Jornal do Brasil

O Outro Lado da Moeda

O Outro Lado da Moeda

Gilberto Menezes Côrtes

AEB revisa saldo comercial para US$ 52,2 bilhões, queda de 10,9%

José Augusto de Castro: "número é soma de resultados negativos"

Jornal do Brasil GILBERTO MENEZES CÔRTES, gilberto.cortes@jb.com.br

A Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB) divulgou nesta quarta-feira, 17, as novas projeções para o comércio exterior do país em 2019. O saldo entre as exportações e as importações deve chegar a US$ 52,248 bilhões, uma queda de 10,9% em relação aos US$ 58,664 bilhões gerados em 2018. Na revisão do balanço de pagamentos apresentada em fins de junho, no Relatório Trimestral de Inflação, o Banco Central previu superávit de US$ 46 bilhões. Já o Bradesco espera saldo positivo de US$ 54,52 bilhões. Mais otimista, o Itaú projeta US$ 61 bilhões.

Mesmo com o saldo aumentando em quase US$ 20 bilhões frente às projeções feitas em 13 de dezembro de 2018, quando a AEB projetava saldo de apenas US$ 32,767 bilhões, os números melhoraram porque na revisão efetuada pela AEB, se as exportações devem somar US$ 223,757 bilhões, uma queda de 6,7% em relação a 2018, as importações tiveram maior revisão para baixo, devendo cair 5,4% frente a 2018, para US$ 171,509 bilhões.

Na definição do presidente da AEB, José Augusto de Castro, o superávit da balança comercial também foi “negativo”, porque resulta da soma da redução geral da corrente de comércio. “O superávit comercial a ser obtido pelo Brasil em 2019 será triplamente negativo, pois será obtido com queda das exportações e importações, e do próprio superávit, ainda que robusto, mas sem gerar atividade econômica [num ano em que o PIB frustrou as expectativas] que é proporcionada pela corrente de comércio, também em queda de 6,1%”, disse.

O cenário de retração do comércio mundial, a partir da guerra comercial entre Estados Unidos e China, e, por tabela, com a União Europeia, reduziu para baixo os volumes de exportação e importação e afetou desigualmente os preços das commodities. A AEB lembrou outros fatores que afetaram o movimento de cargas no mundo como a crise nuclear EUA x Irã; a peste suína na China, com impactos nas negociações da soja e das carnes; o rompimento da barragem de Brumadinho e reflexos em minério de ferro; e o agravamento da crise econômica na Argentina, que afetou a venda de produtos manufaturados.

Corrente de comércio encolhe

O presidente da AEB lembra que “a corrente de comércio, projetada em US$ 395,266 bilhões para 2019 será menor que os US$ 421,114 bilhões apurados em 2018, e ainda mais distante do recorde de US$ 482,292 bilhões obtido no ano de 2011, além de voltar a ficar abaixo de US$ 400 bilhões”.

José Augusto de Castro ressalta que “com exceção do ano de 2018, desde 2014 as exportações brasileiras de manufaturados permanecem estagnadas em patamar inferior a US$ 80 bilhões e em valores menores que as exportações de 2007, especialmente após a forte crise vigente na Argentina, com taxa de câmbio desequilibrada, que provoca recessão econômica, contenção das importações com medidas protecionistas, tudo para gerar superávit comercial” no país vizinho.

O efeito Argentina

Mesmo com a crise, a Argentina deve manter o posto de 2º maior importador de manufaturados brasileiros. Porém, neste ano de 2019, o Brasil poderá ter déficit comercial com a Argentina, o primeiro desde 2003;

No entanto, as exportações do Brasil para a Argentina estão em forte queda, pois em 2017 foram de US$17,619 bilhões, caíram em 2018 para US$14,951 bilhões e nova queda é projetada para 2019 no montante de US$10,200 bilhões;

Soja, petróleo e minério de ferro somam 32%

Em 2019, apesar de fortes oscilações nos três principais produtos de exportação, soja, petróleo e minério de ferro manterão representatividade próximo a 32%, consolidando o peso das commodities nas exportações e no superávit comercial. Para o presidente da AEB, a situação “reforça a imperiosa necessidade de reformas estruturais para reduzir o Custo-Brasil e gerar competitividade nas exportações de manufaturados”.

Pelo 5ª ano seguido, a soja será o principal produto de exportação do Brasil, com o petróleo na 2ª posição e minério de ferro em 3º, mas com pequenas diferenças entre si. Até junho foram embarcadas 44,5 milhões de toneladas de soja em grão, representando 62% das 72 milhões de t. previstas para 2019;

Perda de competitividade

O presidente da AEB chama a atenção para o fato de que “todos os 10 principais produtos exportados pelo Brasil são commodities, sem nenhum manufaturado, comprovando a perda de competitividade dos produtos manufaturados”.

