Jornal do Brasil

O Outro Lado da Moeda

O Outro Lado da Moeda

Gilberto Menezes Côrtes

Os diferentes tempos dos PIBs no mundo

Jornal do Brasil GILBERTO MENEZES CÔRTES, gilberto.cortes@jb.com.br

Vários países e blocos econômicos estão divulgando os resultados de seus Produtos Internos Brutos (PIBs) no 1º trimestre. Com exceção da China, que teve forte contração no 1º trimestre em função do isolamento de cidades e regiões em janeiro e fevereiro devido aos primeiros surtos do novo coronavírus (Covid-19), que foi declarado pandemia pela Organização Mundial de Saúde em 11 de março, e já está em processo de recuperação, o pior da crise econômica está acontecendo na Europa, Estados Unidos, Ásia e Brasil neste 2º trimestre.

O Banco Central divulgou na manhã desta sexta-feira, 15 de maio, o IBC-Br de março, que registrou contração de 5,9% em comparação com fevereiro. No trimestre, o IBC-Br, que é uma espécie de antecipação do PIB que o IBGE divulgará dia 19 de maio, apresentou queda de 1,95% frente ao 4º trimestre de 2019. Para o Departamento Econômico do Bradesco, “esse resultado reforça a estimativa de queda do PIB no 1º trimestre”. O Itaú está projetando queda de 1,4% no PIB do 1º trimestre.

Mas exatamente porque iniciaram medidas restritivas à circulação de pessoas praticamente na segunda quinzena de março (depois da declaração de pandemia pela OMS), os países que começaram a sofrer impacto do vírus em fim de fevereiro, como a Itália e a Espanha, e as demais estão sofrendo o maior impacto da retração econômica neste 2º trimestre. O Bradesco, projeta, “por ora, queda de 8,5% do PIB no 2º trimestre” reconhecendo “que há elevada incerteza sobre a magnitude dos impactos da pandemia na economia brasileira”, O Itaú vê retração ainda maior: “um declínio de 10,6% no trimestre (não anualizado), com “processo de recuperação a partir do 3º trimestre”, o que faria “o PIB cair 4,5% este ano e crescer +3,5% no próximo ano”.

Cloroquina, a palavra-chave

Com a demissão hoje de Nelson Teich, o 2º ministro da Saúde do governo Bolsonaro, que ficou apenas 29 dias no cargo - quando assumiu, dia 17 de abril, o país tinha 2.141 mostres registradas pelo Covid-19 e ontem chegou a 13.993 baixas – o presidente Jair Bolsonaro quer definir a cloroquina como remédio eficaz para o combate à doença que já contaminou 202.918 pessoas testadas (dos quais 79.479 foram recuperadas e 109.446 seguem em tratamento).

Mesmo com restrições nos Estados Unidos, onde o presidente Trump recuou de prescrever o remédio, cujos testes indicaram risco de agravamento de problemas cardíacos – a decisão fica a cargo de cada médico, segundo as especificações de cada paciente e Teich seguia essa precaução, evitando sancionar o medicamento, eficaz para lúpus, e artrite reumatoide, além de malária – Bolsonaro insiste, e a razão parece clara: se existe “remédio” para combater a doença não há motivo para não afrouxar o isolamento, salvo para as pessoas com mais de 60 anos e/ou sujeitas a comorbidades (mesmo com o sistema de saúde entrando em colapso em vários estados do país, como Amazonas, Pará, Maranhão, Ceará, Pernambuco, Rio de Janeiro e São Paulo). Aguardem-se os próximos desdobramentos do caso e na chefia do Ministério da Saúde.

