Jornal do Brasil

O Outro Lado da Moeda

O Outro Lado da Moeda

Gilberto Menezes Côrtes

Corte de juros do BC prejudica devedores

Jornal do Brasil GILBERTO MENEZES CÔRTES, gilberto.cortes@jb.com.br

É meio (para não dizer muito) chato posar de engenheiro de obra feita. É verdade que quando cortou os juros da taxa Selic de 4,25% para 3,75% ao ano em 18 de março (já com várias e pesadas medidas de aumento da liquidez bancária para enfrentar os impactos econômicos do Covid-19), o Comitê de Política Monetária do Banco Central previu (nas condições de então), que haveria espaço para nova baixa igual (0,50%) em maio.

Mas as condições de saúde e econômico-social pioraram muito no mundo e no Brasil e o Copom decidiu ontem (como previ 2ª-feira), corte de 0,75 pontos percentuais para 3,00% na taxa Selic. E já previu novo corte em 17 de junho (de igual magnitude). Dois diretores chegaram a sugerir corte ainda maior para abreviar o ataque à pandemia econômica. Tanto bastou para que os dois maiores bancos privados do país – Itaú e Bradesco – ficassem em posições opostas na decisão de ontem, mas com visão quase comum para a próxima reunião.

Concordo inteiramente com esses dois diretores do BC, vencidos porque os demais mostraram que há ainda balanço de riscos elevados. Mas vou mais além: os clientes que recorreram aos bancos para pedir os 60 dias de carência nas operações - no curto intervalo em que as agências estavam abertas (desde 20 de abril é difícil acessar os bancos, como penam os cidadãos que perderam a renda e tiveram de se cadastrar no Auxílio Emergencial do governo) - estão sendo altamente prejudicados nesta queda escalonada de juros.

Como os bancos e financeiras demoram a baixar suas tabelas de juros para empresas (grandes, pequenas e médias) e pessoas físicas, a maior parte das renegociações foi feita com juros nas alturas das operações em curso, ou, mesmo quando renegociadas (fundidas em uma única operação, com prazos e condições nem sempre iguais às anteriores), está a níveis bem acima da baixa da Selic. Como se sabe, os juros bancários sobem no Brasil pelo elevador (daqueles bem rápidos) mas descem pela escada, com paradas em cada andar, quando a Selic está em queda. O que explica o alto lucro dos bancos.

Há raras exceções. O Banco do Brasil baixou a partir desta quinta-feira, 7 de maio, as taxas de juros para pessoas físicas e jurídicas, em patamares ainda bem mais altos. Os empréstimos com garantia de imóvel e crédito estruturado (com garantias) terão taxas mínimas a partir de 0,88% e de 0,83% ao mês (11% ao ano e 10,42% ao ano), ante os 0,94% e 0,89% ao mês, respectivamente. No crédito para compra de veículos novos, a taxa começa em 0,54% ao mês (5,67% ao ano), ante 0,60% ao mês cobrados antes (7,44% a.a.). Para as empresas as linhas de desconto de cheques, desconto de títulos e ACL terão taxas de 1,15%, 0,82% e 0,82% ao mês, (14,7%; 10,3% e 10,2% a.a.) ante os 1,21%, 0,88% e 0,88% ao mês (15,5%a.a.; 11% a.a.), respectivamente. De qualquer forma, níveis muito acima da Selic a 3% ao ano.

Não está na hora de o Banco Central reabrir as negociações de empréstimos em condições de juros mais favoráveis ao devedor?

O Bradesco prevê Selic em 2,25% ou menos

Ao analisar a decisão do Copom, o Departamento Econômico do Bradesco disse o BC “reconheceu que cenário global está bastante desafiador e que os dados mostram que a contração da economia” (...) “será maior que a prevista inicialmente”. As projeções de inflação, por sua vez, estão todas abaixo das metas de 2020 e 2021. Assim, o BC explicitou um “último ajuste” no próximo encontro, não maior do que o realizado, “ainda que as projeções do modelo do próprio BC autorizem uma Selic terminal entre 1,75% e 2,25%“ e o comunicado tenha indicado que o atual momento “prescreve um estímulo monetário extremamente elevado”.

