Jornal do Brasil

O Outro Lado da Moeda

O Outro Lado da Moeda

Gilberto Menezes Côrtes

Apertem os cintos, o PIB sumiu: -4,8% nos EUA

Jornal do Brasil GILBERTO MENEZES CÔRTES, gilberto.cortes@jb.com.br

Os primeiros resultados do desempenho de grandes bancos e empresas multinacionais no primeiro trimestre já indicavam o tamanho do estrago causado pela pandemia do coronavírus. Mesmo com o impacto da contração ficando praticamente concentrado em março, o PIB dos Estados Unidos nos primeiros três meses do ano teve queda recorde de 4,8% em termos anualizados, superando os estragos da grande recessão de 2008-09. "E daí?", diria Bolsonaro. E daí, é bom apertar o cinto porque o tranco da queda virá forte no atual trimestre. E será pior se o país não souber se fica em casa ou se arrisca a relaxar o isolamento e acelerar o número de mortos, pelo colapso do sistema de saúde, como alertava Mandetta.

Nos EUA, como no Brasil, ao contrário da Europa e da Ásia, que já estavam às voltas com o Covid-19 já em janeiro-fevereiro, a maior parte do período ocorreu antes dos desligamentos e demissões generalizados. E o tombo maior est[á reservado, [nos EUA e no Brasil] para o 2º trimestre: lá, os economistas ouvidos pelo “New York Times” esperam uma contração do PIB a uma taxa anual de 30% ou mais.

"Eles serão os piores da nossa vida", Dan North, economista-chefe da companhia de seguros de crédito Euler Hermes North America, segundo o NYT. Contrariando o pessimismo dos economistas, o secretário do Tesouro, Steven Mnuchin, manifestou a esperança de que a economia deve "realmente se recuperar” neste verão (ou seja, no 3º trimestre, de 20 de junho a 22 de setembro), à medida que os estados levantam pedidos de ficar em casa e trilhões de dólares em gastos federais de emergência alcançam empresas e famílias.

Boeing perde uma Embraer em receitas

A Boeing divulgou seu balanço trimestral com queda de 26% nas receitas, que ficaram em US$ 16,9 bilhões, na comparação com igual período de 2019. Isso significa uma perda de US$ 4,394 bilhões. Ou seja, mais do que os US$ 4,2 bilhões que teria de pagar por 80% das atividades comerciais da Embraer. A Boeing alegou que a brasileira não cumpriu certas condições para denunciar, na última hora de sexta-feira, 24 de abril, o acordo costurado com a Embraer há 21 meses. A perda de receitas maior do que a própria Embraer deixa claro quais foram os motivos.

Hoje, a Boeing anunciou que vai reduzir em 10% a força de trabalho, que era de 143 mil trabalhadores no começo do ano, mediante programas de aposentadoria voluntária. Mais atolada que todas as empresas da indústria aeronáutica devido aos problemas de seu jato 737, a Boeing planeja cortar até 15% nos negócios de aviões e serviços comerciais, que estão mais expostos à desaceleração do setor. O quadro da aviação comercial traçado pela empresa é sombrio: as viagens aéreas não devem recuperar os níveis AC-19 por pelo menos dois a três anos e pode levar vários anos mais para que a tendência de crescimento a longo prazo se recupere.

Na Airbus, perdas superam US$ 500 milhões

Principal concorrente da Boeing, a quem superou em vendas no ano passado, depois dos problemas do 737 Max, a Airbus anunciou hoje uma perda líquida de 481 milhões de euros (cerca de US$ 522 milhões) no 1º trimestre de 2020, abaixo dos lucros de 40 milhões euros no mesmo período de 2019. A empresa informou que entregou 122 aeronaves comerciais contra 162 no 1º trimestre de 2019. Cerca de 60 aeronaves não foram entregues por causa da pandemia. A entrega de aeronaves é um limiar essencial para gerar receita para os fabricantes de aeronaves.

"Estamos no meio da crise mais grave que a indústria aeroespacial já conheceu", disse o executivo-chefe da empresa, Guillaume Faury, em comunicado. As receitas gerais da empresa caíram 15%, para 10,6 bilhões de euros no trimestre, pela retração na área de jatos comerciais. Já as receitas na área de defesa aumentaram 16%, para 1,9 bilhões de euros.

Como se vê, resta como esperança para a Embraer: o super cargueiro KC 390.

Montadoras derrapam na pista

Os resultados das montadoras alemãs também mostraram quedas nas vendas e nos lucros. A Volkswagen, maior fabricante de automóveis do mundo, revelou que as vendas de veículos caíram 25% nos três primeiros meses do ano. A empresa de Wolfsburg vendeu 1,9 milhão de veículos no 1º trimestre, contra 2,6 milhões em igual período de 2019. O lucro também caiu, caindo mais de 80% para 517 milhões de euros covid-19, (US$ 562 milhões). A Daimler, fabricante de carros Mercedes-Benz, disse que o lucro líquido caiu mais de 90%, para 168 milhões de euros, frente a 2019.

Demanda cai para a Samsung

Já a gigante coreana Samsung espera uma queda substancial nos ganhos do 2º trimestre, uma vez que a pandemia do novo coronavírus afeta a demanda por seus smartphones e televisores. No entanto, as vendas de computadores pessoais e servidores aumentaram, pois muitos trabalhadores de colarinho branco tentam evitar a exposição ao vírus trabalhando remotamente.

A receita e os lucros da venda de smartphones, televisores e outros dispositivos "deverão diminuir significativamente, pois o Covid-19 afeta a demanda e leva ao fechamento de lojas e fábricas em todo o mundo", disse empresa.

Indústria de petróleo pode perder US$ 1 tri

Pior mesmo só o efeito da Covid-19 nas empresas globais de exploração e produção de petróleo e gás (E&P). Segundo análise da Rystad Energy, empresa norueguesa especialista em estudos, soluções e projeções na área de energia, as receitas globais de E&P devem cair cerca de US $ 1 trilhão em 2020, uma queda de 40%, para US$ 1,47 trilhão, frente aos US$ 2,47 trilhões de 2019. AC-19 a Rystad Energy previa receita total de US$ 2,35 trilhões em E&P em 2020 e US$ 2,52 trilhões em 2021. Agora, as receitas de 2021 devem cair para US$ 1,79 trilhão.

Para a Rystad, essa queda prejudica a solidez das empresas e reduz o dinheiro disponível para investimentos e dividendos, mas também baixa significativamente a receita tributária do governo. “Será um desafio para os petro-estados, como a Rússia e muitos países do Oriente Médio, sustentar seus orçamentos”, diz a analista upstream da Rystad Energy, Olga Savenkova.

Aqui acrescento: tremendo desafio para a Petrobras e demais operadoras no Brasil e para estados e municípios que escoraram suas receitas nos royalties do petróleo, cujos preços mostram queda de mais de 60% em dólar. Mesmo levando em conta que o dólar subiu mais de 25%, a perda dos royalties (calculada pelo preço em reais do barril) é imensa.