Jornal do Brasil

Olhar para dentro

Olhar para dentro

Flávio Cordeiro

Sob o círculo de Héstia

Jornal do Brasil FLÁVIO CORDEIRO, flavio@flaviocordeiro.com.br

Macaque in the trees
,,, (Foto: Pixabay)

Os antigos gregos eram politeístas, ou seja, tinham um deus para presidir cada aspecto de suas vidas: o comércio e as trocas (Hermes), o parto (Ártemis), a ordem e a civilização (Zeus), a guerra (Marte), a sabedoria e a estratégia (Atená), a beleza e a sexualidade (Afrodite), a artesania (Hefesto), a saúde (Asclépio), o êxtase e a loucura (Dioniso), o tempo (Crono) e muitos outros.

Alguns desses deuses eram cultuados em templos, representados tanto em estátuas monumentais quanto em miniaturas usadas nas casas, ou como amuletos e jóias. Havia, no entanto, uma deusa que não era personificada como os demais deuses, antropomorficamente, em estátuas ou pinturas. Seu nome: Héstia.

Héstia é a deusa que preside os domínios da casa, do lar, do íntimo. É representada pela lareira que ficava no centro de qualquer casa grega. Héstia é o espaço interior e a interioridade psíquica. Héstia é a estabilidade representada pelo lar e pela família, qualquer tipo de família, pois família é afeto e não formato. Afeto é o fogo que alimenta a lareira e que fornece nutrição, tanto a comida real que sai do fogão quanto a nutrição afetiva que nasce do calor dos que abraçam e amam.

Hestia foi a primeira filha de Crono (o tempo) com Réia (a terra). Como sabemos, Crono, apavorado pela profecia de que um de seus filhos o destronaria um dia, engolia a cada um logo após o nascimento. Héstia foi a primeira a ser engolida e a última a ser regurgitada pelo pai, quando finalmente Reia se revolta contra esse marido devorador dos filhos, contra esse devorador do novo. Com o auxílio de seu filho mais jovem, Zeus obriga Crono a vomitar os filhos engolidos. Hestia foi, portanto, aquela que permaneceu por mais tempo em contato com as entranhas do tempo, seu pai. É curioso pensar que casa e tempo, Héstia e Crono, estão reunidos novamente durante esse período de isolamento social; que Héstia está, mais do que nunca, presidindo as nossas vidas neste momento. E o que ela tem a nos ensinar?

Não sendo personificada como outros deuses, seu símbolo é o círculo. Entre os gregos, a lareira que fica no centro da casa é uma lareira circular, que aquece e convida ao convívio. A partilhar refeições e histórias. As palavras e afetos que circulam (ou são impedidos de circular) em volta da lareira, na intimidade do lar, são o que irão nos constituir, para o bem ou para o mal, ao longo da vida.

Hestia faz de todo lar um templo, de toda moradia um lugar sagrado. A relação de intimidade como o tempo é de especial valia nesse período em que estamos sob o domínio de Hestia: muitas pessoas estão vivendo a ruptura com a ideia de que o tempo “avança" e experimentando, talvez pela primeira vez, a circularidade do tempo nas múltiplas tarefas rotineiras da casa: a louça da pia, a limpeza dos cômodos, da roupa, das folhas do quintal. São tarefas repetitivas que começam e recomeçam na circularidade, não há começo, não há fim, não há avanço nem recuo, não há linearidade. Héstia é um círculo permanente.

A palavra grega para casa é oikos. A arte de gerir o lar, respeitando seus ritmos e regras (nomos) é a economia (oikos + nomos). A economia é algo originalmente doméstico. Só depois foi levada para fora do círculo íntimo, para a gestão da cidade, das empresas, do país. A economia é filha de Héstia. Muitos de nós estamos revendo as melhores formas de viver diante das mudanças econômicas ocasionadas pela pandemia, refazendo escolhas, revendo valores, com atenção religiosa aos detalhes miúdos e, até então, aparentemente desimportantes. Esse movimento é presidido por Héstia.

Nas casas gregas, Héstia presidia o interior, mas a porta, que faz a intermediação entre o mundo interno e o mundo exterior, era protegida por outra divindade, o jovem Hermes, o mensageiro. Hermes é o protetor do comércio, das transações, mas também das viagens. Nesse momento de isolamento social, Hermes cruzou a porta e adentrou os reino de Héstia pela via do trabalho remoto; o mundo das transações comerciais, adentrou o oikós. Navegamos para muitos lugares distantes, fazemos reuniões e assistimos “lives", levados pelos braços de Hermes para muitas novas viagens. Como a deusa estará se sentindo diante dessa intromissão? Não é fácil conciliar a devoção a dois deuses tão poderosos, demandando atenção simultânea. O segredo para muitos têm sido aprender com Héstia a arte de se relacionar melhor com Crono, o tempo. O que não é nem um pouco fácil.

Ouvi de diversas pessoas ao longo das últimas semanas a constatação de que Crono estava devorando suas vidas, não abrindo espaço para o novo. Essas pessoas estão experimentando a epifania, a presença de Héstia, percebendo que por anos usaram sua casa apenas como dormitório; estão sendo apresentadas a ilustres desconhecidos eletrodomésticos, almoçando em torno da mesa, para a satisfação da deusa, e saboreando com prazer esses momentos. É uma dádiva.

Para muitos, Crono continua um voraz devorador, pois o trabalho redobrou ou triplicou. Todos os dias, incluindo feriados e finais de semana, essas pessoas embarcam com Hermes, cruzando portas, países e continentes em reuniões, negociações e gestão de crises. Há outros, que por estilo de personalidade ou por opção, rejeitam sistematicamente a deusa. Deixam sempre que possível apenas seu corpo físico no oikós, engolindo a comida apressadamente em cima do computador e aguardando a próxima “live" que os levará para bem longe do mundo doméstico, e, em alguns casos, para bem longe de si mesmos. Afinal, Héstia nos convida a olhar para dentro.

Há outras formas bem mais graves de insultar Héstia. Em sua presença, os gregos sabiam que não eram permitidas agressões. As estatísticas mostram que os casos de violência doméstica contra a mulher aumentaram durante o período de isolamento social (30% em São Paulo e 50% no Rio de Janeiro), e há uma preocupação crescente com o abuso infantil, que é frequentemente perpetrado por pessoas muito próximas à família ou, até mesmo, pelos próprios familiares. Aí esteja, talvez, a maior profanação possível ao templo de Héstia: a insegurança do lar. Que Héstia vele pelos lares de todos nós e que a nossa consciência e mudança de atitude ajudem a deusa nessa enorme tarefa.

Psicólogo e psicoterapeuta de orientação junguinana