Claro que o Copom (escolado) adiantou que “a queda será condicional à evolução da conjuntura e, de modo particular, ao cenário fiscal, que piorou como resposta à pandemia”, além de vincular seus próximos passos à agenda de reformas, cujas “frustrações” podem elevar o prêmio de risco e pressionar a inflação futura. Embora reconheça que “as projeções do modelo do próprio BC autorizem uma Selic terminal entre 1,75% e 2,25%” e que “o comunicado tenha indicado que o momento “prescreve um estímulo monetário extremamente elevado”, o Bradesco acredita que o Copom não chegará a tanto.

“Trabalhamos com novo corte de juros na próxima reunião, para 2,25%, mantendo a taxa nesse patamar até o final de 2021. Até a próxima reunião, avaliamos que as incertezas (...) do efeito fiscal sobre o juro neutro não serão dissipadas, ao passo que os dados de atividade devem piorar em relação ao cenário base do Copom”. "Se as condições piorarem não pode ser descartada” uma Selic ainda inferior a 2,25%, diz..

Itaú critica, mas espera Selic a 2,25%

O Banco Itaú esperava “um movimento menos agressivo” do Copom, com baixa da Selic em apenas 0,50 p. p. a 3,25% ao ano, lembrando que a redução da “taxa básica de juros para o mínimo histórico de 3,0% a.a. (...) ocorreu “apesar da depreciação de mais de 20% do real desde a reunião anterior e após sinais de que a deterioração da política fiscal pode ser mais persistente que o esperado”.

O informe do Depec do Itaú, dirigido por Mário Mesquita, que integrou o Copom no governo Dilma, lembra que dois diretores consideraram “moderado” o ajuste de 0,75 p.p. Mas espera a repetição do corte na próxima reunião não maior que 0,75 p.p”. Para o Depec Itaú, “seria necessário um agravamento ainda mais intenso da situação fiscal e um nível ainda mais depreciado da taxa de câmbio para impedir que o Copom repita em junho a decisão de hoje. Assim, esperamos que o Banco Central leve a taxa Selic para 2,25% a.a. em sua próxima reunião, patamar que deve ser mantido até o fim do ano”.

Porque lucro do BB caiu menos

O Itaú anunciou queda de 48,3% no lucro líquido recorrente de suas operações no Brasil no 1º trimestre, frente ao 4ª trimestre de 2019; no Bradesco, o lucro encolheu 43,5% na mesma base de comparação. Já no Banco do Brasil, o lucro líquido ajustado do 1º trimestre (R$ 3,395 bilhões) caiu apenas 26,6% frente ao último trimestre. Como o BB não fez como o Santander, que apresentou aumento de 3,4% no trimestre, porque deixou para a matriz espanhola fazer as mais pesadas previsões para perdas com devedores duvidosos, diante da deterioração da economia pelo Covid-19, pergunta-se: o que o BB tem de diferente para perder menos que os gigantes privados?

A análise do balanço do BB mostra que o principal segredo está no fato de ser ele o banco preferencial do funcionalismo público brasileiro (sobretudo os do governo federal e suas autarquias), que recebem salários pelo banco. Como se sabe, enquanto os empregados do setor privado e os profissionais autônomos estão cortando um dobrado para manter empregos e renda, o funcionalismo público é uma “ilha de estabilidade num mundo em pandemia”.

O BB tinha 10,5% de seus empréstimos destinados ao setor público (sendo 8% à administração pública e 1,8% à Petrobras e subsidiárias); 32,8% às pessoas físicas; 33,5% às pessoas jurídicas (sendo 15,6% às grandes empresas; 10% às PEMS; e 8% a governos) e 27,5% ao agronegócio (o banco concentra 55,2% das operações do setor). A divisão daria ao BB, naturalmente, índices de inadimplência menores que os da média do Sistema Financeiro Nacional.

