Mercado prevê queda da Selic a 2,25% e novo corte em agosto

O mercado como um todo espera redução da taxa Selic em 0,75 p.p. na reunião de hoje, 17 de junho, do Comitê de Política Monetária do Banco Central, quando a taxa básica de juros, a Selic, deve descer para 2,25% ao ano. Antes do anúncio da queda de 16,8% nas vendas do setor varejista (divulgada ontem pelo IBGE) e do tombo de 11,7% no volume de vendas de serviços (divulgado hoje pelo IBGE), ainda havia dúvidas no mercado sobre a possibilidade de um novo corte (menor) na reunião do Copom em 5 de agosto.

O Bradesco sinalizou hoje em seu Boletim Diário que “as atenções estarão voltadas para o comunicado, sobretudo no que tange à discussão sobre um possível limite inferior para a Selic e eventuais sinais para os passos subsequentes”. No cenário publicado ontem, a LCA Consultores disse esperar que o Copom mantenha a janela aberta para novo corte em agosto. As TOP 5 (as cinco instituições que mais acertam as previsões semanais da Pesquisa Focus do BC, entre as quais está o Bradesco) apostam em queda para 2% em agosto e a 1,75% até dezembro.

Já o Departamento Econômico do Itaú, dirigido por Mário Mesquita, diretor de política monetária do BC no 2º governo Lula (2006 a 2010) foi mais cauteloso. Considera certo o corte para 2,25% hoje, mas prevê que “as autoridades provavelmente continuarão a enfatizar que estamos diante de um ambiente particularmente incerto e, diante das defasagens com as quais a política monetária opera normalmente, é provável que o Copom sinalize a interrupção do ajuste monetário, entrando em um período de observação para avaliar os efeitos das decisões recentes e, assim, definir seus próximos passos”.

Cenário pior que a encomenda

Acontece que a análise do Itaú foi feita antes da queda de 11,7% no núcleo de serviços pesquisado pelo IBGE frente a março, na série com ajuste sazonal. Este é o resultado negativo mais intenso desde o início da série histórica (janeiro de 2011). Trata-se da 3ª taxa negativa seguida, com acúmulo de perda de 18,7% neste período. A queda em abril é consequência, em grande parte, das medidas de isolamento social por causa do covid-19.

O Itaú esperava uma queda menor do segmento de serviços, de 9,2% frente a março. Vale lembrar que o setor de serviços como um todo pesa 63% na composição do PIB. Mas os segmentos pesquisados pelo IBGE são mais limitados e têm pouco mais da metade do peso total do setor. Isto porque exclui o comércio, alvo de pesquisa própria e que tem peso de 11,7% no PIB, as atividades financeiras e de seguro, que pesam 5,9% no PIB, e os serviços de administração pública e de utilidade pública (água e esgoto, luz e gás), além de educação e saúde públicas, num somatório de 15,4% do PIB.

E o Itaú era o menos pessimista em relação ao cenário de queda do PIB. Previa queda de apenas 4,5% este ano (o Bradesco previa -5,9%, enquanto a última pesquisa Focus apontava queda de 6,51%). Os dados do comércio e dos serviços do IBGE apontam para forte contração do PIB neste 2º trimestre,

Em recente projeção, o Santander estimava retração de 6,4% no PIB. Mas, num cenário extremo de eventos negativos (alta do dólar e repique do covid-19, além de uma eventual reversão do relaxamento do isolamento social, a queda poderia chegar a 11%.

O Bradesco considera que o horizonte aponta cenário de elevado grau de ociosidade na economia, com núcleos de inflação bem comportados e expectativas de inflação bem ancoradas, vai levar o Banco Central a avançar no estímulo monetário.

Mercado de trabalho sofre com pandemia

O primeiro levantamento da PNAD Covid-19, nova pesquisa extraordinária do IBGE, apontou que houve dificuldades de acesso ao emprego ao longo de maio. Os resultados agregados indicaram que 28,6 milhões de pessoas gostariam de ter um emprego, mas que não puderam procurar trabalho por conta da pandemia ou que procuraram e não conseguiram se recolocar.

Da população ocupada, 17% foram afastados do trabalho, mas esse número diminuiu no final de maio. Outros 13% ficaram em trabalho remoto, contingente que aumentou ao longo do mês.

Esse contingente depende muito do Auxílio Emergencial, cuja prorrogação a partir de julho segue incerta quanto ao valor e ao tempo de extensão. O Decreto de Calamidade Pública, que gerou o auxílio e liberou o Executivo de cumprir metas fiscais, expira em 31 de dezembro.

Sinais de estabilidade no Covid-19

O Itaú faz análise interessante dos últimos dados do Ministério da Saúde sobre a Covid. Mais uma vez a ocorrência de um feriado (dia 12, quinta-feira), produziu uma baixa artificial dos contágios e mortes no fim de semana, quando muitas secretarias municipais de saúde não produziram relatórios, e forte aumento na 3ª feira (16 de junho). Os dados desta 4ª feira poderão confirmar a tendência de estabilização apontada pelo Itaú, que acompanha a evolução da pandemia no Brasil e no mundo desde março.

“O Brasil tinha 923.189 casos confirmados (aumento de 34.918 contra 20.647 do dia anterior), com 45.241 mortes confirmadas (aumento de 1.282, contra 627 no dia anterior), o que implica uma taxa de mortalidade de 4,9%. A taxa de reprodução (R) está agora em 1,02 (de 1,01). Atualmente, há 441.729 casos recuperados (aumento de 29.477 contra 23.760).

Em relação à ocupação da UTI, em São Paulo, a taxa de utilização de leitos para pacientes covid-19 é de 56% na capital (de 59%) e 71% no estado (estável)”.