Jornal do Brasil

Olhar para dentro

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Flávio Cordeiro

Dançarinos e guerreiros: as metáforas da vida a dois

Jornal do Brasil FLÁVIO CORDEIRO, flavio@flaviocordeiro.com.br

Há um campo relativamente recente da linguística dedicado a estudar as relações entre as metáforas que utilizamos no cotidiano e a forma como estruturamos nossas relações com outro. Uma metáfora não é apenas uma figura de linguagem, é um sistema de significados e valores. Em “Methafors we live by”, os pesquisadores George Lakoff e Mark Johnson analisam a relação entre os valores centrais de uma cultura e as metáforas que dão forma a visão de mundo das pessoas. Segundo eles, nós vivemos de acordo com as nossas metáforas.

Macaque in the trees
. (Foto: Alexas Fotos)

A essência de uma metáfora está em entender e vivenciar um termo por outro. Um exemplo: tempo é dinheiro. Nesse caso, um termo (dinheiro) é intercambiável por outro (tempo). Essa é uma metáfora estruturante em nossa cultura. No entanto, "tempo" só pode ser considerado o mesmo que "dinheiro" em um sistema de valores bem específico: uma sociedade capitalista. Essa metáfora não faz o menor sentido, por exemplo, para um índio Ianomâmi, pois ela não concorda com os valores centrais daquela cultura.

Outro exemplo: há diferenças significativas entre uma pessoa que utiliza como metáfora estruturante, “A vida é uma batalha”, e uma outra que utiliza “A vida é uma dança” como metáfora para estruturar sua visão de mundo. Se encaro a vida como uma batalha, o outro acaba entrando na categoria de aliado ou inimigo. A vida é tensa e competitiva. Se encaro a vida como uma dança, o outro não é uma ameaça, mas uma possibilidade de parceiro no movimento, e a relação com o ritmo da vida ganha outra qualidade.

Na dinâmica dos casais, as metáforas também têm um papel relevante. No início de um relacionamento somos quase sempre dançarinos: nos encontramos com o outro no prazer, na diversão, na leveza, no sexo, no movimento, na exploração do mundo. Ouvimos com atenção o que nosso parceiro ou parceira tem a dizer, afinal, ele ou ela nos é muito interessante. Esse enigma chamado “outro" nos atrai e hipnotiza. Brincamos juntos, rimos juntos, dançamos juntos a valsa da vida e do prazer de estar a dois. “A vida é uma dança”.

Se a dança é prazerosa, então queremos mais, queremos aprofundar nosso relacionamento, queremos não apenas dançar juntos, mas principalmente sonhar juntos. Sonhamos uma casa, às vezes sonhamos filhos, sonhamos receber nossos amigos, sonhamos prosperar, amar, crescer, partilhar, amadurecer, sonhamos leveza, família e estabilidade. “A vida é um sonho possível”.

Mas, na medida em que nosso imaginário vai se concretizando, surgem as transformações. Se antes nos encontrávamos quase sempre nos momentos de compartilhar o prazer, agora, na transição do sonho para a realidade, passamos a nos encontrar cada vez mais no dever, na criação dos filhos, no aluguel, na prestação da casa, do carro, no final de uma cansativa jornada de trabalho, nas obrigações sociais, nas convenções do costume. De sonhadores passamos a guerreiros, lutando para conquistar a vida que sonhamos: “A vida é uma batalha”. Se antes sonhávamos juntos, agora lutamos lado a lado, se antes nos encontrávamos no lúdico, agora nos encontramos somente na luta. O risco é nos tornarmos apenas o Casal S/A.

Se a vida é uma batalha, os primeiros mortos e feridos são os momentos de prazer e intimidade do casal. Acontece que guerreiros cansam. Quando há consciência, diálogo e verdade, o casal se pergunta: onde foi parar o dançarino em nós? Quando foi que, em nome da estabilidade, abrimos mão do prazer e nos concentramos unilateralmente no dever? Vamos dançar um pouco?

É claro que na transição do sonho para o real é necessário aceitar uma certa dose de perdas, mas o excesso de realidade mata a imaginação e a fantasia; e sem fantasia a vida empobrece e resseca. Se ainda há desejo de permanecer na relação (muitas vezes não há), é preciso reaprender a brincar, a rir junto, e reencantar a vida.

Seja lá qual for a metáfora que estruture a vida a dois, é sempre bom lembrar que em um casal há duas pessoas. Eleger “um" culpado é permanecer no passado, no lamento e na impotência do "inferno são os outros”. É paradoxalmente conveniente e infrutífero. Culpa exige punição e expiação, responsabilidade demanda ação e mobilização. Trocar a culpa de apenas um pela responsabilidade de ambos, tem o poder de mobilizar o casal a criar novas metáforas para dar sentido e inteireza à vida a dois. “A vida é uma criação”.

Psicólogo e Psicoterapeuta de orientação junguiana.