Jornal do Brasil

O Outro Lado da Moeda

O Outro Lado da Moeda

Gilberto Menezes Côrtes

O que mudou em 70 anos  

Jornal do Brasil GILBERTO MENEZES CÔRTES, gilberto.cortes@jb.com.br

Fiz 70 anos na sexta-feira, 31 de janeiro, e fui fazer uma consulta a alguns dados do Brasil para comparar mudanças na minha existência. Mesmo acompanhando a Economia e a vida do país no jornalismo há 48 anos, fiquei abismado. Para começar, éramos 51 milhões de habitantes em 1950, dos quais quase metade ainda morava no campo. Hoje, somos 211 milhões, segundo as projeções do IBGE, e nada menos de 85% dos brasileiros vivem nas cidades. Em 1950, mais da metade do país vivia sem luz elétrica. Telefone era dos privilegiados. Água e saneamento só em poucas capitais e grandes cidades.

Hoje, somos 26 estados e mais o Distrito Federal, localizado no Planalto Central, com Brasília como capital do país. Em 1950, eram só 20 estados. Acre, Amapá, DF, Mato Grosso do Sul, Rondônia, Roraima e Tocantins não eram unidades federativas. Acre e Amapá eram territórios, o estado de Rondônia era o território federal de Guaporé e Roraima era o território federal de Rio Branco. O Centro-Oeste, hoje celeiro do Brasil, tinha apenas os estados de Goiás (dividido com a criação de Tocantins) e Mato Grosso (que perdeu Mato Grosso do Sul). Como compensação, ganhou Brasília, em 1960, hoje a 3ª cidade do país, à frente de Salvador, Fortaleza, Belo Horizonte e Manaus, com 3 milhões de habitantes. A liderança é de São Paulo, com 12,2 milhões, vindo o Rio de Janeiro, com 7,3 milhões, em 2º.

O mais curioso é que em 1950 o Estado de São Paulo fazia parte da região Sul e Bahia não pertencia ao Nordeste, mas ao Sudeste, junto com Rio, Minas Gerais e Espírito Santo. São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro eram os três estados mais populosos. O 4º era o Rio Grande do Sul e o 6º o Paraná, à frente de Pernambuco, Santa Catarina, Bahia e Ceará. Hoje, Bahia é o 4º estado em população, com 14 milhões, e o Paraná passou o RS.

Em termos de demografia é que a situação mais mudou. O país vem envelhecendo e aumentando a expectativa de vida, graças à ampliação das campanhas de vacinação no Brasil urbano, embora continuem a péssima distribuição de renda, que se agrava pelas carências de saneamento, habitações, saúde e educação. Caldo que amplifica o problema da segurança em termos coletivos e individuais.

Em 1950, 53% dos 51 milhões da população da época tinham de 15 a 59 anos. Só cerca de 4% tinham mais de 60 anos. Atualmente, as faixas de idade até mudaram. Os brasileiros dos 15 aos 64 anos concentram 69,3% da população, e os que têm mais de 65 anos já somam 9,8%. Não sei até quando irei, mas o IBGE projeta que, em 2050, 21,8% dos brasileiros teriam mais de 65 anos. Até lá devemos ter muitas outras reformas da Previdência. Vale lembrar que em 1950, com poucos anos de criação da Previdência Social por Getúlio Vargas, mulheres se aposentavam com 45 anos e os homens, com 55. Mas a expectativa de vida mal passava dos 50 anos. Por falta de vacinação, muitas crianças morriam, derrubando a média. Para quem sobrevivesse às mazelas infantis, a expectativa de vida batia em 59 anos. Hoje, passa dos 75 anos e supera os 80 anos em alguns estados, como os do Sul.

O mais interessante é saber que o Rio de Janeiro, no auge como capital brasileira, ainda superava São Paulo em população: 2,377 milhões, contra 2,198 milhões de Sampa. Recife era a 3ª cidade, com 524 mil habitantes, Salvador a 4ª, com 417 mil pessoas, e Porto Alegre era a 5ª metrópole. Mas Campos dos Goytacazes, que ainda era importante centro produtor de açúcar, abrigava 237 mil habitantes, figurando com o 9º mais populoso município do país. Ganhava de Santos (10º, com 203,5 mil habitantes) e da capital do antigo Estado do Rio de Janeiro, Niterói, com 186 mil pessoas.

A mudança mais extraordinária foi mesmo na economia. No sistema bancário, por exemplo, existiam quando nasci só 34 bancos. O maior era o Banco do Brasil. O Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico (BNDE) foi criado no 2º governo Vargas (eleito), com posse em 31 de janeiro (até o golpe militar de 1964, a data do meu aniversário e do meu pai coincidia com a posse dos presidentes (JK, Jânio), com o ano Legislativo inaugurado em 1º de fevereiro. Em 1950, o maior banco privado brasileiro era o Banco da Lavoura de Minas Gerais, que depois virou Banco Real, atual Santander, que antes de 2001 comprara Banespa e outros bancos. O Bradesco virou o maior banco privado do país em 1951. Título que perdeu em 2008 para o Itaú, na fusão com o Unibanco.

Em 1950, não havia a Petrobras, criada em 1953, e o Brasil dependia das exportações de café, responsável por mais de 65% das receitas cambiais. Café, açúcar, algodão e cacau respondiam por quase 80% da pauta de exportações. Ou seja, havia pouca autonomia para importações, a começar pelo petróleo.

Como o comércio de produtos industrializados estava adormecido pelas perdas da 2ª Guerra Mundial (os Estados Unidos perceberam, em 1947, que não tinham parceiros para a roda de pôquer do comércio e lançaram o Plano Marshall para reconstruir a indústria e o mercado consumidor europeus [e JK se aproveitou disso para trazer para o Brasil as matrizes desativadas da indústria automobilística local – Volkswagen, Auto-Union e Mercedes-Benz da Alemanha, Renault e Simca, da França, e a Aero-Willis dos EUA – a GM e a Ford mantiveram suas linhas de montagem de veículos CKD]), os EUA compravam 24% das exportações brasileiras, seguido da Argentina, com 11%.

Hoje, o café, que arrecadou pouco mais de US$ 4 bilhões no ano passado, representa menos de 4% das exportações. A pauta se diversificou nos últimos 50 anos. No ano passado, o Brasil exportou US$ 223 bilhões, e o complexo soja (grãos, óleo e farelo) liderou as vendas, seguido do petróleo em bruto e do minério de ferro. Juntos os produtos básicos representaram 53% e os manufaturados apenas 35%. A China se transformou no maior comprador desses três produtos e ainda de celulose, carne bovina e carne de frango, à frente dos EUA e da Argentina como nossos maiores fregueses.

A questão é que o avanço das compras da China se dá em produtos básicos, de baixo valor agregado. No ano 2000, quando a China mal aparecia no radar das exportações brasileiras, os manufaturados representavam 59% das vendas, e os básicos apenas 23%. No ano passado, os básicos responderam por 53% das vendas, e os manufaturados, modestos 35%. Estamos vendendo matérias-primas para a China transformar em manufaturados, com custos de mão de obra, impostos e juros baixos, para dominar o mundo. Por isso nossa posição estagnou em 1,2% de participação do comércio mundial, concentrado em bens de alta tecnologia.

Estagnamos relativamente na economia e tivemos um retrocesso na política. E agora estamos totalmente alinhados com os Estados Unidos e dependentes da China. Se a 2ª economia do mundo continuar espirrando com o coronavírus, podemos ter consequências graves. Mesmo se formos poupados na propagação do vírus.