Para ODCE, covid-19 produz maior recessão em 100 anos

Se o mundo não sofrer uma 2ª onda da pandemia do novo coronavírus, a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que reúne 38 países, está prevendo agora uma contração da economia global em 6,0% este ano, mas irá se recuperar com crescimento de 5,2% em 2021. Entretanto, se houver uma recidiva do Covid-19 (advertência já feita pela OMS para que os países não relaxem das medidas de isolamento social), a recessão pode aumentar para 7,6%. Neste caso, a recuperação no ano que vem se reduziria para apenas 2,8%.

A economista-chefe da OCDE, Laurence Boone, assinala que “até o fim de 2021, a perda de renda excede a de qualquer recessão anterior nos últimos 100 anos fora de tempos de guerra, com consequências sombrias e duradouras para as pessoas, empresas e governos”.

Num recado que se aplica ao Brasil, que se candidatou a integrar os quadros da entidade, Boone apelou para que os governos não evitem os gastos financiados por dívida para ajudar trabalhadores de baixa renda e o investimento. “Políticas monetárias ultra expansionistas e dívida pública mais alta são necessárias e serão aceitas desde que a atividade econômica e a inflação estejam deprimidas, e o desemprego esteja alto”, disse.

Os dados divulgados hoje pelo IBGE, com deflação de 0,38% em maio e redução da taxa em 12 meses para apenas 1,88%, bem abaixo do centro da meta de inflação de 4%, fixada pelo Banco Central, com tolerância de variação de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo (2,5%), mostra que a inflação brasileira está muito abaixo do mínimo.

Nas projeções do Itaú (1,8% para dezembro de 2020 e 2,8% para dezembro de 2021), em nenhum momento do período a taxa em 12 meses atingiria os 3,5% (no máximo, iria a 3,3%). Isso abre espaço para o Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) baixar a taxa Selic dos 3% ao ano atuais para 2,25% na reunião do dia 17 de junho, e ainda promover nova baixa em agosto.

Previsões para o Brasil: -7,4% a -9,1%

Dois dias após o Banco Mundial prever queda de 8% no PIB brasileiro, a OCDE estima que a economia brasileira deve encolher 7,4% este ano e crescer 4,2% em 2021. Entretanto, se houver uma 2ª onda de surto a contração pode chegar a 9,1% este ano, com crescimento de 2,4% no próximo.

A economia dos Estados Unidos, a maior do mundo, deve contrair 7,3% este ano antes de crescer 4,1% em 2021. No caso de um segundo surto do coronavírus, a recessão norte-americana pode chegar a 8,5% este a ano e a economia cresceria apenas 1,9% em 2021, disse a OCDE.

Uma novidade no estudo da OCDE é que até a China entraria em recessão este ano. No informe do Banco Mundial, o PIB chinês cresceria 1% este ano, com recuperação de 6,9% em 2021. Mas a OCDE estima uma contração de 2,6% em 2020 com expansão de 6,8% em 2021. No caso de um 2º surto, as perdas chegariam a 3,7% em 2020, com recuperação de 4,5% em 2021.

CVM aplica R$ 2 milhões em multas

Boa parte da sociedade segue o recolhimento voluntário para evitar a propagação do novo coronavírus, mas nem por isso o mercado de capitais deixou de operar. Como insinuou o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, na reunião (?) ministerial de 22 de abril, “é bom aproveitar o momento em que a imprensa está com a atenção no Covid-19 para ir passando a boiada”.

Gente esperta tem tentado fazer o mesmo no mercado de capitais que vive um momento de menor transparência e alta volatilidade em todo o mundo. Felizmente, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM), o xerife do mercado de capitais brasileiro, está minimamente atenta.

Em julgamentos nos últimos dois meses, uma penca de aproveitadores e manipuladores do mercado tem sido punida. Esta é a melhor forma de mostrar que fugir às regras dá multas ou condenações que fazem não valer a pena transgredir.

Ontem a CVM informou ter aplicado multas de R$ 1,060 milhão ao Morgan Stanley Administradora de Carteira S.A. e a três de seus administradores por operações feitas em 2014 na então BM&F entre o Morgan Stanley Uruguay Ltda. e o Banco BTG Pactual S.A.

Segundo o voto da autarquia, “atuando por meio do FIM CP LS Investimento no Exterior (isento de tributação sobre proventos de Juros Sobre o Capital Próprio) realizaram operações com ações preferenciais nominativas classe B da Eletrobrás, por intermédio de Morgan Stanley CTVM S.A., com resultados previamente acertados, visando à obtenção de vantagem financeira (para MS Uruguay e para o Fundo) em decorrência da diferença de tributação entre os investidores”.

Seguindo a lógica e os cálculos da Acusação, o MSAC teria recebido o valor líquido de R$ 405.344,34 enquanto o Banco BTG teria recebido o valor líquido de R$ 126.932,57, o que resultaria em um ganho global para as partes de R$ 532.276,91. A multa total demorou, mas foi o dobro dos ganhos. Não se sabe a punição imposta ao BTG-Pactual.

Em outro julgamento, a CVM multou em R$ 800 mil três operadores com contratos futuros de milho na BM&F. Pena que também demorou muito. As irregularidades eram de 2017.

Muita calma nesta hora

Vários lançamentos de fundos de investimento sem prévios registros têm sido cancelados (é sempre bom consultar no site da ANBIMA se o fundo é registrado). Ontem foram canceladas 26 ofertas da plataforma de “crowdfunding” Finco Invest, que não continham informações essenciais e de ofertantes que não atendiam requisitos legais.

Também conhecido como “investimento coletivo” ou “investimento colaborativo”, o “crowdfunding” de investimento é um instrumento de captação de recursos para as “startups”, que precisam de capital financeiro para o desenvolvimento de produtos ou serviços.

Se, em tempos normais não é fácil distinguir jacaré de sucuri, imagine numa fase de pouca transparência como agora.

Com as aplicações tradicionais (cadernetas de poupança, fundos de DIs e CDBs) rendendo pouco (ainda que momentaneamente acima da inflação de 1,88% em 12 meses – a maior taxa do IPCA no país é de Belém, com 2,95%, a menor de Rio Branco-AC, com 0,67; no Rio é de 2,20 e em São Paulo, de 2,32%) há imensa tentação por assumir riscos. Sobretudo quando o mercado de ações dá saltos, assim como o dólar e o ouro.

Tudo que é leve se desmancha no ar. Há muitas pirâmides disfarçadas de ‘investimento’ promissor. Há quem acredite em bitcoins, assim como há terraplanistas.