Jornal do Brasil

Olhar para dentro

Olhar para dentro

Flávio Cordeiro

Cuide bem do seu jardim

Jornal do Brasil FLÁVIO CORDEIRO, flavio@flaviocordeiro.com.br

Um ano termina, outro inicia-se. Entre rabanadas e panetones, me pego pensando no Cândido de Voltaire e em seus três personagens principais: Cândido, Martinho e o Dr. Pangloss. A razão é trivial: há uma enorme mangueira onde moro e todo mês de dezembro uma chuva de mangas desaba sobre o quintal. Elas apodrecem e deixam um cheiro desagradável no ar. Resultado: dez sacos de mangas deterioradas, misturadas com folhas e galhos secos, algumas picadas de mosquito e tudo isso sob o refrescante sol do verão carioca. O prêmio: um jardim melhor cuidado e um odor suportável na noite de réveillon. Mas o que as mangas e a passagem de ano tem a ver com Voltaire?

Macaque in the trees
. (Foto: Phillipe Leone (Unsplash))

Nesta novela filosófica, o jovem Cândido vive aos trancos e barrancos. Ora come o pão que o diabo amassou, ora experimenta momentos de grande êxito na vida. Há um problema, ele vive sob a influência do Dr. Pangloss, um filósofo de otimismo inabalável, para quem tudo nesta vida, a despeito das perdas e sofrimentos, está destinado a nos levar ao melhor dos mundos possíveis. Martinho, outro ponto de referência para Cândido, ao contrário, acreditava que se o mundo tivesse mesmo alguma finalidade, esta seria apenas a de nos irritar. Quando tudo vai bem, Cândido louva Pangloss, mas quando é atropelado pelo infortúnio, (e quem não é?), agarra-se ao pessimismo de Martinho. Cândido demonstra assim, uma postura simplista diante das ambiguidades da vida.

Uma visão junguiana, diferentemente das filosofias de Pangloss e Martinho, afirma apenas que rotular precipitadamente os acontecimentos da vida como “bem” ou “mal" é um exercício de juízo de valor, frequentemente infrutífero, que nos leva a um oceano de porquês: por que comigo? Porque sempre assim? Por que agora? etc. A perspectiva junguiana, vai por outro caminho: para aonde aponta esse acontecimento? Para que tarefa de desenvolvimento pessoal ele me convoca? O “Para que” evita que nos afoguemos no oceano dos porquês. Nem bom nem mau: apenas nossa tarefa diante do acontecido. É o desenvolvimento de uma atitude simbólica, menos maniqueísta, que pode nos levar a maior segurança existencial diante das ambiguidades dos acontecimentos.

Aos terapeutas Jung advertia: “É presunção nossa poder dizer sempre o que é bom ou mau para o paciente”. De fato, a prática clínica oferece repetidas mostras de que uma experiência de sofrimento, se vivida com consciência, pode abrir portas para a revisão de posturas e levar a uma transformação importante; mas desse fato, não decorre de forma alguma, qualquer relação de causa e efeito à moda de Pangloss. Muitas vezes a resistência à mudança é tanta, que mesmo uma catástrofe seria incapaz de alterar significativamente uma postura enrijecida de uma só vez.

Há os que encontram todas as justificativas para projetar no outro, no vizinho, no cônjuge, ou na política, as causas de seu infortúnio. Tropeçam em sua própria sombra, sem se darem ao trabalho de compreender onde ocorrem as topadas que lhes desequilibram a tão frequentemente. Apontam toda sorte de defeitos no quintal alheio, sem jamais olharem com atenção devida para seu próprio jardim. Repetem-se muito, crescem pouco.

No final da história, Cândido está cansado de oscilar entre o mundo cor de rosa de Pangloss e o tempo nublado de Martinho. Resolve dedicar-se ao trabalho árduo em sua granja. Pangloss, que parece não ter aprendido nada com a experiência da vida, volta a argumentar que os acontecimentos conspiram para o “melhor mundo possível”, e é então que Cândido o interrompe e encerra o livro com a famosa frase: “Tudo isso está muito bem dito, mas devemos cultivar nosso jardim”. Penso essa passagem simbolicamente: é preciso cultivar nosso jardim interior, dar atenção conscienciosa ao cultivo de si.

É preciso cultivar nosso jardim: aprender a lidar com as nossas ervas daninhas interiores, com o trabalho comezinho de sujar as mãos na terra, limpar o solo, regar as plantas e os relacionamentos, respeitar os limites e possibilidades impostos por cada estação do ano, por cada estação da vida. Há situações que não podem ser mudadas, mas nós sim temos a possibilidade de, aos poucos, nos adaptar a uma nova situação, sobretudo diante das perdas mais significativas, que demandam maior tempo para maturarem em nós. O jardineiro mais diligente não apressa a natureza, aprende tão somente a respeitar seus ritmos e a ler os seus sinais. Assim nos tornarmos jardineiros de nossa existência.

Gandhi tinha um mantra: “Seja a mudança que você quer ver no mundo”. Na primeira coluna do ano, aproximo Gandhi de Voltaire: cuide bem de seu jardim interior e torne-se, na medida do possível e no seu ritmo, a transformação que você acredita ser capaz de lhe trazer uma vida mais satisfatória: nem cor de rosa, nem cinza chumbo.

Por aqui as mangas continuam caindo.

Flávio Cordeiro é psicólogo e psicoterapeuta de orientação junguiana.



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