Petróleo futuro: recuperação atrasa mais

Motor da economia mundial, o mercado futuro de petróleo continua sendo a biruta da tendência da economia. A maior queda dos mercados de ações e títulos não veio diretamente com a declaração da pandemia da Covid-19 pela OMS, em 11 de março, mas em meados de abril quando o contrato futuro do petróleo tipo WTI (West Texas Intermediate) para entrega em maio foi negociado em cotações negativas (com tantos estoques não havia espaço para estocagem e os compradores ‘pagavam’ para quem ficasse com o óleo; na 2ª feira, 8 de junho, o mercado se animou com a forte alta do petróleo.

As cotações indicavam que o preço do contrato futuro do tipo Brent (petróleo do Mar do Norte) passaria dos US$ 50 em fevereiro de 2024. E no mercado à vista, o barril era cotado pela primeira vez desde março acima dos US$ 45. A euforia se alastrou ao mercado de ações. Mas o otimismo durou pouco. Sinais de que o relaxamento do isolamento (em especial as manifestações de rua contra a morte de George Floyd nos Estados Unidos) estavam provocando a volta da Covid-19 e indicações de que os estragos econômicos eram maiores do que os antes estimados e podiam se agravar derrubaram as expectativas.

Na quinta-feira, 11 de junho, feriado de Corpus Christie no Brasil, os mercados desabaram no exterior. Os índices de Wall Sreet caíram em média 5%, puxados pela queda dos preços do petróleo. Dados negativos sobre a economia tornaram o quadro mais sombrio. O PIB do Reino Unido caiu 20,4% em abril (mês do epicentro da crise econômica na Europa).

Nesta manhã, em depoimento no Congresso dos EUA, o presidente do Federal Reserve, Jerome Powell, apresentou relatório sobre a economia em que assinala que as finanças das famílias norte-americanas e os balanços das empresas enfrentem "fragilidades persistentes" como resultado do choque da atividade econômica decorrente da pandemia. Até que as bolsas de valores reagiram com mais serenidade, após o tombo da véspera, e as cotações do Brent indicaram que o nível de US$ 50 por barril só será atingido em junho de 2025.

Impacto na Petrobras

Como na 2ª feira o mercado esperava isso para fevereiro de 2024, pode-se dizer que o atraso na recuperação das cotações vai atrasar mais 15 meses (isso se não ocorrer uma recidiva do Covid-19, que já está nos radares do Banco Mundial e da OCDE). Na B3, que chegou a ensaiar forte recuperação na 3ª feira, 9 de junho, quando o Ibovespa passou dos 97 mil pontos (e muita gente já sonhava com a volta ao patamar dos 100 mil pontos - perdido na 1ª semana de março, após o recorde de 119,5 mil pontos em 19 de janeiro), até que o ajuste foi atenuado pela reação externa de hoje.

Mas Petrobras sofre mais, com as congêneres do petróleo. Enquanto o Ibovespa caía 2,81 por volta das 13 horas (a 92 mil pontos), a baixa de Petrobras PN era de 4,86 a R$ 20,36. Pior era a baixa de Exxon na NYSE – 5,35%, superior à queda de 3% do barril do Brent no mercado à vista e de 0,41 do petróleo tipo WTI.

OCDE vê recuperação em U

Eterno vendedor de otimismo, o ministro da Economia, Paulo Guedes, que insiste na narrativa (não confirmada nos números do IBGE nem da Receita Federal) de que “a economia estava bombando antes da Covid-19” e de que “a recuperação do Brasil será em V, rápida”, deveria ler com atenção o que foi dito hoje em seminário da Corporação Andina de Fomento, com a presença do Prêmio Nobel de Economia, Joseph Stiglitz, e do secretário geral da OCDE, Ángel Gurría.

Formado no MIT e com pensamento bem diverso da Escola de Chicago, onde Guedes fez pós graduação, o Prêmio Nobel lembrou que “a crise financeira de 2008 e a da COVID-19, mais uma vez, destacaram as limitações dos mercados e a necessidade de boas instituições públicas e organizações de cooperação internacional”. E destacou a importância dos bancos de desenvolvimento, para corrigir, no longo prazo, a disparidade entre desempenho social e privado, bem como o seu papel em resposta aos desafios das mudanças climáticas e na garantiaa do desenvolvimento sustentável.

Guedes, que se disse surpreendido com os “38 milhões de brasileiros invisíveis”), há muito assinalados nas planilhas do PNAD do IBGE, e agora empenhado em implementar o programa Renda Brasil (a fusão do Bolsa Família, que tinha piso de R$ 200, com o Auxílio Emergencial - R$ 600 - e os demais programas sociais, como o Benefício de Prestação Continuada e o Auxílio Desemprego, numa soma que pode ser menor que o todo), bem que podía reunir a equipe, incluindo os presidentes dos bancos oficiais para examinar o que pode ser aproveitado dessas discussões.

Alicia Bárcena, secretária-executivo da CEPAL, advertiu que “região pode emergir dessa crise mais endividada, mais pobre, mais faminta, com alto desemprego e, acima de tudo, zangada. Temos de impedir que a crise da saúde se transforme em crise alimentar”. E destacou a importância de os bancos de desenvolvimento fornecerem recursos anticiclicamente, para segmentos da população não cobertos pelo setor financeiro privado, com “juros mais baixos”, visando promover um futuro menos desigual ".

Por sua vez, Ángel Gurría, secretário-geral da OCDE, afirmou que considera que a recuperação da economia será na forma de um "U" e não em um "V" e alertou que as economias da região terão uma contração estimada em 8,3% na Argentina, 7,4% no Brasil, 7,5% no México, 6,1% na Colômbia, 5,6% no Chile, sem levantar o cenário possível de uma 2ª onda de Covid-19.