barreiras culturais para se tornar a manifestação mais forte da cultura jovem no século passado. Teve que virar contracultura para isso acontecer. Uma cultura que realmente mudou o mundo. Se isso parar de acontecer por aqui nos tornaremos um rebanho sem raciocínio, onde cada vez mais a frase do nazista Goebbels fará sentido; "Quando ouço falar de cultura puxo logo a pistola".

Espero continuar produzindo para ajudar a manter esta frase somente na memória.

A cultura e a sobrevivência

A cultura e a sobrevivência

Macaque in the trees
(Foto: Miguel Paiva)
Não é nada boa a sensação de viver no Brasil com este governo depois de tantos anos de trabalho na minha área. Como cartunista passo enormes dificuldades pela extinção, ou quase, da imprensa tradicional escrita, como era chamada. Vivo publicando meus cartuns e escrevendo meus textos aqui nas redes sociais e no Jornal do Brasil online para manter os músculos do cérebro aquecidos e não emburrecer de vez. Sinto um enorme prazer em manter viva esta relação com o leitor, sobretudo quando o prazer é recíproco.

Mas dinheiro que é bom e que minha história profissional justificaria, nada. O mercado praticamente acabou. Além da crise que serve de desculpa para a falta de coragem empresarial e a covardia financeira de gente que prefere investir na bolsa que na cultura ou em qualquer outra produção, o dinheiro não tem circulado pelas minha bandas. Também vivo de cinema e teatro, escrevendo roteiros e peças. Ganho até um dinheiro razoável quando tem alguma coisa em cartaz ou quando estou trabalhando em algum filme. Nada demais, mas, pelo menos, você se sente justamente recompensado.

A nova Lei de Incentivo ( ex- Lei Rouanet), ainda engatinhando, vai precisar de muitos ajustes antes de tentar ser realmente uma lei de incentivo. As poucas salas de teatro que restam por conta da crise e os corajosos produtores independentes que insistem em produzir não podem se limitar aos monólogos porque custam pouco. Os musicais que viraram uma especialidade dos artistas brasileiros se inviabilizarão. Só o investimento direto não será suficiente. Poderemos ficar reduzidos a uma produção cultural de gabinete ou sem a menor importância transformadora.

O tão criticado ( e discutível) viés político dos governos anteriores volta vestido com outros figurinos. A última intervenção do governo (não era não-intervencionista?) na campanha publicitária do banco do Brasil mostra a ideologia conservadora prevalecendo contra os interesses do próprio banco. E estamos no século 21!

Agora Bolsonaro tira do bolso a ideia de não mais dar dinheiro para as faculdades de ciências humanas. Querem formar um país sem pensamento, sem questionamentos. Um país de bitolados superdotados.

Entraremos para a História com um país que inventou tantas coisas na música, no teatro, no cinema mas deixou tudo ir por água abaixo. O povo não conseguiu mudar a mentalidade e prefere cair nas mentiras e fake- news que colocam nas redes os artistas como vagabundos aproveitadores. Criar não é repetir o que já ouvimos. É arriscar, é levar o pensamento lá na frente mesmo criando discórdias mas preservando a reflexão e a discussão. Pensar sobre a vida, a realidade, as pessoas é a maior característica da arte. Se não houver isso estaremos só criando informativos oficiais ou ilustrando a realidade como uma bela paisagem ou natureza morta, mas morta mesmo.

A arte jamais sobreviveria sem arriscar. Não haveria a pintura de Picasso, o cinema de Pasolini, Visconti ou Fellini, nem o teatro de Dario Fo. O Rock and Roll teve que vencer barreiras culturais para se tornar a manifestação mais forte da cultura jovem no século passado. Teve que virar contracultura para isso acontecer. Uma cultura que realmente mudou o mundo. Se isso parar de acontecer por aqui nos tornaremos um rebanho sem raciocínio, onde cada vez mais a frase do nazista Goebbels fará sentido; "Quando ouço falar de cultura puxo logo a pistola".

Espero continuar produzindo para ajudar a manter esta frase somente na memória.