Mas a concentração de operações políticas de apoio às obras de empreiteiras para a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas do Rio, em 2016 fez a inadimplência do BB evoluir acima da média em 2017, 2018 e 2019. No 1º trimestre, o escore foi de 3,20% para o BB contra 3,17% do SFN. Mas a taxa já esteve pior (3,47% em setembro). O BB destacou que a inadimplência de grande cliente (sem especificar quem) respondeu pelo ponto fora da curva (sem o cliente a taxa seria de 2,74% em setembro e de 2,52% em março).

Relacionamento antigo

O fato de ser o banco do funcionalismo público federal (e de dividir com a CEF os depósitos judiciais em todo o país) – motivo da cobiça dos bancos privados – garante ao BB estabilidade junto à sua clientela (fiel nos depósitos e aplicações e baixos níveis de risco nos empréstimos a pessoas físicas). No balanço é ressaltado que “um dos importantes componentes da metodologia de crédito é o histórico que o Banco do Brasil possui dos seus clientes”.

Na carteira de operações de crédito a PF, 94,2% têm conta há pelo menos cinco anos e 81,9% têm mais de 10 anos”. Na carteira de crédito consignado orgânica BB, de R$ 84,5 bilhões (38,2% do crédito) em março de 2020 eram de 90% com clientes servidores públicos (sendo 80,1% servidores e 9,9% de aposentados/pensionistas). Na linha de financiamentos a veículos, 67,7% recebiam seus proventos através do BB (o que facilita o desconto em folha) e 8,3% dos tomadores tinham mais de 10 anos de relacionamento com o BB.

Agronegócio, motivo de orgulho

Responsável por 55,2% do crédito ao Agronegócio, o BB apresentou interessante tabela, baseada em dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos. Em suco de laranja, o Brasil é o 1º produtor e exportador, respondendo por 72,4% do comércio mundial. No complexo de soja (grãos, farelo e óleo) somos o maior produtor e exportador, com 50,7% do mercado.

Em açúcar, a liderança dupla é garantida com 33,8% das exportações. Na carne de frango, embora sejamos o 3º produtor (atrás dos EUA e França), lideramos a exportação com 30,8% do mercado. A dupla liderança no café garante uma fatia de 26,2% das exportações. Na carne bovina, perdemos para os EUA em produção, mas garantimos o 1º lugar, com 22,2% das exportações.

Em milho, já somos o 3º produtor e assumimos a vice-liderança nas exportações, com 22,5% do mercado, assim, como no algodão (4º produtor), mas com 20,2% das exportações.

Cala a boca Paulo Guedes

O presidente Jair Bolsonaro mandou um dos jornalistas de plantão à sua saída matinal do Palácio da Alvorada rumo ao Palácio do Planalto “calar a boca”. Devia é pedir para seu “Posto Ipiranga” não fazer tantas previsões arriscadas.

Em 2019, disse, no começo de ano, que “zeraria o déficit público em um ano com a reforma da Previdência” que economizaria R$ 1,3 trilhão em 10 anos. Os fatos mostraram que uma e outra previsão foram atropeladas pelo Covid-19.

Em fevereiro, quando a equipe econômica temia que o fechamento de fábricas na China, devido ao novo coronavírus, que seria um problema para o suprimento de diversas cadeias produtivas – como destacou, semana passada, o Relatório de Estabilidade Financeira do BC – Paulo Guedes arriscou previsões sobre a taxa de câmbio então na faixa de R$ 4,20 (o que ministro da Fazenda, Economia ou presidente do Banco Central não deve fazer).

“Se acertarmos, a taxa cai abaixo de R$ 4; mas se errarmos muito vai a R$ 5”. A taxa chegou hoje a R$ 5,84. Paulo Guedes até que não teve tanta culpa nos erros de atuação na maior crise econômica da história. Mas deve colher a lição de humildade para ser mais comedido nas próximas previsões.