Jornal do Brasil

O Outro Lado da Moeda

O Outro Lado da Moeda

Gilberto Menezes Côrtes

Razões para comemorar o PIB de 0,6%

Jornal do Brasil GILBERTO MENEZES CÔRTES, gilberto.cortes@jb.com.br

O presidente Jair Bolsonaro tem mesmo todas as razões para comemorar o resultado de alta de 0,6% do Produto Interno Bruto (PIB) do 3º trimestre sobre o segundo, divulgada na manhã de terça-feira, 3 de novembro, pelo IBGE.

Primeiro porque foi acima de todas as previsões dos economistas. Ontem, demos aqui que a média do mercado apostava numa alta de 0,4%. O Itaú, mais otimista, esperava 0,5%. O Bradesco, 0,3%.

Foi melhor que a encomenda. Sobretudo porque se deu sobre uma base que foi revisada ligeiramente pelo IBGE no 1ª e 2ª trimestres, nos números setoriais e nas ponderações, graças ao forte avanço da agropecuária.

Segundo, porque o consumo das famílias cresceu 1,9% sobre o 3ª trimestre de 2018. O Departamento Econômico do Itaú, que era dos mais otimistas, esperava expansão de 1,3%.

Terceiro, porque a Formação Bruta de Capital Fixo (FBKF) sigla que aglutina novas construções, fabris, comerciais, de transportes, comunicações e residenciais, além de bens de capital, que tendem a aumentar a produtividade da economia, avançou 2,9%.

Mudança de qualidade

Os dois segmentos da demanda, ligadas ao dinamismo do setor privado (no consumo das famílias, com a ajuda da expansão do crédito, com redução dos juros e nos investimentos empresariais cresceram).

E os gastos do governo encolheram 1,4% frente ao 3º trimestre de 2018.

Revisões à vista nas contas externas

O lado destoante no desempenho do PIB trimestral ficou nas contas externas.

As exportações de bens e serviços encolheram 5,5% em relação a 2018. E as importações aumentaram 2,2%.

Em 2020 tudo pode mudar

Mas a revelação de que o Serpro deixou de contabilizar números expressivos nas exportações de setembro, outubro e novembro pode levar o IBGE a fazer retificações nos números do PIB deste 3º trimestre quando divulgar o resultado das contas nacionais do 4º trimestre de 2019 em 4 de março de 2020.

E assim como o mercado de câmbio já reage, com a recuperação do real diante do dólar, cotado abaixo de R$ 4,20 nesta manhã, quando os operadores e analistas perceberam que as contas da balança comercial não eram tão negativas, os novos valores vão instilar mais otimismo nos agentes econômicos.

Economia volta a rodar acima de 1%

Os números revisados e anualizados do PIB mostram que a economia (devido à violenta recessão de 2015 e 2016, com queda, respectivamente, de 3,5% e 3,3% no PIB no governo Dilma), embora ainda esteja 3,6% abaixo do pico da série, atingido no primeiro trimestre de 2014, e 4,9% acima do ponto mais baixo, registrado no quarto trimestre de 2016, voltou a rodar acima de 1% em todos os segmentos.

No primeiro semestre a taxa tinha caído abaixo de 1%.

A agropecuária está crescendo, com a revisão, 2,1% acima do 3º trimestre de 2018. Pena que “o Agro não é tudo”. Só representa pouco mais de 5% do PIB.

A indústria cresceu 1%. Mas só representa 21% do PIB. Ela compreende indústria extrativa mineral (2,9% do PIB), construção civil (3,9%), serviços de utilidade pública (3%, agrupando energia, água e esgoto, gás encanado, telefonia, coleta de lixo, entre outros), e a indústria de transformação propriamente dita, que representa apenas 11,4% do PIB, conforme dados de 2018.

As diferenças nos segmentos são marcantes, frente ao 3º trimestre de 2018.

A construção civil teve o melhor desempenho em cinco anos: + 4,4%.

A indústria extrativa avançou 4% (mesmo com o desastre de Brumarinho), puxada pelos avanços extraordinários no pré-sal, que já produz mais de 62% do petróleo e gás do país.

O segmento de utilidades públicas avançou 1,6%.

A nota destoante foi a queda de 0,5% na indústria de transformação. Perdas nas exportações de celulose, metalurgia, produtos químicos e farmacêuticos (decorrência do cenário mundial de depressão de preços com a guerra comercial entre Estados Unidos e China) e redução nas exportações de veículos e equipamentos para a Argentina afetaram a indústria. Menos mal que o dinamismo do consumo sustentou algum alento na indústria automobilística e na indústria alimentícia.

Consumo das famílias aquece comércio

O aumento do consumo das famílias, com o cenário de queda dos juros, inflação baixa e liberação de contas do FGTS, aqueceu particularmente o comércio varejista e de atacado, que cresceu 2,4% em na comparação com 2018.

Mutirão de renegociação de dívidas ajuda

Com a renegociação em curso das dívidas bancárias pelos maiores bancos do país, o empuxo do consumo das famílias pode ser ainda mais favorável.

Os bancos estão dando descontos de até 90% nos juros.

A renegociação de dívidas para destravar a capacidade de consumo das famílias era uma das principais propostas do candidato Ciro Gomes (PDT) para retomar o crescimento da economia. Pena que se tenha perdido quase um ano para sua adoção. Os ganhos vão turbinar o crescimento de 2020. Que tende a fazer o PIB rodar acima de 2%.

As apostas de Paulo Guedes que não deram certo.

Vale recordar que o ministro da Economia prometeu zerar o déficit público este ano. O déficit caiu muito com a arrecadação extraordinária (mas frustrante) do leilão da cessão onerosa, 34,7% abaixo dos R$ 108 bilhões esperados.

Mas a reforma da Previdência não chegou aos R$ 1,2 trilhão de economia previstos para 10 anos. Só vale a partir de 2020 e só chegaria perto disso se a reforma se estender a estados e municípios (o que ainda não terminou).

A meta de arrecadar R$ 100 bilhões na privatização também está longe do esperado. Guedes, frustrado com a lentidão do processo (há leis, exigências do TCU e Congresso vigilante) quer sacrificar o comandante do processo, o Secretário Especial de Desestatização, Salim Mattar.

Se o Banco Central tivesse tido mais liberdade para forçar os bancos (como fez Roberto Campos Neto na redução, via limitação dos juros do cheque especial em 8% ao mês) a renegociar dívidas nos primeiros três meses, Bolsonaro e Guedes estariam comemorando um PIB acima de 1,5% este ano e não algo como 1% a 1,2%. As previsões do mercado eram de 1,7%, em média.



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