Jornal do Brasil

Visto de Fora

Visto de Fora

Miguel Paiva

Caindo na rede

Jornal do Brasil

Será que rede social é um fenômeno de esquerda? Afinal, o nome social denunciaria. Mas, não. Apesar da aparência as redes sociais não enganam. Eles se tornaram esse fenômeno por conta da manifestação livre e espontânea da grande massa sem acesso à leitura e à informação. Esse caráter democrático permanece, a duras penas, mesmo com o constante vomitar de impropérios, injúrias, despautérios e agressões ,sobretudo vindos da direita não social, contra a suposta camarilha “comunista”. Nunca vi nada igual. É uma teoria antiga minha ainda não concretizada que a esquerda tem um caráter mais moralista, mais cheio de pudores, mais comportado do que a direita raivosa. Esta é despudorada, mal educada, ignorante e extremamente agressiva. Bota o pau na mesa e arregaça as mangas. Quer sair pra briga e entra onde não é chamada. A quantidade de pessoas com posições contrárias às minhas que entram nos meus posts sem serem convidadas para me desqualificar é enorme. Eu não fico passeando pelos sites ou faces da direita para escrever contra eles. Primeiro que sei que não vai adiantar nada e depois, como bom esquerdista, sou mais moralista e bem educado. Ser a favor do povo não significa ser vulgar. O povo tem sua ética e merece que ela seja respeitada.

Macaque in the trees
(Foto: Miguel Paiva / JB)

Hoje em dia, depois da vitória nas urnas da direita despreparada, se implantou no país um regime do salve-se quem puder e quero que você se foda generalizado. As pessoas estão colocando para fora suas frustrações de anos de opressão através das redes sociais achando que assim se tornam alguém. Normalmente, nessas manifestações você acaba se voltando contra quem está brigando por você. Tirando a péssima imagem que o PT criou para si, aumentada pela mídia, a maioria dos bolsominions agressivos detona justamente qualquer ideia a favor dos menos favorecidos. A classe média cai de pau em quem luta por ela. É um desejo inconsciente de ascensão social, um sonho irrealizável de passar a pertencer à classe dominante não tendo cacife para isso. Passam por cima dos ideais progressistas e acatam pensamentos e ideologias justamente contrárias a elas. O cartunista Venes Caitano da Época esta semana exemplifica bem esse fenômeno. Um peixinho de aquário no analista dizendo que sonha ser um tubarão e acorda na classe média. É isso. O pobre votou no Bolsonaro também. Votou porque alimenta o sonho de não ser mais pobre. E vê nele a preservação dos valores tradicionais religiosos e culturais. A classe média que quer ser dominante também porque alimenta o sonho de não ser mais média com pão com manteiga e sim rosbife com batata. Nada mais ambicioso, o básico acima do próprio básico, apenas para ter alguém igual abaixo deles.

O que vemos nas redes sociais é justamente esse ódio sendo manifestado de maneira desenfreada. Antes estavam calados. Agora, gritam todos ao mesmo tempo e ninguém ouve. Acreditar em mentiras é mais fácil e rápido do que parar para pensar na verdade. Desmentir não tem charme. Nos jornais aparece numa coluna escondida na página 13. A mentira vira manchete e a massa ignara vai atrás. Nunca fui tão agredido de modo infantil, mas nem assim menos perigoso, que nos últimos tempos. Sou chamado de coisas que até me orgulho, mas outras que me assustam.

Sou de esquerda, sou democrata e faço o meu trabalho para deixar clara a minha opinião e tentar melhorar a condição de informação das pessoas. Não quero que elas mudem de ideia. Só quero que elas tenham alguma ideia e não um amontoado de munições vencidas mas destruidoras que não levarão a parte alguma. Viramos um zoológico onde os animais estão soltos e nós, feras feridas, aprisionados. Acho que é um fenômeno mundial mas nos países onde a Educação é tratada como ameaça política, fica ainda mais evidente esse abismo. E quando estivermos caindo nesse abismo não vai haver rede capaz de segurar.