Jornal do Brasil

O Outro Lado da Moeda

O Outro Lado da Moeda

Gilberto Menezes Côrtes

Ai de ti Ipanema... Bancos e farmácias dão vez a supermercados

Jornal do Brasil GILBERTO MENEZES CÔRTES, gilberto.cortes@jb.com.br

No começo dos anos 60, a bem nascida e típica representante da classe média Garota de Ipanema tinha um irresistível balanço a caminho do mar. Balanço devidamente captado pelo olhar imortal de Vinícius de Moraes e Tom Jobim, na janela do antigo Bar Veloso, na esquina da rua Montenegro com a rua Prudente de Moraes. Com o sucesso da música brasileira mais tocada no mundo, o bar virou Garota de Ipanema e a Montenegro foi batizada de Vinícius de Moraes.

O pessoal de Ipanema melhorou de vida e o patrimônio aumentou, com a valorização imobiliária. Mas, infelizmente, houve envelhecimento geral. A Garota virou avó e os ex-paqueradores ainda vivos hoje são avôs ou bisavôs. O resultado é que, sendo praticamente a única via comercial do bairro, a rua Visconde de Pirajá, passou a concentrar bancos (para facilitar a vida dos abonados moradores) e farmácias (para atender à demanda de medicamentos que vem com a idade).

Houve gente que não aceitou isso – certamente não viveu o tempo em que a Visconde tinha bondes em mão dupla (dos anos 20 até meados dos anos 60) – e começou, pela internet, campanhas contra a proliferação de farmácias e bancos. Como morador antigo do Leblon (desde 1953) e de Ipanema (desde 1973) garanto que já tivemos muitos bancos e cadernetas de poupança. Mas farmácias eram bem mais rarefeitas.

Foi a onda de fusões e incorporações entre bancos e a compra das empresas de crédito imobiliário por eles (as que não sofreram intervenção do Banco Central - como a Delfin, que chegou a ter quatro lojas em Ipanema [absorvidas pela Caixa, que manteve apenas a da Praça Nossa. Sra, da Paz]) que provocou o choque do excesso de placas do Itaú (e do controlado Personnalite), Bradesco, Banco do Brasil, Santander e Caixa Econômica Federal, que resistem no bairro ao lado de uma solitária agência do Safra.

Antes tivemos as cadernetas da Delfin, Letra, Financilar, Morada, Reserva e os bancos Boavista, Econômico, Auxiliar, Real, Bemge, Banerj, Crédito Real de Minas Gerais, BCN, Comind, Noroeste, Banorte, Francês e Brasileiro, Banespa, Sudameris, Bamerindus (comprado pelo HSBC), Boston, Mercantil de São Paulo, Bandeirantes, Nacional e Unibanco e Citibank. A diversidade não destacava ninguém. Mas quando o Bradesco comprou o Boavista, o BCN (que comprara o Credireal), o Econômico e o HSBC, as placas do banco da Cidade de Deus (Osasco-SP) - chamaram mais atenção. Idem quando o Santander comprou o ABN-Amro (Real) e triplicou sua presença antes oriunda da compra do Sul Brasileiro (Meridional), Bozano, Simonsen e Banespa.

Maior choque ainda foi quando o Unibanco comprou o Nacional em 1995 e depois da crise financeira mundial de 2008, teve de se socorrer de uma fusão com o Itaú (após fracassarem as negociações com o Bradesco, que não aceitou ter parceiro). No começo desta década, Ipanema, ou melhor a Visconde de Pirajá, chegou a ter cinco agências do Itaú e quatro do Personnalite. Nove ao todo. Restam só 5. Redução de 45%.

Itaú, Bradesco, Drogarias Pacheco, Lojas Americanas, e Supermercados Zona Sul (até então monopolista em Ipanema) pontificavam nas placas de acrílico. Cedendo à pressão irracional das redes sociais, o ex-prefeito Eduardo Paes chegou a proibir a instalação de novos bancos e farmácias na Visconde. Em boa hora voltou atrás e limitou-se a regular o tamanho das placas.

Antes assim, pois na crise de 2015-16 – cujos efeitos perduram até hoje, como a duplicação dos desempregados para 13 milhões – começaram a fechar dezenas de lojas no principal eixo comercial do Brasil. E não haverá quem substitua bancos e farmácias quando elas fecharem. A escuridão e a falta de pedestres deixarão mais vazias as grandes calçadas da Visconde, que só perdem para as da Avenida Atântica em largura.

