Jornal do Brasil

O Outro Lado da Moeda

O Outro Lado da Moeda

Gilberto Menezes Côrtes

POF e a mudança de hábitos: assinatura de streaming em vez de jornais

Jornal do Brasil GILBERTO MENEZES CÔRTES, gilberto.cortes@jb.com.br

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou nesta sexta-feira, 11 de outubro, alguns impactos práticos do novo perfil de consumo da sociedade brasileira apurado pela Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) referentes aos anos de 2017-18, que irão alterar os pesos da composição dos diversos itens de consumo nos dois medidores oficiais de inflação: o IPCA e o INPC, a partir de janeiro de 2020. A atual POF, em vigor desde janeiro de 2012, refletia os hábitos de consumo do período de 2008-09.

Há várias mudanças nos hábitos familiares e mudanças nos pesos entre as 16 grandes capitais e regiões metropolitanas onde o IBGE pesquisa a inflação. A função das grandes pesquisas, como a POF, a Pesquisa Nacional Por Amostra de Domicílios (PNAD) e o Censo é oferecer uma radiografia mais detalhada das carências e demandas da sociedade, para balizar as políticas.

A principal redução na última POF foi no peso das despesas com alimentação e bebidas. Graças aos sucessivos aumentos das safras agrícolas (o que deve se repetir em 2020, segurando os preços dos alimentos como previu hoje o Bradesco, ao analisar as previsões da Conab e do IBGE sobre o aumento da safra de grãos que está sendo plantada).

Houve queda no IPCA, que mede a cesta de consumo das famílias com renda até 40 salários mínimos (R$ 41.600, a partir de janeiro, se confirmada a previsão no Orçamento Geral da União de que o mínimo valerá R$ 1.040). A alimentação e bebidas pesava22,08% no IPCA e seu peso se reduziu para 18,98%.

No INPC, que mede despesas até cinco salários mínimos (R$ 4,200) e baliza o reajuste do próprio mínimo, a queda de peso foi ainda maior: de 27,25% para 21,50%, mantendo-se como item de maior peso nas despesas, à frente dos 20% dos transportes. Como se vê a queda da alimentação está ajudando as classes mais baixa no orçamento e nos negócios com venda de quentinhas.

O que pesa mais revela carências públicas

Se houve alívio na alimentação, graças à competência da agricultura brasileira, que, além de abastecer o mercado interno, se tornou líder na exportação mundial de soja, de carnes bovina e de frango, 2º em milho, além de manter a tradição de liderança em café, açúcar e suco de laranja e recuperar o 2º posto em algodão [ficaria mais feliz se em vez de algodão estivéssemos vendendo mais fios, tecidos ou o estilo brasileiro nas roupas, com muito mais valor agregado], houve comprometimento nas despesas em setores importantes.

O grupo Transportes vai se tornar, a partir de janeiro de 2020, o principal componente do IPCA, com 20,8% do indicador, contra os atuais 21,95%. No INPC ele também subiu: de 18,21% para 20,02%

O aumento do peso dos transportes deixa claro a necessidade maior investimento público na modernização dos transportes urbanos coletivos (que pesa mais no INPC, nas camadas de menor renda). No caso do IPCA, reflete o peso dos gastos inerentes aos automóveis e motos na vida dos brasileiros, além do peso das passagens aéreas, que ficaram ao alcance de milhões de brasileiros.

Com as mudanças de hábitos, também subiram as despesas com habitação, que contabiliza no item os gastos com energia elétrica e GLP. No IPCA, de 14,27% para 15,16%. No INPC, de 16,42% para 17.04%. Taí, uma área em que a intenção de Paulo Guedes, de reduzir os custos do gás natural e GLP seria benvinda.

Outro item que aumentou sua fatia nas despesas foi o de Saúdes e Cuidados pessoais, uma das decorrências do envelhecimento da população, razão primeira da reforma da Previdência. No IPCA saltou de 11¨,)7% para 13,45% (o maior aumento percentual); no INPC aumentou de 9,8% para 11,85%.

Quem subiu e quem caiu na gangorra do consumo

A nova estrutura de ponderação do IPCA, foi baseada na análise de 377 produtos e serviços. Produtos e serviços de alta tecnologia, consumo prático, vida saudável e estética, além dos gastos com “pets” são algumas das tendências de consumo que contribuíram para alterar a cesta de produtos das famílias. São seis subitens a menos que na estrutura atual, baseada na POF 2008-2009 e em vigor desde janeiro de 2012.

Subiram: transporte por aplicativo, Integração transporte público, Serviços de streaming e Combo de telefonia, internet e TV por assinatura são alguns dos 56 novos subitens que compõem a cesta.

No caso do consumo prático, destacam-se alimentos como Macarrão instantâneo (0,03%) e Polpa de fruta congelada (0,01%). Já Conserto de bicicleta (0,18%), Sobrancelha (0,11%), Atividade física (0,40%) Cabeleireiro e barbeiro (1,09%) e Depilação (0,06%) são exemplos de serviços relacionados à vida saudável e estética.

Também se destacam novos subitens que foram agregados em função do aumento de sua importância, como Tratamento de animais (clínica) (0,30%) e Serviço de higiene para animais (0,13%).

INPC tem 61 novos produtos e/ou serviços

Já o INPC passa a contar com 61 novos subitens, como ar condicionado e vinho consumido no domicílio. Ao todo são 368 produtos e/ou serviços pesquisados, quatro a menos que na cesta atual.

Embora tenha havido alterações nos pesos dos grupos, Alimentação e bebidas se mantém como o principal grupamento na composição do índice, passando de aproximadamente 27,3% para 21,5%. Assim como no IPCA, o grupo dos Transportes teve ganho de participação de cerca de 1,8 ponto percentual.

Rio de Janeiro perde importância

Além de servir para orientar políticas públicas, pesquisas como a POF são usadas pelo mercado publicitário e pelas grandes empresas que atuam no mercado de consumo.

Um dado importante, que reflete as elevadas taxas de desemprego e informalidade no Grande Rio, foi a perda do 2º lugar da região para a Grande Belo Horizonte, tanto no IPCA como no INPC.

Por concentrar a maior população e os maiores níveis de renda, São Paulo ampliou a liderança no peso do IPCA, de 30,67% para 32,32%. No INPC, a fatia variou pouco: de 24,24% para 24,60%. São

A surpresa na POF foi o fato de que a Grande BH, mesmo perdendo posição relativa no IPCA (de 10,86% para 9,74%) tenha superado o Grande Rio, 2ª região metropolitana do país, com cerca de 14 milhões de habitantes (que encolheu de 12,06% para 9,49%).

Ponho em dúvida se foi reflexo apenas da reviravolta no quadro do emprego (que era alto na POF anterior) para o de desemprego (que quase triplicou no período na nova POF). A violência reinante no Grande Rio teria tirado a imprecisão da pesquisa, pela perda de acesso aos mesmo locais pesquisados anteriormente?

Brasília, que concentra a 4ª população do país (pela ordem: São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Brasília e Fortaleza), aumentou seu peso de 2,80% para 4,09%, devido ao grande peso do funcionalismo de alto poder aquisitivo no Planalto Central.