A Grande Introversão

Uma mulher acorda durante a madrugada com um sonho; reproduzo a narrativa com a sua autorização: "Tenho vista para o Cristo da minha casa, bem próxima mesmo. No meu sonho, o Cristo explodia e caía em mil pedaços. Com a explosão do Cristo, a luz acaba em todos os lugares. Eu ia sair correndo, mas me lembrava que não podia sair, por conta do coronavírus. Acordei num pulo aterrorizada”. A temática apocalíptica e a tensão do confinamento traduzem o sentimento de impotência que muitas pessoas estão experimentando no momento atual.

Macaque in the trees
... (Foto: Pixabay)

O sonho é a melhor expressão possível da atividade no inconsciente da pessoa em um determinado momento. Embora radicalmente pessoal, o sonho pode ser também supra-pessoal, especialmente e, situações de grande tensão social, como a que estamos vivendo agora. O Cristo é, a um só tempo, um monumento concreto da cidade do Rio de Janeiro, mas também um símbolo coletivo de proteção maior. A sua explosão no sonho sugere um sentimento de profundo desamparo coletivo experimentado por diferentes pessoas na situação presente, simbolizado pela falta de luz, pela escuridão.

Ao longo desta última semana, coletei diversos sonhos de pessoas, em distintos locais do país, mas com temáticas semelhantes. Em outro sonho, uma mulher moradora de São Paulo sonha que volta ao bairro onde morou na infância. Ela vai ao supermercado e chegando lá encontra quase todas prateleiras cheias, exceto as prateleiras de comida. As pessoas estão levando caixas e caixas de eletrodomésticos, mas não terão o que comer. Ao retornar, sua casa está vazia e ela encontra sobre a cama o livro 'Cem Anos de Solidão”. Ela correlaciona o título do livro ao contexto de indefinição da quarentena e do sentimento que ela suscita. A casa de infância remete também a um longo período em que experimentou o sentimento de solidão, que agora é evocado pela quarentena.

Em um outro sonho um homem de 50 anos está em um mundo pós-coronavírus: "Estava tudo em ordem: os prédios e tudo o mais. Alguns estabelecimentos comerciais abertos, mas alguns sem ninguém para atender. Pouca gente sobreviveu, mas achei um boteco aberto para almoçar.” Esses sonhos exemplificam o estado de atividade do inconsciente, em um trabalho de prospecção do futuro. Na absoluta maioria dos sonhos que analisei ao longo dos últimos dias predomina a temática pós-apocalíptica.

Neste momento estamos vivendo compulsoriamente uma grande introversão. Ela está sendo vivida de maneira diferente por cada pessoa. Considero que essa grande introversão forçada pode ser proveitosa se usada sabiamente. A etimologia da palavra insight é sugestiva: in (dentro) e sight (olhar). Olhar para dentro, nome de nossa coluna semanal. É justamente o que a introversão proporciona.

Junguianamente, podemos nos indagar: qual a tarefa que essa grande introversão nos demanda? Para aonde ela aponta? O que ela nos obriga a olhar? Que conflitos são inescapáveis e com os quais precisaremos lidar individual e coletivamente?

O que os sonhos apresentados aqui sugerem é que nosso inconsciente coletivo está capturando uma atmosfera apocalíptica e um sentimento de profundo desamparo coletivo. Des-amparo é o que sentimos quando o amparo nos é retirado. A desesperança é irmã gêmea do desamparo e os sonhos que relatei aqui (e outros que não relatei por questão de espaço) estão cheios de ambos. Mas o inconsciente só se transforma em destino quando não prestamos atenção às suas mensagens. Olhar para dentro pessoal e coletivamente, é fundamental em qualquer experiência de transformação. E não há dúvidas que a grande introversão já está sendo uma experiência profundamente transformadora, embora não agradável.

O movimento de transformação individual é um processo diferente para cada um de nós, mas o que é preciso transformar coletivamente?

Tenho insistentemente abordado nesta coluna que a arte, especialmente a filmografia recente, tem capturado no inconsciente coletivo a necessidade de reconstrução de laços sociais de solidariedade que a hipermodernidade vem esgarçando impiedosamente. A arte tem denunciado com agudeza o aumento das tensões que dividem e atiram concidadãos a sua própria sorte, como se não fizessem parte da trama do tecido social que sustenta a todos nós. Descobrimos em momentos de crise, quando tudo parece cair, que são exatamente os laços sociais e afetivos que nos amparam, que não nos deixam cair. Crises demonstram que somos muito mais interdependentes do que imaginamos.

As grandes provações históricas nos lembram que nenhum bunker isola ou proteje o suficiente e que os grandes dilemas da humanidade passam pela solidariedade e por soluções coletivas. Questões ambientais por exemplo falam da solidariedade inclusive com as próximas gerações.

Nesse momento sugiro aos leitores dois filmes: Dunkirk e O Destino de uma Nação. Ambos tratam da importância da responsabilidade individual e coletiva, de liderança responsável e do poder da solidariedade e da mobilização em momentos em que tudo parece desmoronar. A esperança é sempre fruto de acreditar que não estamos sós e que juntos somos mais capazes de enfrentar tanto os inimigos visíveis quanto os invisíveis. A falta de solidariedade e o individualismo exacerbados são vírus de extrema letalidade.

Que nos empenhemos ao máximo em cultivar e manter nossos laços solidários mais sólidos do que nunca, para que num futuro próximo possamos voltar a sonhar os bons sonhos que merecemos.

Psicólogo e Psicoterapeuta de orientação junguiana

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