Jornal do Brasil

O Outro Lado da Moeda

O Outro Lado da Moeda

Gilberto Menezes Côrtes

Façam suas apostas: Selic a 2,75% ou 2,25% em 2020?

Jornal do Brasil GILBERTO MENEZES CÔRTES, gilberto.cortes@jb.com.br

A pesquisa semanal Focus, que o Banco Central colhe junto a 100 instituições financeiras, consultorias e institutos de pesquisa, encerrada no dia 30 de abril (quinta-feira), devido ao feriado de 1º de maio, continuou apontando deterioração nas projeções do PIB brasileiro (-3,76%), face ao impacto econômico da pandemia do Covid-19, com consequente queda da inflação pelo IPCA (dos atuais 3% para 1,97%) e forte baixa dos juros básicos (Selic a 2,75%). Por sinal, a expectativa geral é de deflação no 2º trimestre (-0,17% em abril e -0,27% em maio), o que deve influenciar Copom a baixar mais fortemente a Selic dos atuais 3,75% ao ano, nesta quarta-feira.

As apostas do mercado variam entre 0,50 e 0,75 pontos percentuais. O Itaú acredita que o Copom vai baixar a Selic em 0,50%, para 3,25% ao ano. Para o fim do ano, as apostas para a Selic vão de 2,75% a 2,25% - projeção do Departamento Econômico do Bradesco (até 2021), que prevê queda de 4% no PIB (com alta de 3,5% em 2021) inflação de 2,2% em 2020 e de 3% em 2021.

As Top 5, as cinco instituições que mais acertam as projeções, chegam a esperar deflação para os meses de abril (-0,14%), maio (-0,38%) e junho (-0,01%). Em função disso, a grande recessão ficaria concentrada no 2ª trimestre, virtualmente comprometido com boa parte das atividades de comércio e serviços (que são a mola mestra do PIB) só voltando a reabrir no fim de maio nas maiores cidades brasileiras. Motivo mais que suficiente para o Copom acelerar a redução dos juros e forçar os bancos a movimentarem os bilhões de reais que o BC liberou dos compulsórios e de regras prudenciais.

Por isso, enquanto o mercado prevê inflação de 1,97%, nas projeções de curto prazo, as Top 5 preveem IPCA de 1,64% este ano (2,80% em 2021); enquanto nas projeções de médio prazo, apostam em IPCA de 1,36% este ano e de 3,20% em 2021. Nos dois casos, projetam redução para Selic para 2,50% este ano. Para 2021, o Banco Central elevaria a taxa a 3,50% ao ano.

Colômbia reduz piso bancário para 3,25%

Na última sexta-feira, o Banco Central da Colômbia reduziu a taxa básica de juros de 3,75% para 3,25% ao ano. O Itaú, que opera fortemente no país, espera que o Banco Central colombiano baixe novamente em 0,50 pontos percentuais o piso bancário para 2,75% na próxima reunião.

O país vizinho tem sofrido menos que o Brasil com a desvalorização de sua moeda frente ao dólar. De acordo com estudo do Departamento Econômico do Bradesco, nos últimos 12 meses (até 28 de abril), o dólar teve alta de 43% frente ao real (só perdendo para a alta de 50% frente ao peso argentino). África do Sul, México e Chile vêm a seguir. Na Colômbia, que teve a 5ª maior desvalorização de sua moeda em 12 meses, o dólar subiu cerca de 27% em 12 meses.

Mas na análise das condições da economia brasileira, o Itaú espera que o Copom vá reduzir a Selic em 0,50 p.p. para 3,25% a.a. e sinalize cautela quanto a movimentos adicionais. O banco entende que “o corte (...) é consistente com a necessidade de mais estímulos à economia (...), e pondera que “à luz da deterioração das contas públicas decorrente da crise, reduções de juros de maior magnitude poderiam ser contraproducentes para as condições financeiras (...) é possível a “sinalização de maior cautela quanto aos próximos movimentos de juros”.

As bondades da Receita

Enquanto o contribuinte pessoa física, em confinamento, quebra a cabeça para preencher a Declaração do Imposto de Renda, a Receita Federal, que já foi instada pelo presidente Jair Bolsonaro a facilitar a vida das igrejas evangélicas e seus dirigentes, resolveu, terça-feira, 28 de abril, com a Instrução Normativa 1.942, aliviar a carga tributária dos bancos (coitadinhos) no 1º trimestre. Pela reforma da Previdência, aprovada no ano passado, a Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL) dos bancos seria elevada de 15% para 20% no 1º trimestre. Mas a Receita resolveu aliviar a carga em janeiro e fevereiro para apenas 15%. A alíquota de 20% só será cobrada em março.