Monopólio do Zona Sul atacado

Ainda bem que em vez do vazio das marquises tomadas por mendigos, drogados e desempregados, houve uma diversificação de supermercados. O Hortifruti (agora sob controle suíço) se instalou na esquina da Teixeira de Mello com Barão da Torre, próxima à loja nº 1 do Zona Sul. E uma nova loja do Hortifruti surgiu no final da Visconde, pouco antes de chegar à Gomes Carneiro. Com a loja da Teixeira de Mello em obras e o novo mix da rede, que já vende até produtos de higiene e limpeza, acabou o virtual monopólio do ZS. Há dois anos o Prix inaugurou uma loja na esquiva de Vinicius com Visconde. E o Hortifruti ocupou a loja onde funcionou a Domino’s e o Spolleto, na Visconde, entre Maria Quitéria e Garcia D’Ávila. Há ainda duas lojas do valente Kikarnes. Quem sabe não surgem restaurantes na Visconde, como houne no passado o Zepelin e outros quatro que conheci e foram tragados pela invasão dos pequenos centros comerciais.

Mas o Zona Sul, cuja expansão de lojas, com fornadas de pão quente, terminou por reduzir a concorrência das antigas padarias do bairro, reagiu e inaugurou semana passada moderna loja na Barrão da Torre, no local desativado há mais de quatro anos com o fechamento da Churrascaria Porcão. Agora são seis lojas Zona Sul em Ipanema, esta nova com um centro gastronômico no 2º andar.

Ipanema não tem shopping como o Leblon, a Tijuca ou Copacabana. Só centros comerciais, de médio porte. O comércio se estende basicamente pela Visconde e as primeiras quadras das ruas que cortam o eixo principal. Além de uma grande loja das Lojas Americanas, e três lojas menores da Americanas Express, marcam presença no bairro os magazines C&A, as Lojas Marisa, a Riachuelo e as Lojas Renner, além de Casas Bahia e Ponto Frio. É pouco.

Encolhem bancos e farmácias

Entre as farmácias, a onda de fusões fez a Drogaria Pacheco continuar dominando a paisagem da Visconde de Pirajá, com cinco lojas. A Droga Raia, que chegou a ter três lojas, fechou uma filial no trecho entre Garcia e Aníbal de Mendonça, passando o 2º lugar a ser disputado entre a Venâncio (que inaugurou este ano a 3ª filial no bairro) e a DrogaMil, também com três pontos.

O Itaú deixou esta semana seus clientes ainda mais desassistidos. Com o fechamento da loja que já foi do Unibanco, entre Henrique Dumont e Aníbal, e o fechamento há dois ano de outra agência no quarteirão seguinte, a primeira filial em Ipanema é da grande agência no nº 451 da Visconde. Entretanto, com o assédio constante de mendigos que invadiam o local, o banco fecha o acesso aos terminais eletrônicos às 19 horas. Isso desmonta o slogan “o Banco 30 horas! do Unibanco (cujas antigas lojas foram as primeiras a serem desativadas e viraram Itaú ou Personnalite). A primeira Personnalite a fechar ficava entre Farme e Teixeira de Mello. Há três meses fechou a agência que era do Bank Boston, na esquina de Joana Angélica, em diagonal com a Igreja N. Sra. da Paz.

Nos tempos do Boston, funcionava nos 30 dias anteriores ao Natal uma “orquestra” de ursinhos que alegrava a todas as idades do bairro. Um banco de lucros bilionários como o Itaú acabou com a festa, alegando corte de despesas. E agora ficaram só duas filiais do Personnalité. Uma loja que foi do Francês e Brasileiro, entre Garcia e Maria Quitéria, e a grande loja onde funcionou por tyrês anos o Citibank, entre Vinícius e Farme de Amoedo.

Como as lojas do Personnalité cerram as portas às 16 horas e a grande agência do Itaú na Visconde de Pirajá 451 fecha o acesso aos caixas eletrônicos às 19 horas, (moro quase ao lado e canso de ouvir queixas), cliente Itaú em Ipanema só consegue sacar dinheiro entre 19 e 22 horas nos caixas eletrônicos da Visconde 300, ou no 66, na distante Praça General Osório. No Banco do Brasil e na Caixa o suplício é semelhante.

Só o Bradesco oferece acesso até às 22 horas nos caixas eletrônicos das seis agências entre a Henrique Dumont e a General Osório. Mas o Bradesco também tem planos de enxugar agências, hoje superdimensionadas ante o crescente uso de transações online ou via celular. A questão é garantir um mínimo de acesso do cliente ao seu dinheiro, confiado ao banco.