Jornal do Brasil

O Outro Lado da Moeda

O Outro Lado da Moeda

Gilberto Menezes Côrtes

A cara de pau do Banco Central

Jornal do Brasil GILBERTO MENEZES CÔRTES, gilberto.cortes@jb.com.br

Há algumas décadas, no tempo em que Pelé e Garrincha ditavam o ritmo do futebol brasileiro bicampeão mundial, surgiram uns técnicos que “jogavam” mais aos microfones das rádios (sim, na época, o principal veículo das transmissões esportivas era o rádio e eu gostava do Jorge Curi, em relação ao Waldir Amaral, porque esse, que era diretor comercial da Rádio Globo, irradiava mais os anúncios que os lances em campo). Esses técnicos costumavam conjugar o verbo: ”eu ganhei, nós empatamos, eles perderam”.

Ainda há muitos remanescentes assim, que valorizam ao excesso sua função, na vitória, no empate e até na derrota. O Flamengo vai muito bem obrigado não apenas pelos méritos do seu técnico, Jorge Jesus. O português trouxe novos ares ao futebol brasileiro mas é preciso ressaltar que sua vinda coincidiu com a contratação de Rafinha, o espanhol Pablo Mari (indicação de JJ), Felipe Luiz e Gérson.

A presença de laterais que são verdadeiros meio campistas (lembrando o Mengão de Leandro, Júnior e Zico, claro) e o renascimento do coringa Gérson facilitaram a adoção da tática de pressão alta na bola. A defesa joga avançada. Os atacantes fazem rodízio e voltam imediatamente para recuperar bolas perdidas. Tudo isso faz a bola rolar muito e os jogadores correrem menos.

O fator Q.I no futebol

O grande Gérson, o “canhotinha de ouro” já dizia: “quem tem de correr é a bola”. Correria inútil não leva a nada. Parte do segredo do Flamengo está aí: os jogadores ficam mais tempo com a bola e se desgastam menos. Mas há um fator – à parte o equacionamento financeiro na gestão Eduardo Bandeira, que permitiu ao Flamengo tomar passos tão largos quanto os de Bruno Henrique – que é a média alta de Q.I. do atual elenco, com gente testada nos centros mundiais onde responsabilidade é uma das obrigações dos profissionais.

Quem assistiu ontem o programa “Bem Amigos”, com a presença do goleiro Diego Alves, que fez longa carreira na Espanha, onde pegou pênaltis de R7 e de Messi, deve ter ficado impressionado com sua lucidez. Que se reproduz nos dois laterais, na dupla de zaga. No meio-campo (Gérson e Willian Arão) e no ataque com os rodados Ewerton Ribeiro, Gabriel Barbosa, Bruno Henrique e o uruguaio Arrasca).

Que diferença da turma do chinelinho que comemorava derrotas bebendo garrafinhas de Stella Artois (na época com mais álcool)! O alto grau de QI era outra virtude do Mengão de Zico&Cia. Só assim foi possível ao treinador Cláudio Coutinho, que reuniu aquela turma, e foi substituído por Carpegianni após sua morte menos de um mês antes da final de Tóquio, introduzir jogadas mais modernas, ao estilo da Holanda, como o over lapping. A troca de Toninho por Leandro foi fundamental. Toninho corria mais que o pensamento... Jogadores inteligentes ajudam o treinador, como ocorreu com Vicente Feola, na Copa de 1958, na Suécia, quando Didi, Nilton Santos, Zito e Zagallo pressionaram pela escalação de Pelé, Garrincha e Vavá. As Circunstâncias e os meios valem muito mais que a teoria.

Falta humildade ao BC

Tudo isto que estou falando de futebol é para fazer um paralelo com a falta de humildade dos dirigentes do Banco Central do Brasil que recorrem especialmente aos livros-texto quando se submetem à sabatina da Comussão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado.

Esteve na manhã desta terça-feira na CAE o economista Fabio Kanczuk, indicado à diretoria de Política Econômica da autarquia, que reiterou a cartilha do BC: “O principal papel da política monetária conduzida pelo Banco Central é assegurar inflação baixa e estável”.

A inflação vem baixa há muito tempo. Mas o mérito não é do Comitê de Política Monetária do BC (Copom, do qual a diretoria faz parte). Deve-se à enorme capacidade ociosa da economia, que inclui, em primeiro lugar os cerca de quase 13 milhões de desempregados. O outro fator é a queda acentuada da variação dos preços de alimentos, graças às superssafras de 2017 para cá.

A inflação fechou 2017 com 2,9% (6,3% em 2016); em 2018 ficou em 3,7% (mesmo com o forte impacto da greve dos caminhoneiros e os entreveros da eleição) e este ano deve fechar em 3,3%, na visão do Itaú. ou em 3,1%, como prevê o Bradesco.

No resultado do IPCA-15 de outubro, a inflação acumulada no ano estava em 2,69%. Mas os preços dos Alimentos e Bebidas acumulam alta de somente 2,38%.

Enrolando a Selic

Em rápido discurso inicial, no qual não teceu comentários mais aprofundados sobre sua visão para a Selic, que o Copom deve reduzir amanhã para 5% (e a 4,50% no fim do ano – o mercado espera essa taxa até o fim de 2020, enquanto o Itaú espera que caia ainda mais, a 4% - Kanczuk afirmou que “é com estabilidade monetária que convergiremos para taxas de juros a níveis mais adequados, seguindo sempre firmes no objetivo de contribuir para um ambiente de crescimento econômico sustentável”.

O Banco Central está errando tudo e tem conseguido a façanha (por baixar atrasado a taxa de juros básica e não captar a baixa dos alimentos) de provocar alta do juro real. Em outubro, a Selic vai cair a 5%, contra inflação de 2,7% em 12 meses. Em março, a Selic estava em 6,50% para uma inflação de 4,6%.

Um pouco de humildade não faria mal a um Banco Central, que baixa a Selic mas não consegue ser acompanhado pelos juros bancários, em alta.

A surpresa da Argentina

Contra todos os prognósticos e torcidas contras, o peso argentino voltou a subir hoje diante do dólar. É a segunda elevação desde que o Banco Central local reduziu de US$ 10 mil para US$ 200 o limite de compras mensais em dólar.