Área do Euro entra em recessão

Na Área do Euro a recessão já observada no 1º trimestre deve ser intensificada neste 2º trimestre. A 2ª estimativa de PIB, divulgada hoje, apontou recuo de 3,8% na margem, em linha com a estimativa anterior e com as expectativas. Os destaques negativos ficaram por conta de França (-5,8%), Espanha (-5,2%) e Itália (- 4,7%). Na Alemanha, maior economia da região, a contração do PIB foi de 2,2% no período, pior resultado desde o primeiro trimestre de 2009. Vale lembrar que o país já está em recessão, devido à queda de 0,1% no PIB do 4º trimestre de 2019.

Epicentro da Covid-19, a China leva dois meses de vantagem sobre as demais economias para iniciar a retomada, com recuperação mais rápida da oferta do que da demanda, indicando expansão do PIB no 2º trimestre. A produção industrial surpreendeu positivamente, ao registrar alta interanual de 3,9% em abril (superando a expectativa de +1,5%), após três quedas consecutivas. O indicador, porém, não voltou ao patamar pré-pandemia. Do lado das vendas do varejo, houve recuo de 7,5% na mesma métrica.

Os investimentos em ativos fixos, que chegaram a acumular contração de 24,5% nos dois primeiros meses do ano, também reduziram as perdas, atingindo queda de 10,3% até abril, com sinais mais positivos vindos de infraestrutura e do setor imobiliário. Por fim, a taxa de desemprego oscilou de 5,9% em março para 6,0% no mês passado.

Desemprego avança nos EUA

Dados do mercado de trabalho nos EUA sugerem que queda do consumo das famílias será intensa neste trimestre. Os dados semanais de pedidos iniciais de auxílio-desemprego, divulgados ontem recuaram pela 6ª semana seguida, mas ainda no nível elevado de 2,9 milhões de pedidos. Desde o começo da crise, em meados de março, cerca de 36,5 milhões de norte-americanos entraram com pedidos de auxílio, refletindo a paralisação da economia na maior parte do país.

E também no Brasil

No Brasil, o IBGE divulgou nesta sexta-feira, 15 de maio, os indicadores de desemprego no trimestre janeiro-fevereiro e março (primeiro mês do Covid-19). A taxa de desemprego evoluiu de 11,0% no 4º trimestre de 2019 para 12,2% no começo de 2020. E tinha caído frente aos 12,7% do 1º trimestre de 2019. O total de desocupados aumentou para 12,850 milhões de brasileiros (+ 1,218 milhão) frente a dezembro, o que equivale a um aumento de 10,5% no contingente de desocupados). No mesmo período, o pessoal ocupado encolheu em 2,329 milhões de pessoas, uma queda de 2,5%.

De acordo com o IBGE, as maiores taxas de desocupação foram observadas na Bahia (18,7%), Amapá (17,2%), Alagoas e Roraima (16,5%) e as menores em Santa Catarina (5,7%), Mato Grosso do Sul (7,6%) e Paraná (7,9%). No 1º trimestre de 2020, a taxa de desocupação foi estimada em 10,4% para os homens e 14,5% para as mulheres. A taxa de desocupação das pessoas que se declararam brancas (9,8%) ficou abaixo da média nacional; porém a das pretas (15,2%) e a das pardas (14,0%) manteve-se acima.

A taxa de informalidade para o Brasil ficou em 39,9% (36,8 milhões) da população ocupada (com 14 anos ou mais). Em São Paulo, estado com o maior contingente de trabalhadores, a taxa era de 30,5%. Minas Gerais, que tem o 2º contingente, tinha taxa de desocupação de 38,1%. Já o Rio de Janeiro, terceiro maior mercado do país, tinha taxa de 27,3%.

No 1º trimestre de 2020, a taxa composta de subutilização da força de trabalho (percentual de pessoas desocupadas, subocupadas por insuficiência de horas trabalhadas e na força de trabalho potencial em relação a força de trabalho ampliada) foi de 24,4%. O Piauí (45,0%) apresentou a estimativa mais alta, seguido pelo Maranhão (41,9%) e Bahia (39,9%). As menores taxas foram em Santa Catarina (10,0%), Mato Grosso (14,8%) e Rio Grande do Sul (15,9%).