Jornal do Brasil

O Outro Lado da Moeda

O Outro Lado da Moeda

Gilberto Menezes Côrtes

Nas bolsas, apostas altas contra Covid-19

Jornal do Brasil GILBERTO MENEZES CÔRTES, gilberto.cortes@jb.com.br

Nem tudo é desalento no mundo empresarial ante os impactos do novo coronavírus (Covid-19), que, enquanto uma vacina eficaz não é descoberta, já levou o Fundo Monetário Internacional a rever o cenário da economia global. A diretora-gerente do FMI, Kristalina Georgieva, disse nesta 2ª feira, 18 de maio, que o Fundo deve piorar a previsão de contração de 3% no PIB em 2020, e prever apenas uma recuperação parcial no próximo ano, em vez da alta de 5,8% projetada em abril. Nas bolsas de valores apostas em empresas f que desenvolvem vacinas ou remédios contra a Covid-19 viraram uma montanha russa de lucros, muitas vezes engordados por alardes sobre a última cura da Covid.

Das mais de 100 vacinas em desenvolvimento global, pelo menos oito começaram a ser testadas em humanos, incluindo candidatos da Moderna Inc. e da Pfizer Inc. Ao mesmo tempo, gigantes farmacêuticas como Johnson & Johnson, AstraZeneca PLC e Sanofi SA estão construindo capacidade para fazer centenas de milhões de doses próprias ou de seus parceiros.

Os esforços são parte de uma corrida maior, inclusive na Casa Branca, para alinhar fundos para testes acelerados e capacidade de fabricação expandida, tudo para disponibilizar doses nos EUA a partir deste outono. Uma vacina segura e eficaz é a melhor maneira de prevenir o Covid-19, a doença respiratória causada pelo novo coronavírus, e conter sua transmissão, dizem as autoridades de saúde pública.

Os fabricantes de drogas dizem que estão desenvolvendo potenciais vacinas coronavírus com muita rapidez. Espera-se que desta vez as pesquisas não sejam abandonadas pela metade como na MERS (Síndrome Respiratória do Oriente Médio), descoberta em 2012, nove anos depois da Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS), de 2003, que são parte da evolução do SARS-CoV-2), como é cientificamente chamada a Covid-19, que teria surgido na China, em dezembro ou novembro de 2019.

Ranking das valorizações

Se na sexta-feira, 15 de maio, o anúncio da Sorrento Therapeutics Inc, de San Diego, de que tinha desenvolvido antiviral capaz de combater 100% do Covid-19, fez suas ações valorizarem mais de 171% na Nasdaq (a bolsa eletrônica dos EUA que concentra empresas de alta tecnologia), hoje, 18 de maio, a aposta foi nas ações da Modern Inc, empresa de biotecnologia americana.

Depois de atingir US$ 87 na 6ª feira, as ações da Moderna oscilaram muito hoje, chegando a cair para a faixa de US$ 72, mas se sustentaram na faixa de US$ 83, com alta de 24% sobre a 6ª feira. Em dezembro, valiam US$ 19, acumulando alta de 339% este ano. Já os papéis da Sorrento avançam 4% e acumulam valorização de 198% este ano na Nasdaq.

As duas empresas, apoiadas por verbas do Departamento de Defesa dos Estados Unidos, que consideram o combate ao vírus como investimento de guerra, estão na linha de frente das descobertas contra o Covid-19. Mas muitas outras empresas duplicaram ou triplicaram de valor quando anunciaram seu engajamento na guerra contra o Covid-19.

A americana Inovio, dobrou a cotação de suas ações ao anunciar, em março, contrato de US$ 11,9 milhões, também com o Departamento de Defesa, para desenvolver, em parceria com a Ology Bioservices, vacina contra a doença. Hoje, suas ações negociadas na faixa de US$ 14, sobem 3,70%. Em dezembro valiam US$ 3,30. Alta de 324% em 2020.

Entre as farmacêuticas a febre também é grande. Os papéis do laboratório Sanofi, que produz a hidroxicloroquina, têm sofrido altos e baixos à medida que surgem novos antivirais no mercado. Em dezembro, suas ações valiam 89 euros na Euronext, caíram a 72 euros em 23 de março, mas desde que os efeitos da droga – usada contra a malária, lúpus e artrite reumatoide – foram louvadas até pelos presidentes Jair Bolsonaro e Donald Trump (este parou de louvar depois que os técnicos do governo americano apontaram danos colaterais como taquicardia) as ações valorizaram. Hoje fecharam a 87,56 euros, com alta de 0,36%.

