Jornal do Brasil

Olhar para dentro

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Flávio Cordeiro

Do Sr. Guedes ao Sr. Park: Parasita e a Sincronicidade

Jornal do Brasil FLÁVIO CORDEIRO, flavio@flaviocordeiro.com.br

Sincronicidade é um dos conceitos mais interessantes da obra de Carl Gustav Jung. Ele observou tanto em sua prática clínica, quanto em seu próprio trabalho de autoanálise que há momentos na vida em que alguns acontecimentos se superpõem no tempo e no espaço sem que necessariamente um seja a causa do outro. O que difere esse tipo de acontecimento de uma simples coincidência é o seu alto grau de significado e impacto emocional para a pessoa que o percebe, gerando grande abertura para enxergar os acontecimentos por uma perspectiva ampliada.

Macaque in the trees
Detalhe do cartaz do filme Parasita (Foto: Reprodução)

A semana que passou foi marcada por uma forte sincronicidade envolvendo a palavra parasita. Parasita foi o nome do filme sul-coreano grande ganhador do Oscar com quatro estatuetas, incluindo a de roteiro original e melhor filme. Paralelamente, parasita foi a palavra escolhida pelo ministro Paulo Guedes para referir-se aos funcionários públicos brasileiros. Na mesma semana, essa palavra tão pouco usual saiu do seu contexto biológico específico, para servir a duas metáforas muito distintas: uma no cinema e outra na economia.

Parasita é um filme que critica a irracionalidade que o capitalismo atingiu nesse início de século XXI, com recordes paradoxais de produção e concentração de renda, de avanço científico e exclusão social, de explosão de soluções tecnológicas e acentuada desvalorização da vida humana. Parasita explora com profunda sensibilidade um dos aspectos mais brutais do techno-capitalismo sul coreano: a invisibilidade dos mais pobres. As tragédias cotidianas, o modo de vida sofrido e a própria presença, a própria existência do indivíduo, não é sequer notada pelas pessoas nos escalões mais altos da sociedade.

Para o Sr. Park, empresário que representa a elite econômica sul-coreana, um dos traços mais louvados em relação a seus subordinados é saber “jamais ultrapassar os limites”. Ressalto essa passagem pois a sincronicidade aqui, não se resume ao uso da palavra parasita, ela vai mais além e é reforçada por outra fala do ministro Paulo Guedes: a de que o dólar alto é bom, pois com o dólar baixo "tinha empregada doméstica indo para a Disney", uma bagunça, segundo o ministro.

Tanto para Sr. Park quanto para o Sr. Guedes, é importante que os subordinados, “aquelas pessoas que frequentam o metrô”, jamais ultrapassem os limites. É preciso que saibam qual é o seu lugar. Lembrei imediatamente de outro filme magistral “A que horas ela volta” e da frase de Val a personagem interpretada por Regina Casé: “A pessoa nasce sabendo o que pode e o que não pode” Não pode ir para a Disney, segundo nosso ministro, não pode almejar nada além do “seu lugar”. Que lugar seria este?

Ouvi de alguns, que a fala do ministro teria sido infeliz e por isso ele pedira desculpas, assim como havia pedido desculpas meses antes por ter dito que não seria surpresa se um novo AI-5 estivesse a caminho. Tamanha consistência em “falas infelizes” revela que infelizes mesmo não são as falas, mas o modo de enxergar o seu próprio povo. O modo de ver de cima para baixo as pessoas, deixando no ar a sugestão de que essa assimetria de olhar e de lugar é uma realidade imutável.

O artista tem uma conexão mais próxima com o inconsciente coletivo do que a média das pessoas em uma sociedade. Os artistas captam antes dos demais os movimentos subterrâneos da alma humana. Parasita, Coringa, Bacurau, para ficar em exemplos recentes, captam esse profundo mal estar contemporâneo, uma tensão social que marginaliza, escanteia e empurra as pessoas em direção à desesperança e ao abismo. Não é à toa que as crises de ansiedade e a depressão ganham dimensões epidêmicas nesse início de século. São adoecimentos coletivos que têm a marca do desamparo e da da desesperança.

O Sr. Park, que valorizava os limites bem estabelecidos entre pessoas de diferentes classes, se incomodava sobretudo com o cheiro “dessas pessoas”. Um cheiro desagradável que invadia os limites rígidos da distância social e adentrava suas narinas. Um cheiro que não sabia seu lugar. O cinema tem apontando o dedo para o verdadeiro mau cheiro contemporâneo: a indiferença e a insensibilidade das elites políticas e econômicas, seu total descolamento da realidade da população que governam e empregam.

A arte não apenas denuncia a insanidade coletiva que assola o início do século XXI, mas também tem deixando pistas a respeito dos possíveis desfechos para esse roteiro com direito a Oscar de pior direção. Já o grande vencedor do Oscar deste ano deixa em aberto para cada espectador a resposta para uma importante questão: quem são os parasitas, na tela e na vida?