FMI joga água fria em sonhos de Bolsonaro e Guedes

O novo relatório do Fundo Monetário Internacional (FMI) divulgado nesta 4ª feira, 24 de junho, sobre o impacto da pandemia do Covid-19 na economia mundial (World Economic Outlook), que aumentou de -3% para -4,9% a retração da economia global este ano, e prevê queda inédita de 9,1% no Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro (quase o dobro do tombo de 5,3% estimado em abril), joga por terra os sonhos do presidente Jair Bolsonaro e de seu “Posto Ipiranga”, Paulo Guedes, de usarem a economia como cabo eleitoral em hipotética campanha de reeleição em 2022.

Na nova simulação do FMI, que reconheceu ter “a pandemia do COVID-19 impacto mais negativo na atividade no 1º semestre de 2020 do que o previsto, e a recuperação é projetada para ser mais gradual do que o previsto anteriormente”, ao contrário do que propaga Paulo Guedes, a recuperação da economia mundial até o fim de 2021, com exceção da China. O FMI adverte que “o impacto adverso nas famílias de baixa renda é particularmente agudo, comprometendo o progresso significativo feito na redução da pobreza extrema no mundo desde os anos 90”.

Desemprego recorde; aumento da pobreza

O FMI chama a atenção para a possibilidade de o comércio internacional sofrer uma contração recorde de 11,9% este ano. Já o aumento de desemprego, que teria atingido a 130 milhões de pessoas no 1º trimestre, deve ter mais do que dobrado para 300 milhões de desempregados neste 2º trimestre. E o Fundo identifica ainda um contingente de 2 bilhões de pessoas que trabalham por conta própria seriamente prejudicado. Segundo o IBGE, quase 10 milhões (9,7 milhões) ficaram sem trabalho no mês de maio no Brasil.

O resultado será um impacto negativo mais agudo da pandemia em famílias de baixa renda em todo o mundo, potencializando o “aumento da desigualdade”. Os avanços dos últimos anos podem ser perdidos – em 1990 mais de 35% da população mundial viviam na linha de extrema pobreza (menos de US$ 1,90 por dia), o nível tinha caído abaixo de 10% nos últimos anos. O FMI admite que o Covid-19 vai provocar “em mais de 90% das economias emergentes e em desenvolvimento um crescimento negativo da renda per capita em 2020” (o PIB dividido pelo tamanho da população, sem contar a desigualdade de classes).

Com o fechamento de escolas em cerca de 150 países até o final de maio, a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) estima que cerca de 1,2 bilhão de escolares (cerca de 70% do total global) foram afetados. Quanto maior a duração do recesso escolar, mais comprometido ficará o futuro dos mais pobres. No Brasil, São Paulo, o estado mais rico da federação, acaba de adiar para setembro a volta às aulas devido aos repiques do Covid-19 e seu avanço pelo interior.

O risco de uma nova onda em 2021

O FMI ainda vê um cenário de incerteza em torno da evolução da pandemia. “Avanços médicos com terapêutica e mudanças no comportamento de distanciamento social podem permitir que os sistemas de saúde operem sem exigir bloqueios prolongados e rigorosos. O desenvolvimento de vacina segura e eficaz elevaria o sentimento de segurança e melhorar os resultados de crescimento em 2021, mesmo (...) sem produção (...) suficiente para fornecer imunidade de rebanho até o final de 2021”.

O FMI acredita que as mudanças nos sistemas de produção, distribuição e pagamento durante a pandemia poderiam realmente estimular ganhos de produtividade - desde novas técnicas na medicina até, de forma mais ampla, digitalização acelerada ou a mudança de combustíveis fósseis para renováveis.

Mas adverte para os riscos de um “2º surto global de COVID-19 no início de 2021”. Mas, “as interrupções na atividade econômica em cada país (resultantes de medidas tomadas para conter esse 2º surto) são consideradas da metade do tamanho do que já está na linha de base para 2020”. Esse 2º surto também pode gerar “um aperto adicional nas condições financeiras em 2021, com “aperto adicional em cerca de metade do aumento dos spreads soberanos e corporativos vistos desde o início da pandemia (...) com mercados emergentes enfrentando aumentos maiores nos spreads da dívida soberana e corporativa”.

O Credit Swap Default (prêmio pago sobre o título do Tesouro dos EUA de 5 anos nos papéis soberanos do Brasil, deste prazo), fechou 2019 a 99 pontos acima. O diferencial (spread) chegou a 376 pontos dia 18 de março, após o governo decretar o Estado de Emergência Fiscal para enfrentar a pandemia. Dia 8 de junho desceu para 202 pontos e hoje o spread foi a 246 pontos.