Trata-se de uma manobra que aumenta o lucro dos bancos, pois o impacto do novo Coronavírus ficou restrito de março em diante. Como contabilmente (vide o resultado do Bradesco, com queda de 43,5% no lucro do trimestre, com aplicação de maiores provisões em março) a vigência dessa elevação para 20% só em março será inócua, pois quase todos os bancos (assim como empresas não financeiras) devem ter prejuízos pesados em março, ficou elas por elas ou até vantajoso para os bancos.

Ficou barato

Fazendo as contas por dentro, a doação de R$ 1 bilhão pelos donos do Itaú-Unibanco para o combate do Covid-19 saiu apenas de uma parte dos ganhos em janeiro e fevereiro proporcionados pelo alívio da Receita.

Vale lembrar o IR das pessoas físicas. Quem ganha até R$ 1.903,98 está isento da cobrança; rendas entre R$ 1.903,99 e R$ 2.826,65 pagam 7,5%; na faixa de R$ 2.826,66 a R$ 3.751,05 mensais, a taxação é a mesma dos bancos: 15%. Já quem tem renda mensal entre R$ 3.751,06 e R$ 4.664,68 tem de descontar 22,5% na fonte, sobre o salário, deduzida a parcela do INSS.E quem tem rendas acima de R$ 4.664,68 é taxado em 27,5% (ex-INSS).

Crise faz Petrobras exportar metade da produção

Com a forte queda do consumo interno de combustíveis, devido ao confinamento para enfrentar a pandemia do Covid-19, a Petrobras destinou quase metade de sua produção de petróleo e derivados à exportação. Em comunicado ao mercado nesta segunda-feira, 4 de maio, a estatal revela que exportou 30,4 milhões de barris de petróleo em abril, ou pouco mais de 1 milhão de barris/dia, aumento de 145% sobre abril de 2019.

Como a empresa fixou a redução da meta doméstica de produção de óleo de abril em 2,07 milhões de barris/dia, significa que destinou o recorde de 48,95% da produção à exportação. Antes, o recorde era de dezembro: 771 mil b/d. No trimestre, as exportações cresceram 25% em relação ao 4º trimestre de 2019.

A diretora de Refino e Gás Natural da Petrobras, Anelise Lara, disse que a China segue absorvendo 60% das exportações de petróleo, seguido da Índia. Mas outros países asiáticos como Cingapura (que tem um dos portos mais movimentados do mundo) têm tido um crescimento extraordinário na exportação de óleos combustíveis para navios. O petróleo brasileiro, com baixo teor de enxofre, tem sido beneficiado pelas especificações da IMO 2020, nova regulamentação dos combustíveis marítimos, que reduziu de 3,5% para 0,5% o limite de teor de enxofre no óleo combustível.

No 1º trimestre, as vendas de óleo combustível para Cingapura (70% das exportações) cresceram 557%, enquanto para a Holanda, que tem em Roterdã, o maior porto de petróleo e derivados do mundo, houve aumento de 105%.

EUA põem freio em negócios com o Covid-19

A Food and Drug Administration (FDA) anunciou hoje nos Estados Unidos que as empresas que vendem testes de anticorpos contra o Covid-19 devem enviar, em 10 dias, dados que comprovem a precisão ou sofrer a retirada do mercado. Os testes de anticorpos prometiam rapidez para detectar se a pessoa foi infectada com o coronavírus. Mas os resultados têm sido variados e pouco se sabe se os que foram contaminados desenvolverão imunidade e por quanto tempo.

Em março, com o avanço da pandemia, a FDA autorizou que dezenas de fabricantes vendessem os testes sem fornecer evidências de que eram precisos - e muitos estão fora de controle. Nessa pandemia em que a humanidade combate às cegas, qualquer novidade em matéria de testes, de equipamentos ou de medicamentos (por enquanto as vacinas estão longe do horizonte) geram grandes lucros para as empresas envolvidas.

Mas nem tudo que se promete é comprovado. A FDA tomou a decisão depois que um relatório de mais de 50 cientistas constatou que só três dos 14 testes de anticorpos apresentaram resultados consistentemente confiáveis e até os melhores apresentaram falhas.