Barril em queda livre faz Petrobras cortar 8% da produção

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Com as novas baixas de preços dos contratos futuros (entrega em três meses) de petróleo, devido à forte retração da demanda internacional de petróleo e de combustíveis no mercado interno, pelos impactos econômicos do novo coronavírus (Covid-19) – hoje o tipo Brent (do Mar do Norte) está na faixa de US$ 25, enquanto o petróleo sem distinção (caso brasileiro) está abaixo de US$ 21, limite da sustentação financeira da empresa – a Petrobras resolveu apertar mais um furo no cinto.

Em comunicado enviado ao mercado na manhã desta quarta-feira (1º), decidiu reduzir em mais 100 mil barris diários (num total de 200 mil barris diários) a sua produção de petróleo. Como a produção de petróleo tinha alcançado a média de 2,5 milhões de barris/dia antes da crise (a média do 4º trimestre fora de 2,45 milhões/dia), isso representa um corte de 8% na produção. Em 2019 a produção aumentou 5%, boa parte nos 3º e 4º trimestres, quando entraram em produção novos campos gigantescos do pré-sal. Na prática, a empresa retrocede a produção ao começo de 2019.

Ainda em 2019, antes da crise, a administração de Roberto Castelo Branco já tinha decidido abrir mão de explorações em terra e águas rasas com baixa produtividade (produção pequena a custo elevado), que foram postas à venda. Com a crise, o processo de venda ficou emperrado (por falta de parâmetros). Assim, para não ficar com petróleo sem comprador no mercado internacional (no último trimestre de 2019 a Petrobras chegou a exportar quase 800 milhões), ou com muito estoque nas refinarias, a Petrobras está fazendo revisão geral na produção & exploração e em atividades de refino, para ajustar custos à demanda.

Os cortes de produção estão sendo feitos em áreas de custo mais altos, com preservação total dos campos de elevada produção (e custo mais baixos) do pré-sal, que podem fechar 2020 respondendo por mais de 70% da produção total. Isto porque o custo médio de produção do pré-sal é de US$ 9 por barril (incluindo custos de afretamento). O segmento produz mais de 1,6 milhão de barris/dia, sendo mais de 45% no campo de Lula e 20% no de Búzios.

Nas áreas de águas profundas, o custo por barril é de USS 12,5, com extração de 680 mil barris/dia no 4º trimestre de 2019. Nos campos em terra, que produziram 122 mil barris/dia no período, o custo caiu para US$ 18,9. Já nas explorações em águas rasas (apenas 59 mil barris/dia, depois a venda e parada de revitalização de alguns campos) os custos subiram de US$ 25,7, em 2018, para US$ 30,3, em 2019. Isso pelos dados do último trimestre de 2019, antes da crise do Covid-19.

Por isso, todas as áreas com custo acima de US$ 30 já estavam à venda. Agora, áreas com custo de US$ 20 a 25 por barril terão os planos de produção revistos.

Queda brutal de faturamento

Por operar mercadoria de cotação expressa em dólar, moeda da maior parte de seu endividamento, a Petrobras elabora seus orçamentos levando em conta trajetórias de produção e preço do petróleo (em dólar) e a própria cotação do dólar em reais (que impacta tanto receitas como as despesas financeiras). Pois houve a chamada tempestade perfeita no orçamento da estatal.

No ano, o dólar, que atingiu hoje o recorde de R$ 5,24, acumula alta de 30%. Isto ocorre enquanto a queda do preço do petróleo já soma 67%, levando a empresa a reduzir em mais de 40% os preços da gasolina e de 30% do diesel nas refinarias. O consumo de gasolina já caiu mais de 50%.

Para se ter ideia do impacto no faturamento/endividamento da companhia, vamos ver o que revelou o balanço do 4º trimestre. A empresa produziu 2,45 milhões de barris/dia e o dólar estava a R$ 4,12 (em média) e o barril (Brent) a US$ 63,25. Com isso, a empresa teve faturamento de US$ 8,8 bilhões. Igual a 10% do valor da dívida bruta em dólares, de US$ 87 bilhões.

Com a alta de 30% na cotação do dólar e a queda de 67% nos preços do barril, o faturamento em dólar da estatal vai encolher mais de 60%. Ou seja, para menos de US$ 4 bilhões. Ou seja, a geração de caixa em dólar caiu a mais da metade, o que se torna um desafio diante da dívida em moeda estrangeira. O pacote de medidas anunciadas pretende reduzir em US$ 2 bilhões os gastos operacionais em 2020.

Cortes de produção e jornadas de trabalho

Ao explicar a sua decisão de cortar mais 100 mil barris (o corte anterior foi anunciado em 26 de março), a Petrobras informou que “para definição dos campos que terão sua produção diminuída (...) levará em consideração condições mercadológicas e operacionais. A duração da restrição, assim como potenciais aumentos ou diminuições, será continuamente avaliada. A companhia está ajustando o processamento de suas refinarias, em linha com a demanda por combustíveis”.

Como parte das ações destinadas a promover o corte de US$ 2 bilhões de gastos operacionais em 2020, foram tomadas decisões para poupar aproximadamente R$ 700 milhões em despesas com pessoal:

· Postergação do pagamento, entre 10% a 30%, da remuneração mensal de demais empregados com função gratificada (gerentes, coordenadores, consultores e supervisores);

· Mudança temporária de regimes de turno e de sobreaviso para regime administrativo de cerca de 3,2 mil empregados;

· Redução temporária da jornada de trabalho, de 8 horas para 6 horas, de cerca de 21 mil empregados.

Transpetro vai cortar R$ 507 milhões

A Transpetro, subsidiária integral, também aprovou plano de resiliência, com medidas para reduzir a estrutura de custos, tanto de gastos operacionais quanto de investimentos, postergando ou otimizando desembolsos, no total de R$ 507 milhões em 2020.

Na nota ao mercado, a Petrobras diz que “reforça seu compromisso com a gestão de seu portfólio e com sua estratégia sustentada pelos cinco pilares: maximização do retorno sobre o capital, redução do custo de capital, busca incessante por custos baixos, meritocracia e respeito às pessoas, meio ambiente e segurança. A crise atual realça a importância destes pilares que devem continuar a ser implementados ainda com mais foco e intensidade.

A companhia diz que “segue monitorando o mercado e, em caso de necessidade, realizará novos ajustes, sempre garantindo as condições de segurança para as pessoas, operações e processos. Termina dizendo que “manterá os mercados informados sobre futuros movimentos”.