Jornal do Brasil

O Outro Lado da Moeda

O Outro Lado da Moeda

Gilberto Menezes Côrtes

Brasil está atrasado ante EUA e Europa nas medidas econômicas

Jornal do Brasil GILBERTO MENEZES CÔRTES, gilberto.cortes@jb.com.br

Os efeitos econômicos do Covid-19 são muito mais graves e de duração incerta que os impactos da crise financeira mundial de 2008, que eclodiu nos Estados Unidos em agosto daquele ano, com a derrocada do mercado subprime de hipotecas, o que culminou com a quebra do Lehman Brothers, em 15 de setembro. A crise financeira não foi dissipada. Por isso o impacto econômico e social do coronavírus pode ser muito mais grave.

Os países europeus, EUA e Japão já perceberam isso. O mundo vive uma economia de guerra. Cada país luta pela sobrevivência de seus habitantes. Por isso, além das rigorosas medidas que limitam a circulação de pessoas, induzidas a confinamento voluntário, os países ignoram aspectos fiscais para injetar recursos diretamente nas mãos dos cidadãos e das empresas. Não há saída: se as pessoas vão reduzir drasticamente sua movimentação por 15 a 70 dias, os negócios e os empregos vão sofrer forte contração.

Em 2008, os impactos do tsunami financeiro - que o então presidente Lula tratou em plena campanha eleitoral para a Prefeitura de São Bernardo do Campo, como uma “marolinha”, gesto semelhante ao desdém de Bolsonaro ao impacto do Covid-19, que atingiu mais de 16 membros da sua comitiva em viagem à Flórida (EUA), em fevereiro, incluindo o general Augusto Heleno, 72 anos, chefe do Gabinete de Segurança Institucional – foram drásticos. O PIB tinha crescido 6,1% em 2007 e registrou ritmo de 7,1% no 3º trimestre, mas caiu 3,5% no 4º trimestre de 2008, desacelerando a taxa de 2008 para 5,1% e provocou retração de 0,2% em 2009.

Um arsenal de medidas foi tomado para fazer a economia resistir e a válvula de escape das exportações para a China e a Índia (que cresceram, respectivamente, 5,7% e 7,1% em 2009) em muito ajudou a retomada das exportações, fazendo o PIB disparar 7,5% em 2010. Parte pela base de comparação negativa em 2009.

Mas, naquela ocasião, muitas empresas brasileiras quebraram (Sadia, Votorantim Celulose e Aracruz Celulose, que viviam das exportações, foram apanhadas na disparada do dólar). O BNDES abriu os cofres e promoveu a fusão da Sadia com a Perdigão e da Votorantim e Aracruz, criando a Fibria, que teve o controle assumido pela Suzano Papel e Celulose em 2019.

A falta de circulação de capitais no mundo gerou gigantesca crise de liquidez. O então presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, participou de uma reunião no Banco Central americano e sentiu a gravidade da crise. Voltou ao Brasil e reduziu compulsórios sobre depósitos à vista e a prazo, autorizou negociação de créditos entre bancos e recomprou papéis de empresas registrados na Cetip. Mesmo assim, o Unibanco acabou se fundindo com o Itaú e o Banco Votorantim acabou tendo metade do capital absorvido pelo Banco do Brasil, assim como o PanAmericano pela Caixa Econômica Federal, para evitar a quebra geral do grupo Silvio Santos, então dono da 2ª rede de televisão do país.

O que fez agora o Brasil?

Muito pouco, se comparado ao desafio que vem pela frente, superior ao impacto da “marolinha”. Paulo Guedes ainda se guia pelos ditames da Escola de Chicago. O buraco é mais embaixo. O BC vai injetar R$ 147 bilhões na economia e criou facilidades para os bancos renegociarem R$ 3,2 bilhões em dívidas com empresas e famílias. E vai recomprar papéis da dívida externa em poder dos bancos. Mas, na prática, as grandes empresas vão ocupar o espaço das pequenas e microempresas e das famílias, os que mais vão sofrer com a retração do consumo. O setor de serviços (que representou 64,7% do PIB em 2019) será o mais atingido, o que impactará milhões de trabalhadores informais.

