Governo lança reforma e prorroga auxílio para tirar PIB das manchetes

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Uma velha prática dos governos – explicitada pelo ex-ministro da Fazenda Rubens Ricúpero pelas antenas parabólicas há 16 anos (1º.09.1994) – quando disse “o que é ruim a gente esconde, o que é bom a gente mostra”, foi posta em prática hoje pelo governo Bolsonaro, em articulação com a base de apoio na Câmara e o ministro da Economia, Paulo Guedes.

Para tirar a queda recorde de 9,7% do Produto Interno Bruto (PIB) no 2º trimestre, o presidente Jair Bolsonaro tratou de liberar notícias de impactos: antecipou hoje que envia depois de amanhã (5ª feira) à Câmara a proposta de Reforma Administrativa e anunciou a prorrogação com mais quatro meses (setembro, outubro, novembro e dezembro) do Auxílio Emergencial durante a pandemia da covid-19. Só que embora mantendo o universo de 66 milhões de atingidos, vai reduzir à metade, para R$ 300, o desembolso mensal de R$ 600.

Com a técnica diversionista, vários sites já rebaixaram o desempenho da economia no 2º trimestre para 2ª ou 3ª manchete. Nas editorias de Economia, uma notícia positiva, que é decorrente do tombo do PIB, também divide as manchetes: o Brasil teve em agosto superávit comercial recorde de US$ 6,6 bilhões, devido ao tombo de 25,1% das importações. A queda das importações está diretamente ligada à queda nos investimentos em bens de capital (-15,4%)

A retomada da reforma Administrativa, que parecia relegada ao esquecimento, tanto que o secretário especial que cuidava do tema, Paulo Uebel, pediu para sair, em fins de julho, junto com Salim Mattar da Desestatização, deu um gás no mercado de ações e o Ibovespa subiu hoje 2,82% a 102.167 pontos.

Saída de Dallagnol esvazia a Lava-Jato

No geral, outra manchete veio dividir espaço no alto das páginas de sites (e de jornais amanhã), além do noticiário na TV: a saída do procurador Deltan Dallagnol da chefia da força-tarefa da Operação Lava-Jato no Paraná “para cuidar de questões de saúde da família”. No caso, as famílias dos corruptos e seus advogados agradecem o virtual desmonte da Operação Lava-Jato, fustigada pela Procuradoria Geral da República, chefiada por Augusto Aras, desde que o ex-Juiz da Lava-Jato deixou o Ministério da Justiça e Segurança Pública e o presidente Bolsonaro se aliou ao centrão para recorçar a base de apoio no Congresso contra eventual pedido de impeachment.

São dezenas de pedidos de impeachment ignorados pelo presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-EJ) e que conta com o arco de alianças de políticos do PP (40 deputados), PL (39), Republicanos (31), Solidariedade (14) e PTB (12). MDB, Solidariedade, PDS e DEM ainda costumam votar com o governo em questões programáticas e pragmáticas. A questão mais prática é a blindagem recíproca dos políticos que são alvo de investigações ou processos em curso na Lava-Jato. Dallagnol era quase o último dos moicanos, desde que o procurador Carlos Fernando Santos Lima se aposentou no final de 2018.

O PIB virou BIP-BIP, sinal de economia em pane

A queda de 9,7% do PIB no 2º trimestre em relação ao primeiro não foi apenas “o estrondo de um raio que caiu lá em abril”, como disse o ministro da Economia, Paulo Guedes. Junto com a queda de 9,7% de abril a 30 de junho, que representa queda de 11,4% sobre o mesmo 2º trimestre de 2019, o IBGE revisou os resultados do 1º trimestre.

Em vez da queda de 1,5% anunciada em 4 de abril (que já desmentiu o discurso do ministro da Economia de que “a economia vinha bombando” quando foi atingida pela pandemia do novo coronavírus, em março (o Banco Central baixou pacote de emergência no dia 16 de março, uma 2ª feira) o IBGE recalculou os números das Contas Nacionais e ampliou a queda do 1º trimestre para 2,5%. Assim, no 1º semestre a queda foi de 5,9% sobre igual período de 2019. E a queda de 9,7% se aplica sobre base deprimida em 2,5% em março.

