Jornal do Brasil

O Outro Lado da Moeda

O Outro Lado da Moeda

Gilberto Menezes Côrtes

Bradesco acha que pior passou e mantém queda de 5,9% no PIB

Jornal do Brasil GILBERTO MENEZES CÔRTES, gilberto.cortes@jb.com.br

Para o Bradesco, o mote de sua campanha institucional “Vai passar” é para valer. Mesmo depois do FMI apontar queda de 9,1% para a economia brasileira, do Banco Mundial estimar em 8,1% a retração do PIB brasileiro este ano, e o Banco Central estimar, no Relatório Trimestral de Inflação do 2º trimestre, divulgado dia 25 de junho, que o PIB (estável no RTI de março) iria encolher 6,4%, o Departamento Econômico do Bradesco manteve nesta 6ª feira (26.06) sua previsão de queda de 5,9%, feita em 29 de maio.

E o Depec se justifica: “As últimas informações sobre a pandemia – e seus impactos econômicos – têm se mostrado compatíveis com o nosso cenário base, por isso mantivemos inalteradas quase todas as nossas projeções”. Para o banco, “o pior momento para a atividade doméstica parece ter ficado para trás. A readequação de vários modelos de negócios em conjunto às medidas emergenciais parecem estar contribuindo para uma recuperação mais rápida, como visto nos indicadores de maio e junho. Com isso, mantemos nosso cenário de queda de 5,9% para o PIB deste ano”.

Outras previsões, com Selic estável em 2,25%

O banco destacou o “rápido ajuste das contas externas à depreciação cambial e à queda do PIB” e manteve “a previsão de que a taxa de câmbio fechará dezembro em R$/US$ 5,1, sob a hipótese adicional de manutenção e viabilidade do teto dos gastos”.

“A inflação deve encerrar o ano em 1,7%, 0,20 p.p. acima de nossa previsão anterior, com alta de preços de combustíveis, ainda com núcleos indicando tendência confortável para o médio prazo”.

O Bradesco que chegou a admitir novo pequeno ajuste (0,25 ponto percentual da Selic em agosto), depois da divulgação da Ata da última reunião e do RTI espera “manutenção da taxa de juros em 2,25% até o final do ano”. Admite que, “do ponto de vista estritamente do modelo de inflação, há espaço adicional para cortes de juros. Mas o balanço de riscos recomenda cautela nas próximas decisões, dado o nível da taxa de juros, o elevado grau de incertezas e sinais incipientes de melhora da atividade. Sinais recentes nos levam à manutenção das principais projeções para o cenário”

Covid-10 em janela de observação

“Ainda estamos em uma janela de observação em relação à evolução de novos casos de Covid19, à medida que diversos países retomam suas atividades. Ao relaxar as medidas de distanciamento social, notícias de novas ondas de casos começaram a chamar atenção. No entanto, até agora, essa ampliação de casos diários tem sido localizada”.

“Continuamos, com uma incerteza elevada no cenário, inerente à própria pandemia. Entendemos que uma retomada em dois estágios seja o cenário mais razoável, enquanto não tivermos uma vacina ou tratamento eficazes para o Covid-19. Estamos vivendo a primeira fase com uma recuperação em “V”. Mas, ao longo do segundo semestre, o ritmo da atividade poderá perder intensidade, levando em conta diversas restrições”, acrescenta o relatório.

Recessão intensa e rápída

Na avaliação do Depec “houve uma perda expressiva de nível de PIB, que não será recomposto rapidamente. Teremos provavelmente a mais intensa, porém mais rápida, recessão das últimas décadas. Isso implica uma retração do PIB global de 4% neste ano e crescimento de 5% no ano que vem – projeções mantidas em relação ao que esperávamos no mês passado”

E completa: “As últimas informações sobre a pandemia – e seus impactos econômicos – têm se mostrado compatíveis com o nosso cenário base. Por essa razão, mantivemos inalteradas quase todas as nossas projeções. Apesar da curva de contaminação no Brasil ainda não ter estabilizado – e haver dúvidas quanto a possíveis novas ondas no mundo – diminuiu o ritmo de expansão da doença no país. Com isso, as restrições à atividade econômica estão sendo gradualmente relaxadas o que, combinado com os estímulos fiscais e creditícios em vigor, tem levado à interrupção de revisões para cenários mais adversos de crescimento”.

“O pior momento para atividade doméstica parece ter ficado para trás. No início das medidas de distanciamento social, os indicadores mostraram forte contração em todos os setores, com quedas mais intensas do que o esperado no volume de serviços, nas vendas do varejo e um pouco menores na indústria. Depois desse primeiro momento, alguns fatores parecem estar contribuindo para uma recuperação mais rápida, como a readequação de vários modelos de negócios em conjunto às medidas emergenciais para famílias e empresas”.

“Os indicadores de maio e junho sugerem uma aceleração dos principais setores, com destaque para as vendas do varejo, capturadas por dados de cartão de crédito, fluxo em rodovias, vendas de automóveis e caminhões e pela melhora generalizada da confiança. De forma similar, nossos indicadores proprietários indicam melhora na demanda, pedidos em carteira, confiança e emprego nesses meses”.

Sem as rodinhas dos estímulos emergenciais

O Banco procurou avaliar como a economia vai se comportar sem os estímulos emergenciais de crédito, renda e facilidades fiscais o que me lembra o tempo de retirada das rodinhas quando se era criança e a bicicleta era um desafio... O Bradesco destaca que “o benefício de R$ 600 ajudou a manter uma renda mínima para as famílias no período mais crítico de isolamento social e parece ter cumprido um papel na recuperação do comércio. Apesar da provável extensão do auxílio por mais 2 ou 3 meses, em breve esse estimulo terá fim e os efeitos sobre a demanda ainda serão testados”

E traçou um paralelo “com as liberações do FGTS nos últimos anos, que impulsionava as vendas no varejo durante aqueles meses, mas não sustentava a demanda após o fim do programa”. Se o mercado de trabalho realmente demorar um pouco mais para se recuperar, esse efeito associado ao fim do auxílio pode ser relevante e não há espaço fiscal para mantê-lo por tempo indeterminado”, adverte.

Um dos obstáculos à manutenção da ajuda é “o aumento das dívidas pública e privada (...). O serviço dessas dívidas somadas tende a aumentar entre 1,5% e 2,5% do PIB até o final do próximo ano, o que diminui a renda disponível de empresas, famílias e governos, podendo limitar uma recuperação mais robusta. Por todos esses motivos, a recuperação nos parece seguir um padrão em que deve haver alguma retomada nos próximos meses, após a forte contração de março e abril, mas sujeita a incertezas adiante, em função das dúvidas quanto à evolução da pandemia, do mercado de trabalho e do aumento do serviço das dívidas pública e privada”. Mas um estímulo “para mitigar essa incerteza pode ser mitigada com uma aceleração na agenda de reformas, ainda nesse 2º semestre”, sustenta