Jornal do Brasil

Olhar para dentro

Olhar para dentro

Flávio Cordeiro

Engravidar de si mesmo

Jornal do Brasil

Um paciente traz um sonho para a análise, um sonho estranho segundo ele, que é um homem na meia idade, executivo bem sucedido, mas profundamente insatisfeito com o que faz e com a forma com que tem levado a vida. Sente que a agenda se transformou numa pena a ser cumprida e que, infelizmente, não há mais tempo para mudar muita coisa. Tem quarenta e poucos anos.

Sente que vive nos últimos tempos polarizado entre um desejo irresistível de chutar o balde e a resignação de empurrar a vida com a barriga e manter um status quo razoável. Então vem o sonho: sonha que está grávido, uma cena estranha, um enorme barrigão, que não combina muito com a barba e o bigode bem cultivados. Esse sonho o inquieta. Os sonhos, que são os mensageiros do inconsciente, têm mesmo esse poder.

No sonho ele está num parque bucólico, sozinho, e acaricia sua barriga. Sente ao mesmo tempo uma sensação de paz e angústia. Pergunto-lhe de onde vem a angústia. “Da estranha sensação de me sentir em paz, não estou acostumado”. Havia outro motivo: tinha se dado um prazo para tomar uma decisão definitiva. Pergunto de onde veio esse prazo. “Coincide com o fechamento do ano fiscal da empresa, achei que era um bom marco”. Peço que reconsidere o prazo, ou "dead line", termo que ele prefere utilizar. Observo que “dead line” pode ser traduzido ao pé da letra como “linha de morte”. Por que estabelecer uma linha de morte se o seu sonho está repleto de vida?

Macaque in the trees
(Foto: Javier-Allegue-Barros (Unsplash))

Concordamos que o tempo do ano contábil não coincide com o tempo da alma. Era preciso deixar a gestação fluir. Chegamos a uma interpretação conjunta de que o símbolo da gravidez apontava para um período de incubação de algo novo. O que seria? Era preciso suportar o não-saber.

Na análise junguiana valoriza-se muito esse intervalo do não-saber. É a partir da sustentação dessa tensão, que se torna possível o surgimento de um terceiro termo, algo novo que não está nem no pólo A nem no pólo B, uma nova possibilidade que transcende as posições extremas e as integra. Nesse período de suspensão, somos obrigados a nos conectar com nossas emoções, algo que costuma irritar bastante aqueles dentre nós que, por dever de ofício, tornaram-se mestres na arte de dar respostas rápidas e objetivas a cada problema que surge, sem pensar muito, sem sentir o bastante.

Uma das melhores formas de afastar-se dos sentimentos é agir imediatamente, e assim, proteger-se do "incômodo" do sentir. Mas a vida em que não se sente, acaba por transforma-se em uma vida sem sentido. Essa é a maior demanda dos pacientes que atingem a primeira metade de suas vidas: encontrar um novo sentido, recuperar a energia, a plenitude.

Gosto das múltiplas possibilidades semânticas da palavra sentido. Ela envolve três componentes importantes: sentido como “orientação ou caminho”, sentido como “sentir e conectar-se com as emoções“ e sentido como “significado”, como aquilo que toca alma.

Reconectar-se com o sentido é uma tarefa que exige dedicação. Mudar é fácil, transformar é trabalhoso: envolve um enorme trabalho sobre si. As transições pessoais e profissionais nos convocam a habitar por algum tempo esse lugar intermediário que é tão bem marcado pelo sufixo “trans”, que evoca trânsito: nem largada, nem chegada. A terapia ajuda a oferecer o tempo necessário de reflexão: RE (dar um passo atrás) FLETIR: (flexionar-se, ser mais flexível). Recolher-se para melhor saltar, diz o sábio ditado francês: il faut reculer pour mieux sauter.

Os planos B tendem a pipocar, na exata proporção da nossa angústia com a vida sem sentido. O plano B nos seduz com com saídas rápidas para um dilema que aparenta ser insolúvel. Ninguém curte muito habitar o incômodo “trans” da transição, queremos agora e pra já, sem escalas. O Plano B é muito atraente porque promete “pular" um conflito, que na verdade só está sendo adiado. Convido o leitor que se identifica com esse momento de vida a pensar para além do Plano B e considerar a hipótese de um Plano Beta.

Retiro a metáfora do Plano Beta da linguagem dos programadores. Quando lançam um programa no mercado, eles não esperam uma versão pronta e acabada, um produto final. Ao contrário, eles lançam uma primeira versão ainda incompleta, eles a testam e aprimoram sem correr todo o risco de uma versão definitiva; tampouco ficam parados e inativos: eles lançam um protótipo. Por que não considerar prototipar nossos “eus possíveis”? Por que não experimentar novas versões provisórias de nós mesmos, habitarmos novas roupas, até que nos sintamos um pouco mais confortáveis e tenhamos a coragem de doar as antigas, as roupas que já não nos servem mais. Talvez até guardemos algumas, pois sempre aproveitamos algo de nossas “vidas passadas”.

Da gravidez do nosso sonhador, novos “eus possíveis” estão sendo paridos, eles ainda estão engatinhando, portanto precisam de muito cuidado, atenção e acompanhamento. A palavra chave é tempo. Tempo para amadurecer, tempo para cozinhar nossos medos, tempo para enraizar nossas escolhas, tempo para SER nossas encolhas, tempo para engravidar de si mesmo e aprender a saborear a beleza e angústia do parto, não prematuro, de um novo eu.

PS: Algumas circunstâncias e informações foram alteradas e amalgamadas para manter em reserva a identidade do paciente em questão.

Flávio Cordeiro é Psicólogo e Psicoterapeuta