China, deve ser dos poucos a crescer

Origem do Covid-19 ainda no final do ano passado e por ter tomado drásticas medidas restritivas em janeiro e fevereiro (e mesmo com repiques de surto localizados, já reabriu a economia), a China deve ser das poucas economias a ter desempenho positivo este ano (+1%, com clara tendência de recuperação em V, com alta de 8,2% em 2021). Nos demais, a recuperação deve ser em L.

Isso é mais acentuado no caso dos países mais ricos (queda de 8% este ano, com -8% nos Estados Unidos e -10,2% na área do Euro), e recuperação de 4,8% em 2012, sendo de 4,5% nos EUA e de 6,0% na área do Euro). Já nos países de economias emergentes e em desenvolvimento (incluída a China) a queda seria de 3% este ano com alta de 5,9% em 2021.

Após cair 9,1% este ano, o FMI estima crescimento de 3,6% para o Brasil em 2021. O México, que deve ter contração de 10,5% este ano, cresceria 3,3% em 2021. Um grande tombo terá a Índia (cuja população de 1.380 milhões ainda está às voltas com a 1ª onda da Covid-19 3), com retração de 4,5% este ano e recuperação de 6% no ano que vem.

Vejam a visão do FMI

“Pela 1ª vez, todas as regiões devem ter crescimento negativo em 2020. Há, no entanto, diferenças substanciais entre as economias individuais, refletindo a evolução da pandemia e a eficácia das estratégias de contenção; variação da estrutura econômica (por exemplo, dependência de setores severamente afetados, como turismo e petróleo); dependência de fluxos financeiros externos, incluindo remessas; e tendências de crescimento pré-crise”.

“Estão previstas quedas profundas sincronizadas nos EUA (-8,0%); Japão (-5,8%;); o Reino Unido (-10,2%); Alemanha (-7,8%;); França (-12,5%;); Itália e Espanha (-12,8%). Em 2021, a taxa de crescimento da economia avançada deve ser de 4,8%, deixando o PIB de 2021 ainda 4% abaixo do nível de 2019”.

“Na América Latina, onde a maioria dos países ainda luta para conter infecções, as duas maiores economias, Brasil e México, devem contrair 9,1% e 10,5%, respectivamente, em 2020. As interrupções devido à pandemia, bem como a renda descartável bem menor para os exportadores de petróleo após a dramática queda dos preços dos combustíveis, implicam uma forte recessão na Rússia (-6,6%), Arábia Saudita (-6,8%) e Nigéria (-5,4%) enquanto o desempenho da África do Sul (-8,0%) será muito afetado pela crise de saúde”.

Em 2021, a taxa de crescimento para mercados emergentes e economias em desenvolvimento deve se fortalecer para 5,9%, refletindo em grande parte a previsão de recuperação para a China (8,2%). A taxa de crescimento do grupo, excluindo a China, deverá ser de –5,0% em 2020 e 4,7% em 2021, ficando ainda ligeiramente abaixo do nível de 2019.

Déficit fiscal de 16% e dívida maior que o PIB

As previsões do FMI são de que o Brasil alcance déficit fiscal de 16% do PIB no conceito primário (receitas menos despesas, sem incluir os custos da dívida pública), voltando a 5,9% do PIB em 2011, praticamente repetindo os 6% de 2019. Nos EUA, o déficit será de 23,8% este ano e de 12,4% em 2021.

O endividamento bruto do Brasil deve chegar a 102,3% do PIB este ano e cair para 100,6% do PIB em 2021. Nos EUA, a dívida chegaria a 141,4% do PIB este ano e a 146,1% em 2021. Mas a grande diferença é que o dólar é moeda de curso internacional, ao contrário do real (dá para entender porque o economista Mansueto de Almeida pediu demissão da Secretaria do Tesouro, onde ficaria enxugando gelo, para ganhar a vida como futuro executivo do Banco BTG-Pactual, após cumprir período de quarentena).

PIB argentino cai 4,8% no 1º trimestre

Se o Brasil vai mal, imagina a Argentina... Nossos vizinhos tiveram queda de 4,8% no PIB do 1º trimestre, antes do impacto da pandemia, influenciado principalmente pela contração dos investimentos e do consumo privado. As medidas de restrição à mobilidade começaram a ser tomadas na segunda quinzena de março. Assim, os impactos negativos da pandemia devem ser mais evidentes no 2º trimestre.

A diferença é que o país de 44,5 milhões de habitantes (SP tem 46,2 milhões) tem 47 mil casos de Covid-19 e pouco mais de 1 mil mortes. No Brasil, temos mais de 1.150 mil casos e quase 55 mil mortes. Só em São Paulo são quase 230 mil casos e mais de 13 mil óbitos.