Trogloditas do iPhone

Macaque in the trees
Trogloditas do iPhone (Foto: Miguel Paiva)

Na coluna da semana passada sobre 1968, o clima era meio de saudosismo de uma época de manifestações, transformações e enorme criatividade. Coincidiu com o dia das eleições e o que se viu nas urnas foi o contrário do que eu falava. Uma onda de conservadorismo, ou melhor, de alienação e indignação a esmo invadiu o Brasil.

O Rio mais uma vez surpreende com seu voto conservador e segue na frente da onda de direita, bradando aos ventos o seu grito de revolta. Eu disse grito de revolta? Pois é, no meu tempo grito de revolta pressupunha transformação, uma agenda a seguir, uma ideologia a nos guiar e um objetivo a atingir. Gritávamos contra a ditadura a favor da democracia, pela liberdade e pela justiça. Hoje, o antipetismo não basta. Não é suficiente para justificar esse ódio que transformou as pessoas em combatentes de um exército sem bandeira. Não há futuro, não há programa, não há objetivo a atingir. Deus acima de todos revolta até a igreja. O candidato ídolo desse pessoal também ainda não apresentou seu programa. Vai empurrando com a barriga, enquanto a indignação sem vulto das pessoas o apoiar.

Mas ser contra somente, sem um motivo, não resolve. As manifestações de 2013 acabaram no vazio. Não há vida nas ruas sem uma bandeira política. Essa negação da política namora com o fascismo e ameaça criar uma classe dirigente que se orienta por critério próprio do que é certo ou errado. A indignação é força motriz mas não pode ser o ideal que norteia as pessoas.

Nas poucas discussões que travo nas redes sociais, vejo um ódio quase adolescente dando a impressão de que abriram a porteira de uma manada enraivecida. Mas essa raiva sempre esteve livre, nunca foi abafada pelos governos anteriores. Não havia impedimento. O que havia e o que há é um país que, para se desenvolver, andar para frente, precisa seguir principalmente as regras do jogo democrático. Isso, às vezes, leva um tempo. Brasileiro não gosta dessa espera. Prefere aguardar um messias que vem do alto para tudo resolver.

Desde sempre o povo viveu afastado das decisões. Desde Getúlio Vargas que o salvador da pátria é reverenciado. Collor trazia esse carisma e Lula, ele mesmo, sofreu dessa expectativa por parte do povo mais ainda porque algo se fez. Mas o povo não quer esperar. Quer que sua vida seja resolvida, assim num estalar de dedos. Já que os ingredientes naturais sempre foram negados, a escola, a casa e o trabalho, então que venham resolver meus problemas. Essa evolução natural da conquista das coisas acontece onde o direito do cidadão é preservado e as garantias democráticas são sagradas. Estudando, trabalhando e vivendo com dignidade ninguém espera por messias algum. Esperam o dia seguinte para poder continuar ganhando aquilo que merecem.

O ódio da direita que saiu do armário gritando não vai levar a nada, só ao ódio e ao grito vazio. Um grito que não ecoa numa ideia não é ouvido, vira barulho.

Fico impressionado com a falta de visão histórica e o total desprezo dessa parcela dos eleitores pela democracia, pelos direitos e pela livre circulação de ideias. A maior gentileza é a porrada e escreveu não leu, o pau comeu. São trogloditas de iPhone nas mãos para registrar seus grunhidos.

Vai ser difícil acalmar essa gente em prol de ideias ou programas. Estamos aqui para discutir, e não para ter razão à força. Essa é a sabedoria da dúvida.