Um indicador mais preciso de como a economia brasileira ainda precisa reagir para mostrar o comportamento de recuperação em V alardeado por Paulo Guedes é a comparação do PIB com a taxa encadeada que tem como base fixa de 100 o ano de 1995. No fechamento do 2º trimestre, o número era de 149,4. É preciso uma escalada de 13,6% para recuperar a queda frente ao pico mais recente do PIB (após a recessão de 2015 -3,54% e 2016 -3,3%) de 172,9 no 3º trimestre de 2019.

Frente ao pico anterior (177,3, no 3º trimestre de 2014, quando se acentuou a recessão do governo Dilma) a necessidade de escalada é de 15,7%. Se o desafio for em relação ao pico maior do PIB (178,4 no 3º trimestre de 2013, quando houve as passeatas do “povo na rua”), é preciso recuperar 16,25% de crescimento. Tem que crescer muito para uma recuperação em V, como se pode ver neste gráfico do Departamento de Assuntos Econômicos do Itaú

Maior queda do PIB em um trimestre desde 1996

Macaque in the trees
. (Foto: Reprodução)

Calculando o valor do auxílio

Estudo recente do Banco Itaú, feito pelo economista especialista em contas públicas, Pedro Schneider, já ´pensando na transformação do Bolsa Família (média de R$ 200 para 14,2 milhões de famílias) e do Auxílio Emergencial (média de R$ 600 para 66 milhões de pessoas) no programa Renda Brasil, com corte no valor do voucher mensal e no universo de pessoas (muitos começam a retomar as atividades). A prorrogação com AE até dezembro (quando ainda está valendo o estado de Calamidade que dispensa o cumprimento do teto de despesas do Orçamento Geral da União) pelo valor de R$ 300 ajuda a fazer os cálculos do provável universo do Renda Brasil.

Na proposta do OGU de 2021, o governo manteve o Bolsa Família com aumento de R$ 14,2 milhões para 18,4 milhões de famílias. Tomando por base os R$ 300 por cabeça, Schneider estimou que o gasto seria maior que o atual patamar do BF em R$ 31 bilhões em 12 meses com despesas de 0,4% do PIB.

No limite, mantidos 66 milhões no AE, com redução de 50% no voucher, o gasto extra somaria R$ 203 milhões em 12 meses (2,8% do PIB). Bolsonaro pediu mais estudos para o Renda Brasil. É provável a adoção da 1ª hipótese.

A piada pronta na Saúde

O presidente Bolsonaro sempre recusou o isolamento social pregado pela OMS como a melhor forma de enfrentar a covid-19. Contrário ao isolamento (que encolheria a economia e aumentaria o desemprego), emitiu todos os sinais contra o resguardo (criticou e praticou contra o isolamento e ignorou as máscaras, até contrair a Covid-19, junto com parte da família. Dizia que o efeito contaminação iria imunizar o “rebanho” contra o novo coronavírus.

Agora que as pesquisas avançam para aprovação de vacinas eficazes contra o vírus, se declarou ontem contra a vacinação, com a frase “Ninguém pode obrigar ninguém a tomar vacina”, que a Secom transformou hoje em propaganda oficial. É verdade, tomar vacina é o direito de cada um, mas numa pandemia gravíssima como a covid019 liberar uma propaganda oficial contra a vacinação por induzir a população a reagir contra a vacinação de sarampo, varíola, tuberculose, poliomielite e outras mazelas que destroem a infância de milhões de brasileiros.

E, nada contra os veterinários, que comemoram seu dia no próximo dia 9 de setembro. Mas, quase como para reforçar sua ideia de “imunidade do rebanho”, o presidente acertou com o ministro interino da Saúde (desde 15 de maio), general Eduardo Pazuello, a nomeação de Laurício Monteiro Cruz para comandar o Departamento de Imunizações e Doenças Transmissíveis, responsável por todo o programa nacional de vacinas. Laurício é médico veterinário formado no Centro Universitário de Desenvolvimento do Centro Oeste, em Goiás, e tem mestrado em prevenção e controle de doenças em animais pela Faculdade de Agronomia e Veterinária da UnB.



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