Jornal do Brasil

Visto de Fora

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Miguel Paiva

Verdades e mentiras

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Desde o último debate entre Lula e Collor que ficou claro o poder da mentira. Naquela época não havia ainda o termo fake news, e muito menos as mídias eletrônicas. Era apelação mesmo e na cara de pau. Na minha opinião, a direita nunca teve pudor em mentir, inventar histórias e fazer uso de qualquer difamação. A esquerda, mais ingênua e crédula, sempre acreditou na moral e na retidão. Nasceu com esse conceito arraigado que era através da honestidade que se chegaria às conquistas.

Lula não quis revelar o que havia na pasta que trazia, mas Collor apelou para o conservadorismo da sociedade e denunciou uma filha ilegítima de Lula. Foi o bastante. Hoje nem debate tem. Um queria, o outro, não. Debater pra quê?, alegam os eleitores do fujão. Não tem coragem para isso e, de fato, não precisa.

Macaque in the trees
Mentira! (Foto: Miguel Paiva)

O conservadorismo da esquerda se confronta, não com a vanguarda da direita, mas com a falta de moral ou vergonha. Vale tudo e nesse vale tudo, o que vale mesmo é a mentira para se chegar ao poder. Um dos candidatos vai ganhando eleitores através das histórias inventadas e apostando na rejeição ao outro candidato. É muito mais difícil provar que você é inocente das acusações do que acusar injustamente o outro.

A televisão perdeu a força e o que vale mesmo é a rede social. Ninguém está interessado em desmentidos. O que vale é a intriga. Uma pessoa acusada injustamente é crucificada mesmo desmentindo. Desmentido ninguém lê, não tem graça. A graça está na fofoca, na mentira, no pecado. Com disparos ilegais patrocinados por empresas no Whatsapp então, fica difícil desmentir. O dano está feito, online.

É uma luta difícil mas poderá vir a transformar os vencedores dessa batalha injusta em vítimas das próprias armas. Uma eleição não é uma partida de futebol. Se o jogo democrático continuar, mesmo que cheio de desvios, vai ser difícil governar mentindo o tempo todo. O telhado de vidro aparece e a carapuça é vestida. Governantes ficam expostos e fica mais fácil descobrir as mentiras e as artimanhas.

Governar um país é uma tarefa árdua que só interessa a quem realmente é político nato, honesto e trabalhador ou quem está interessado em se locupletar. O Brasil está cheio de alternativas transgressoras ao curso normal do poder. Está com um congresso composto em boa parte pelo baixo clero que diante da impunidade reinante ou da punibilidade selecionada, vai se beneficiar da posição conquistada. Podem ser tempos difíceis se o panorama se concretizar, mas a democracia é assim mesmo. Só que ela não previa, quando foi inventada, que as mentiras determinariam seu caminho. Naquela época mentiras eram reveladas e seus autores punidos com o esquecimento. Hoje seus autores são eleitos e a mentira, de tanto ser repetida acaba sendo considerada verdade.

Tristes tempos que temos que aprender a entender. Ingenuidade e boas intenções não devem ser abandonadas, mas devem ser repensadas porque depois de 30 anos de democracia podemos entrar numa era de trevas inesperada e impensável para os dias de hoje.



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