Jornal do Brasil

Olhar para dentro

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Flávio Cordeiro

A nova paternidade em gestação

Jornal do Brasil

Há um primoroso conto da escritora neozelandeza Katherine Mansfield chamado “As filhas do falecido Coronel”. É a história de duas senhoras solteironas, que diante da morte de um pai extremamente autoritário, se vêem completamente incapazes de sequer sentirem-se autorizadas a entrar no quarto do falecido. Mesmo morto, o pai continua a ser uma presença terrível e ameaçadora.

A introjeção do pai severo e implacável, as torna pessoas inseguras, sem vínculos amorosos ou ambições pessoais; figuras tão frágeis que hesitam até mesmo em pedir um pouco mais de manteiga à empregada. Cada micro-decisão deve ser calculada com cuidado, cada palavra estudada com atenção, pois lá no fundo, há um olhar exageradamente crítico que julga e desautoriza qualquer pequeno gesto de autonomia: o olhar terrível do pai castrador.

Macaque in the trees
(Foto: Skalekar (Pixabay))

No dia do funeral, as irmãs chegam ao absurdo de questionarem-se se deveriam mesmo tê-lo enterrado. A passagem vale a pena ser reproduzida: “No cemitério, Josefine tivera um momento de absoluto terror quando o caixão baixava à sepultura, ao pensar que ela e Constantia, haviam feito aquilo sem pedir permissão ao pai.” Ela diz: "Papai jamais vai nos perdoar." Pais desautorizadores nunca perdoam mesmo, e quanto internalizados, assombram os filhos, que passam a vida hesitantes, em busca de reconhecimento e aceitação.

Durante muitos séculos ser pai significou apenas três coisas: prover o sustento, cobrar e ser obedecido. Mesmo quando admirados, essas figuras eram temidas e distantes. Na mitologia grega, Crono, eternizado no quadro de Francisco Goya, simboliza o arquétipo desse pai devorador: devora a individualidade, devora a segurança, devora a auto-estima e impede o livre desenvolvimento dos filhos. Esse, no entanto, é apenas um dos pólos do arquétipo: o pólo negativo. No outro pólo está a figura paterna no que ela tem de mais fundamental: auxiliar o indivíduo a conquistar segurança e autonomia para lidar com os desafios da vida. Mais do que prover recursos materiais (que em excesso mais prejudicam do que ajudam) é prover recursos internos, aqueles que dinheiro nenhum compra, mas que o indivíduo carrega para a vida.

O olhar paterno, quando no pólo positivo, é altamente confirmador, e a palavra paterna é profundamente estruturante. O “sim" confirmatório do pai, o “vá em frente”, o “compreendo seu medo, mas é hora de tentar, estarei aqui caso necessário, mas vá!”, são todas palavras que sustentam e asseguram o menino ou a menina. Um dos maiores riscos que vivemos no início do século é, ao sair do pólo negativo do pai arcaico, cair no pólo igualmente desestruturante do "pai nenhum”, do pai “demitido” de suas funções.

Há uma grande diferença entre o “sim” confirmatório, que autoriza a pessoa a caminhar por suas próprias pernas e o “sim" sem freios a todo capricho, um “sim" que legitima a permanência do indivíduo eternamente no mundo infantil. Esse “sim”, no fundo, é um “não" para o desenvolvimento da capacidade de lidar com as frustrações da vida, com a responsabilidade pelos atos realizados, um “não” aos limites impostos pela convivência em sociedade. Um “sim" a tudo, acaba por produzir indivíduos narcisistas ou despreparados para os enfrentamentos da vida. No pólo positivo, o pai sabe instintivamente temperar o “sim” e “não" a favor do crescimento e da autonomia de seus filhos.

O século XXI implodiu as molduras rígidas das configurações familiares e vem tornando mais híbridas e fluídas as fronteiras da maternidade e da paternidade. O velho pai arquetípico, como o Coronel do conto de Katherine Mansfield, tende a ser cada vez mais uma relíquia histórica, no entanto, o “novo pai” ainda não surgiu, está em pleno processo de criação. Talvez não seja mais possível falar em um modelo rígido de paternidade como no passado. Talvez as funções maternas e paternas fluam de maneira menos estereotipada entre os casais daqui em diante, mas a fluidez das funções não significa de modo algum a sua abolição.

Num dos episódios mais sangrentos da mitologia grega, Zeus consegue escapar de ser devorado por Crono, ajudado pela mãe, Zeus castra o pai devorador e assume o trono. Acontece que, ao derramar o sangue paterno, é amaldiçoado com a pena de repetir o terrível destino do pai, ou seja, ser igualmente destronado por um filho. Quando a Deus a Métis anuncia que espera um filho seu, Zeus, inconscientemente, repete a história paterna e a devora com o intuito de impedir o nascimento de um filho que poderia significar uma ameaça. O tempo passa e Zeus começa a ter dores de cabeça lancinantes. Quando a dor se torna insuportável, ele pede ao filho Hefesto que abra sua cabeça com um golpe de machado e descubra a origem de tanto tormento. A surpresa é que da fenda aberta na cabeça de Zeus surge Athena, a Deusa grega da razão, aquela que se tornará sua filha predileta, e quebrará o ciclo do pai devorador. Nesse momento Zeus se transforma de pai devorador em pai gerador. De pai arcaico em pai autorizador.

O mito do nascimento de Athena talvez nos inspire a pensar a respeito da necessária ruptura com o modelo de pai arcaico. Estamos vivendo, ainda confusos, esse golpe de machado que anuncia as contrações e dores de parto inerentes ao nascimento do novo, das novas formas de masculinidade e de paternidade, estamos presenciando a gestação do novo pai.

Que o próximo dia dos pais seja pleno de novas gestações e possibilidades afetivas para todos aqueles que exercem a gratificante e dificílima função paterna.

Flávio Cordeiro é Psicólogo e Psicoterapeuta