Jornal do Brasil

Olhar para dentro

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Flávio Cordeiro

Almodóvar e a Psicologia do Entardecer

Jornal do Brasil

Aguardo os filmes de Almodóvar com a mesma expectativa da criança que espera avidamente pelos presentes de Natal. Almodóvar, como todo grande artista, incomoda. Alguns de seus filmes nos confrontam com uma alteridade tão radical, com um outro tão impensável e impossível, que parece testar os limites da condição humana.

“Dor e Glória” é 21º filme do diretor espanhol e talvez seja, paradoxalmente, o seu filme mais estranho, ou melhor, aquele que me causou mais estranhamento, exatamente por não se parecer com “um Almódovar” clássico, colorido, com uma estética esfuziante, um ritmo arrebatador, um clímax retumbante e o característico confronto com o bizarro da alma humana. “Dor e Glória” é uma reflexão autobiográfica sobre o envelhecer do diretor, é poético, é romântico, por vezes lúgubre, mais lento que de costume e, talvez por isso, tão interessante.

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Antonio Banderas é o alter-ego de Almodóvar em Dor e Glória (Foto: Divulgação)

Neste século em que se tornou proibido envelhecer, no qual a ciência promete estender a vida para limites até então impensáveis, em que a indústria cosmética, as cirurgias plásticas e implantes de cabelo pretendem enganar o tempo, o personagem Salvador Mallo, o alter ego de Almodóvar, interpretado por um magistral Antonio Banderas, mobiliza toda sua energia para realizar uma tarefa hercúlea: conseguir calçar os sapatos. Com a coluna em frangalhos após uma operação que praticamente o imobilizou, ele acaba desistindo dos impossíveis tênis com cadarço e adota definitivamente os mocassins. Dor e Glória trata das microtragédias cotidianas do envelhecer.

Almodóvar, por meio de seu relato autobiográfico, nos sinaliza a necessidade inexorável, que todos um dia teremos de lidar: com o inventário das perdas, o chamado para um acordo o com o passado, com as pontas soltas que deixamos pelo caminho, com a inescapável revisão dos ritmos da vida, com as possibilidades e impossibilidades do corpo físico e sobretudo, com a busca de novos sentidos para uma nova etapa da existência, que até então julgamos estar a anos-luz de distância: o entardecer da vida.

Algumas das mais belas reflexões de Jung tratam da psicologia do entardecer. Ele demonstrou especial preocupação com a falta de preparo com que pessoas inteligentes e cultas entram na segunda metade da vida. Dizia ele: “Não podemos viver a tarde da vida segundo o programa da manhã” e se pergunta: “O significado da manhã consiste indubitavelmente no desenvolvimento do indivíduo, mas quando se alcançou - e se alcançou em abundância - esse objetivo, a busca do dinheiro, a ampliação das conquistas e a expansão da existência devem continuar além dos limites do razoável e do sensato?” Sua conclusão é incisiva: “Quem estende a lei da manhã até à tarde da vida, sem necessidade, deve pagar esse procedimento com danos à alma”.

Jung observou que nos pacientes jovens a neurose surge da hesitação diante enfrentamento da vida, e que nas pessoas maduras, a neurose se instala ao se insistir na manutenção de uma atitude expansiva, quando o chamado da vida convoca para um outro movimento: uma sábia retração.

Diante das restrições de sua nova condição de saúde, o personagem de Almodóvar pensa em desistir de seu trabalho, pois não consegue enxergar ainda, que sua criatividade pode ser utilizada de muitas outras maneiras, que não na dura tarefa física de um setting de filmagem.

Entre a retirada total e amargurada e uma expansão infinita e pouco razoável, é possível a abertura para um terceiro termo, onde novos sentidos possam ser inventados, onde novos usos para nossos talentos se tornem viáveis, usos menos intensos, que fujam da exposição ao sol do meio-dia, e busquem uma luminosidade mais amena, mais apropriada ao entardecer da vida.

Animado pela descoberta tardia da heroína, Salvador Mallo /Almodóvar inicia um profundo mergulho em sua infância e nesse sentido insere-se numa tradição que inclui "Cinema Paradiso” e “A Grande Beleza”, filmes nos quais os protagonistas atendem ao chamado da maturidade para passar em revista sua história. Esse percurso arquetípico é o percurso da reconciliação entre o velho sábio e a criança interior, da reconciliação com o menino ou a menina que fomos ou que fomos impedidos de ser. Invariavelmente o envelhecer nos convoca a fazer as pazes com o passado.

De “A Grande Beleza", de Paolo Sorrentino, me recordo especialmente de uma passagem importante para a psicologia do entardecer: Jep Gambardella, o protagonista, um dândi entediado com a vida sem sentido do high society romano, tem um encontro místico com uma mulher santa, uma freira de 104 anos que dorme no chão e se alimenta apenas com raízes. Gambardella, acostumado com o luxo e a abundância, se vê intrigado com tamanha simplicidade e quer saber da santa o porquê de tanta frugalidade. Ouve como resposta: “Sabe porque eu como somente raízes? Porque raízes são muito importantes”.

A psicologia do entardecer é um chamado à reconexão com nossas raízes. Aponta para o reconhecimento de que não somos heróis solitários no mundo, mas fios de uma teia de relações e afetos: pais e filhos, irmãos e irmãs, sobrinhos, maridos, esposas, amigos, netos, vizinhos etc. Que somos fruto e semente de nossas relações com as pessoas significativas de nossa vida. A psicologia do entardecer é um chamado para valorização do que foi vivido, para uma avaliação mais generosa de nossas dores e faltas, e para um desfrute menos narcísico de nossas glórias e conquistas.

Dor e glória: em sua viagem, Almodóvar retorna ao “pueblo” de seu nascimento em busca de sentido. O sentido nunca é apenas uma descoberta interior: é também a força daquela teia afetiva de nossas relações. Raízes são muito importantes.

Em sua busca, põe em perspectiva sua relação problemática com a mãe, reencontra um grande amor, percorre a intensidade da descoberta de sua sexualidade, reconecta-se com uma amizade abruptamente rompida e por fim nos deixa entrever, que seguirá trabalhando, talvez em outro ritmo, talvez com novas perspectivas: um Almodóvar do entardecer, surpreendente e cada vez mais instigante.

Flávio Cordeiro é psicólogo e psicoterapeuta