Jornal do Brasil

O Outro Lado da Moeda

O Outro Lado da Moeda

Gilberto Menezes Côrtes

Corte de 26,5% em reajuste de Plano de Saúde é o maior da década

Queda para 7,35% em 2019 supera a de 13,55% (2017) para 10% em 2018

Jornal do Brasil GILBERTO MENEZES CÔRTES, gilberto.cortes@jb.com.br

Nos últimos 12 meses terminados em junho a inflação medida pelo IPCA, que reflete a cesta de despesas das famílias com renda até 40 salários mínimos (R$ 39.920), acumulou alta de 3,37%.

Principal item das despesas das famílias, os gastos com Alimentação e Bebidas subiram 3,99%. As despesas com Habitação (2º item em despesas) avançaram 3,84%. Os custos do Vestuário aumentaram apenas 0,39% em 12 meses. Os de Transportes subiram apenas 2,39%. Os de Comunicação, caíram 0,21%.

Como o IPCA chegou a 3,37%? Pelo aumento de 4,93% nos gastos em Educação (que estão ainda impactados pelos reajustes anuais das mensalidades escolares e de cursos diversos) e pelo aumento de 4,76% nas despesas com Saúde e Cuidados Pessoais.

E em Saúde e Cuidados pessoas, mais uma vez, o item que mais pesou foi o reajuste de 9,42% dos Planos de Saúde. Entra ano e sai ano, os Planos de Saúde individuais (item medido pelo BNDES no cálculo do IPCA) variavam na faixa de 13% a 14%, em função de reajustes que foram de 13,55% em 2015; 13,57% em 2016; 13,55% em 2017.

No ano passado, apesar da inflação de 2017 ter despencado dos 6,58% de 2016 (10,71% em 2015) para 2,94%, o reajuste dos planos de saúde apenas encolheram dos 13,55% de 2017 para 10%. Cansei de criticar esse disparate nas páginas do JORNAL DO BRASIL, que era reproduzidas em PDF no JB on line.

Agora, a queda do reajuste de 2018 (10%) para 2019 (7,35%) serái de 26,5%, maior que a redução de 26,1% em 2018 (13,55% de 2017 para 10%).

Este ano, depois de muitas consultas a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) acabou adotando um indexador misto. Leva em conta Índice de Valor das Despesas Assistenciais (IVDA), que passa a pesar 80% no cálculo do índice e a variação do IPCA entra com 20% no cálculo.

Maio como mês base prejudicou consumidor

O índice de 7,35% foi um avanço e poderia ser maior o ganho para o consumidor se o calendário não fosse tão cruel. Os reajustes dos planos são aplicados pela ANS tomam por base o período de maio do ano em curso a abril do ano seguinte.

Assim, os planos referentes a maio levam em conta os custos do IVDA e do IPCA até abril. Mas foi justamente após maio que a inflação do IPCA desabou (a taxa em 12 meses do IPCA, que era de 3,73% em fevereiro, saltou para 4,71% em abril e 4,94% em maio, despencando para 3,37% em junho e deve ficar abaixo disso em julho e agosto.

Como todos os preços da economia seguem mais ou menos a curva da inflação (o que se aplica também ao IVDA), a queda seria mais acentuada se o mês de cálculo do reajuste fosse em julho ou agosto de 2019.

Menos mal que a nova metodologia já vai ter melhor resultado em 2020, se a curva da inflação seguir em queda e, principalmente, se houver já na próxima semana novo round da queda dos juros básicos (Selic, atualmente em 6,50% ao ano, promovido pelo Comitê de Política Monetária do Banco Central).

Juros em queda baixam custos dos Planos de Saúde

As entidades da área de saúde, como a Abramge – Associação Brasileira dos Planos de Saúde - e o Instituto de Estudos da Saúde Suplementar (IESS) já saíram criticando o novo método, dizendo que não se pode comparar os custos da saúde com a cesta básica da inflação. É verdade. Por isso a ANS deu peso de 80% ao IVDA e de 20% ao IPCA.

Mas no tempo em que prestei assessoria de imprensa para um dos maiores planos de saúde do país, seu então presidente foi categórico numa explicação: “Quando os juros caem, aproveitamos para renegociar os preços de todos os contratos de prestação de serviços, de hospitais a laboratórios, incluindo os insumos usados nos tratamentos e operações, pois a baixa dos juros implica redução de custos e vice-versa, em casos de elevação”, dizia.

Por isso defendo tanto a queda dos juros bancários. Os juros que realmente impactam a vida das famílias e das empresas.

Seria o início da desindexação?

O ministro da Economia, Paulo Guedes, tem uma grande vivência como operador financeiro do lado de dentro do balcão que sabe aproveitar as oportunidades para arbitrar taxas de juros quando a inflação está em alta.

Como gestor das finanças do país, ele agora é o administrador da grande dívida (junto com sua equipe e o Banco Central). Com o dom andamento da reforma da Previdência (que equaciona nos próximos anos o quadro fiscal), Guedes não deveria desperdiçar a oportunidade de avançar no processo de desindexação da economia, promovendo outras pequenas mudanças.

Não estaria na hora de introduzir mecanismos híbridos nos reajustes das mensalidades escolares e nos reajustes de pedágios e demais tarifas públicas. A realidade da competição da economia numa economia mais aberta, exigidos por acordos como o do Mercosul com a União Europeia, pedem mais atenção aos custos presentes e futuros que o uso da memória do passado.