Os dias eram assim

Havia um medo no ar, nitidamente. Uma vez, nesses anos da ditadura militar, cheguei em casa numa rua sem saída e, assim que virei a curva, avistei um camburão da polícia parado em frente ao meu prédio. Gelei, mas não tinha mais nada o que fazer. Segui, estacionei e interpretando o papel de inocente com culpa no cartório fui entrando no prédio. Um policial me chamou e, antes de me molhar todo, me disse que prestasse atenção porque estavam atrás de um bandido que podia estar dentro do prédio. Não sei o que foi pior, se o medo da polícia ou o medo do ladrão. Sorri aliviado e me fi z de tranquilo. Entrei em casa olhando atrás da porta já que eu morava no térreo. Ninguém. Me joguei na cama tremendo, sabendo que tinha chegado ao limite. Não ia aguentar mais muito tempo viver assim aqui na minha terra. Dalí a dois meses, parti pra Itália onde fiquei seis anos. Não estava fugindo, estava buscando razão para viver.

Levei muito tempo para me tranquilizar quando via um carro da polícia. Achava que era comigo que alguma coisa tinha feito de errado. E não tinha feito nada, nem organizado eu fui. Fui estudante e jornalista fazendo o meu papel. Uma vez, em Milão, cometi uma infração no trânsito e fui abordado por um policial que estava à paisana, mas com uma plaquinha daquelas da polícia na mão. Tremi até ele me dizer o motivo. Aliás, foi a primeira coisa que disse, civilizadamente. Você não aborda alguém na rua sem um motivo. Ele me explicou e ainda no efeito do alívio decidi pagar a multa ali mesmo.

Hoje os sentimentos se confundem. Não tenho só medo da ditadura que pode vir. Apesar do mundo ter mudado o perigo existe. Tenho medo também da esculhambação, do descontrole, da intolerância e da perseguição. Isso tudo pode acontecer debaixo de uma democracia, forte ou fraca. Se for fraca, nada nem ninguém será punido e o comportamento vai se disseminando de acordo com o mais forte. Se for forte, a batalha será dura mas em alguma coisa precisamos confiar.

Os fracos já tiveram seu momento e contribuíram para o país chegar nesse ponto. O ponto do medo. Não saber o que vai acontecer é quase tão grave quanto saber que vai ser ruim. A surpresa embute o susto, o inesperado, a tensão e o estresse.

Não tenho mais idade pra isso. Prefiro combater um inimigo claro, evidente, como foi na ditadura.

Sair na rua sem saber o que vai acontecer, como o vizinho está te julgando e o que te espera na esquina é que dá origem ao fascismo. Está sendo difícil viver assim, mesmo antes do resultado final. Imaginar não saber o que poderemos criar, como poderemos pensar, o que poderemos dizer também é assustador.

O vale-tudo já começou no comportamento de algumas pessoas. O Rio de Janeiro virou a capital da transgressão. A impressão que eu tenho é que, daqui por diante, ninguém segura ninguém e a lei que vai valer é justamente a dos fora da lei. Não dos bandidos dos morros, mas a dos bandidos de camisa polo e celular na mão.

Prestem atenção nos sinais de trânsito desrespeitados, na velocidade das motos cruzando na sua frente e ameaçando pedestres, na falta de fiscalização e no ódio escorrendo da boca das pessoas, nas agressões e nas intimidações.

Antes de reagir, de que modo for, é preciso identificar o inimigo. Se é dos bons ou dos traiçoeiros. Se é digno de uma batalha ou se merece somente nosso desprezo. Veremos, democraticamente, espero.