Na semana passada, quem esteve no foco das especulações foram os papéis da Gilead. O laboratório americano, cujas ações são negociadas na Nasdaq, teve o antiviral remdesevir, há muito utilizado no combate à AIDS, dispararam imediatamente após A FDA (a agência americana que autoriza medicamentos) ter autorizado, em 1º de maio, o uso emergencial do remdesevir para o tratamento de pacientes covid-19 hospitalizados. Mas a eficácia, assim como da hidroxicloroquina, não ficou provada (a China contestou os efeitos do remdesevir), e os papéis estão em baixa de 1,15% hoje na Nasdaq.

Vale prestar atenção na montanha russa das ações da Gilead, que também são negociadas na Bovespa. Há cinco anos (2015) os papéis chegaram a valer US$ 123. Nos anos seguintes oscilou em torno de US$ 89. Em dezembro fecharam a US$ 64,50. O pico de alta foi em 19 de março (US$ 86). Hoje está negociado a US$ 75,15, com baixa de 1,50. O investidor brasileiro corre duplo risco com a oscilação do dólar.

O laboratório suíço Novartis anunciou em 21 de abril que ia entrar na produção do hidroxicloroquina e teve seus papéis impactos por isso. No dia 27 de abril as ações chegaram a valer 88 francos suíços. Os papéis despencaram a 80,55 francos suíços em 4 de maio e hoje estão na faixa de 82,55, com alta de 1,71%.

Não faz mais do que a obrigação

O presidente da China, Xi Jinping, prometeu hoje que qualquer eventual vacina desenvolvida pelo país se tornará um “bem público global”, acessível e disponível nos países em desenvolvimento. Segundo ele, cinco vacinas experimentais desenvolvidas pelo país já começaram a ser testadas em seres humanos. A China, em parceria com os membros do G-10, contribuirá com US$ 2 bilhões (R$ 11,52 bilhões) para a luta global contra a Covid-19, especialmente nos países em desenvolvimento

Trata-se de um “mea-culpa” de quem foi responsável, voluntariamente ou não, pela maior tragédia da humanidade desde a 2ª guerra Mundial.

No Brasil, mercado mais pessimista para o PIB

Conforme o Relatório Focus, divulgado nesta manhã pelo Banco Central, o mercado espera recuo de 5,12% do PIB neste ano (ante retração de 4,11% na leitura anterior) e manteve a expectativa de avanço de 3,2% em 2021. A mediana das projeções para o IPCA de 2020 recuou de 1,76% para 1,59%, enquanto a de 2021 oscilou de 3,25% para 3,20%.

Para a taxa de câmbio, a mediana das expectativas para o final de 2020 passou de R$/US$ 5,00 para R$/US$ 5,28; já para o final do ano que vem, foi ajustada de R$/US$ 4,83 para R$/US$ 5,00. Por fim, a expectativa para a taxa Selic passou de 2,50% ao final deste ano para 2,25%, e para 2021 ficou estável em 3,50%.

Juro real pode subir este ano

Com a expectativa de baixa da inflação, o juro real (apesar da queda esperada da Selic a 2,25% ao ano), vai subir este ano. No cálculo do departamento Econômico do Bradesco, o juro real da Taxa Selic (descontada a inflação), que chegou ao recorde de 7%, em 2016, caindo para 3,9% em 2017 e para 2,7% em 2018, despencando para apenas 0,2% no ano passado, pode subir para 0,6% este ano. Em 2021 retornaria para 0,3%, se a Selic ficar em 3,50% e o IPCA em 3,20%, como prevê o mercado.

O impacto dos combustíveis

A questão é que o reajuste de 8% no diesel nas refinarias da Petrobras, a partir de amanhã, pode impactar preços (menos da metade em maio e a outra parte em junho). O diesel pesa pouco, de forma direta, no cálculo do IPCA. Impacta indiretamente fretes (e preços das mercadorias) e passagens urbanas. Mas vale lembrar que mesmo com esse reajuste, que acompanha a recuperação das cotações do barril de petróleo nos últimos cinco dias, o diesel ainda acumula baixa de 37,8% este ano nas refinarias e bases da Petrobras.

Já o caso da gasolina que entra no cálculo do IPCA, não houve alteração na planilha da Petrobras. No ano, nas refinarias, a queda é de 38,22%.O problema é que os donos de postos costumam repassar altas imediatamente e demoram para reverter as baixas. Na queda brutal de consumo, as estratégias estão mais erráticas.