A projeção da taxa cambial para o final de 2019 poderá ser influenciada pelo nível dos juros nos Estados Unidos, por eventuais decisões do Presidente Trump, por decisões do governo Bolsonaro e pela aprovação das reformas estruturais, com as cotações podendo oscilar entre o mínimo de R$ 3,65 e R$ 3,90.

Ele assinala ainda que “em 2019, o elevado "Custo-Brasil" mantém o Brasil excluído das cadeias globais de valor e, indiretamente, provocando seu isolamento comercial, resultando em baixo volume de exportações de produtos manufaturados e perda de empregos qualificados”. O acordo do Mercosul com a União Europeia poderá corrigir o problema a médio prazo, mas o Brasil perdeu muito espaço no comércio exterior por estar excluído das cadeias produtivas industriais.

Nos estudos da AEB, os dados projetados de exportação e importação para 2019, sinalizam que o Brasil ocupará, respectivamente, a 29ª posição no ranking de exportação e 30ª em importação.

Como as exportações brasileiras estão concentradas em produtos primários (agrícolas e minerais), que chegam a 51,51% das vendas totais esperadas para este ano, contra 49,73% em 2019, não é de se admirar que as exportações brasileiras se mantenham “estagnadas ao redor de 1,1% a participação nas exportações mundiais”.

Altas e baixas do ano

Principal produto de exportação, a soja em grão deve ter suas vendas encolhidas em 24% este ano, para US$ 25,1 bilhões. As exportações de farelo de soja também devem cair pela menor pressão de compras da China no mercado internacional devido à gripe suína africana, que gerou a morte de muitas porcas matrizes.

A redução da produção de carne suína na China deve elevar em 50% as receitas de exportação de carne suína pelo Brasil, para US$ 1,6 bilhão.

As vendas de carne de frango também devem crescer quase 20%, em substituição à carne de porco, com receitas estimadas em mais de US$ 7 bilhões, incluindo carne de frango salgada.

As vendas de carne bovina são estimadas em US$ 5,7 bilhões, alta de 4,6%.

As exportações somadas de carnes de animais, incluindo bovinos vivos e sem contar pescados e frutos do mar, vão superar os US$ 16,3 bilhões. Considerando ainda as vendas de couros (US$ 1,3 bilhão), passariam de US$ 17,6 bilhões.

Seriam superadas apenas pelas vendas do complexo soja (grão, farelo e óleo, com + de US$ 31 bilhões); petróleo em bruto, derivados e produtos petroquímicos (+ de US$ 30 bilhões) e minério de ferro (+ de US$ 22 bilhões).

Em petróleo e derivados + petroquímica haveria saldo de US$ 10 bilhões, pois as importações de petróleo e derivados são estimadas em US$ 20,9 bilhões.

Se a soja terá queda de faturamento, duas lavouras que sucedem a colheita de soja avançarão. O milho deve ter exportações de US$ 6 bilhões, um aumento de 49,8%. Outra lavoura é a de algodão. As exportações do algodão em bruto, sem beneficiamento, devem somar US$ 2,1 bilhões, avanço de 35,7%.

Infelizmente, o Brasil segue exportando matéria prima para os mercados têxteis da China, Turquia e demais países asiáticos devolverem sob a forma de confecções que têm maior valor agregado, geram impostos e mais empregos.

Perdas em manufaturados

As mudanças produzidas no Repetro afetaram os dados da balança de exportação e importação de plataformas de petróleo. Nos cálculos da AEB, as exportações encolherão 55% para R$ 2,5 bilhões. E as importações vão cair também. Os dados são difíceis de compilar, porque as plataformas e navios FPSO costumam ter os cascos importados, com a montagem de sistemas de processamento e separação de água, gás e petróleo feitos no Brasil.

Mas as vendas de manufaturados seguem entre estagnadas ou em queda, sobretudo pela crise com a Argentina e o fim do acordo automotivo com o México.

A AEB prevê queda de 21% nas vendas de automóveis, para US$ 4 bilhões. Já as vendas de autopeças devem cair 13,5% para US$ 1,9 bilhão.

A mudança do controle acionário da Embraer também parece ter agravado o quadro da retração mundial no setor. As vendas de aviões devem cair 14,5% para US$ 3 bilhões, mas as exportações de peças e turbinas podem avançar 21% para US$ 2 bilhões.