A decisão de autorizar a Caixa Econômica Federal a atender os trabalhadores informais que vão ficar sem oportunidade de faturamento com a distribuição, por quatro meses, de vouchers para pessoas desassistidas e trabalhadores informais no âmbito das medidas de enfrentamento aos impactos do coronavírus, anunciada hoje, quarta-feira, 18 de março, pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, é um avanço.

Mas é tímida e insuficiente para um país que tem 12 milhões de desempregados. E mais de 30 milhões atuando sem carteira assinada. O valor será semelhante aos do Bolsa Família: um mínimo de R$ 89 e um máximo de R$ 205, incluindo as verbas para os filhos em idade escolar. Nos Estados Unidos vai ser distribuído um cheque de US$ 1 mil por cidadão desempregado.

EUA anuncia plano para garantir maior liquidez a empresas

Com recursos e o aval do Tesouro norte-americano, o Fed anunciou também a criação de um mecanismo de financiamento que utilizará como colateral papéis comerciais de empresas e outros títulos com bom rating. A ideia é, através de instituições financeiras credenciadas, injetar liquidez de curto prazo ao setor privado diante dos impactos do Covid-19.

O secretário do Tesouro, Steven Mnuchin, afirmou que há uma proposta de injeção de US$ 850 bilhões em um pacote de estímulo fiscal sendo discutida atualmente com o Congresso.

Governo britânico anuncia estímulos de 15% do PIB

Para estimular a economia, o Reino Unido anunciou um pacote de 350 bilhões de libras em empréstimos garantidos e isenções de impostos para socorrer empresas, principalmente companhias aéreas, lojas e restaurantes. A quantia total equivale a cerca de 15% do PIB britânico em estímulos, com o objetivo de conter os efeitos Covid19 sobre a economia.

Além disso, em uma ação coordenada com o Tesouro britânico, o Bank of England anunciou hoje, quarta-feira, que oferecerá recursos para comprar papéis comerciais de empresas.

Por enquanto, o Brasil está se limitando a recomprar papeis da própria dívida, com desconto de 10%. Mas há muita expectativa do que vai anunciar o Copom, às 18 horas. Uma queda de 0,25 pontos percentuais é o mínimo esperado.

Petróleo e combustíveis caem, menos nas bombas

Hoje, com nova queda do barril de petróleo futuro (para entrega em 20 de maio) à faixa de US$ 25 (-10,62%), a Petrobras anunciou nova redução de 12% no litro da gasolina em suas refinarias e de 7,5% no litro do diesel em suas bases de distribuição. A questão é que já foram várias as reduções da estatal, sem que o consumidor seja beneficiado nas bombas dos postos.

Pior ainda é o preço do GLP, o gás de bujão, que atende a 90% dos lares brasileiros. E pensar que o ministro Guedes prometeu um choque no gás...

Percepção do tombo na Bovespa

Por volta das 12h40, a Bovespa sofria novo tombo na faixa de 9,43%, diante da percepção do tamanho da crise à vista sem que o arsenal de medidas do governo Bolsonaro esteja à altura do desafio.

Petrobras PN caía 12,15%, mas Ultrapar PN (que atua na distribuição de combustíveis – dona do Posto Ipiranga – e em petroquímica) desvalorizava 15%. Vale ON tinha queda de 4%.

Mas as ações de bancos e de empresas ligadas ao consumo e à circulação de pessoas eram as que mais sofriam. Marfrig, que vai fechar frigoríficos com a queda dos embarques para a China e Europa, emagrecia 27%.

Ecorodovias caía 20%, pela percepção de queda na arrecadação futura de pedágios. CCR tinha baixa de 9%. As ações de empresas ligadas a shoppings derretiam: Multiplan perdia mais de 15%; BR Malls 18%.