O OUTRO LADO DA MOEDA
Dívida federal atinge 100% do PIB dos EUA
Publicado em 29/10/2026 às 18:05
Alterado em 29/10/2026 às 19:24
. Foto: Getty Imagens
A dívida nacional dos Estados Unidos atingiu 100% do Produto Interno Bruto (PIB) no ano fiscal encerrado em 30 de setembro, graças ao aumento acentuado dos empréstimos chegando à marca de três dígitos pela primeira vez desde 1946, segundo o jornal "Wall Street Journal".
O governo federal havia relatado anteriormente que a dívida pública em 30 de setembro era de US$ 32,2 trilhões. Com a divulgação da produção econômica do terceiro trimestre na quinta-feira, esse valor equivalia a 100% (100,03%, para ser exato) do produto interno bruto do ano fiscal.
O endividamento americano só não ficou pior porque a economia cresceu 3,4% no terceiro trimestre, acima dos 3,1% previsto pelo consenso dos economistas, e o Federal Reserve resolveu, nessa quarta (28), dar uma pausa na alta dos juros – na faixa de 3,75%-4,00% -, medida seguida hoje pelo Banco Central Europeu.
Ambos subiram os juros devido ao impacto inflacionário da guerra na cadeia do petróleo, mas evitam a escalada de juros que esfria a economia e piora os indicadores do endividamento/PIB. Isso, mesmo tendo o PCE (Índice de Preços de Despesas de Consumo Pessoal) subido 0,5% em setembro (0,3% em agosto), o que elevou a taxa em 12 meses de 3,1% para 3,4%. A meta do Fed é 2%.
Às vésperas da eleição para a renovação dos mandatos na Câmara e no Senado, as informações ainda não causaram nos EUA o debate terrorista que se faz no Brasil sobre a dívida pública, que tinha claro viés eleitoral anti-Lula.
A onda sobre as contas públicas
Nesta sexta-feira (30), saem os dados do endividamento público e das contas fiscais consolidadas até setembro. Prefiro usar o critério da dívida líquida (que exclui do cálculo os papéis do Tesouro na carteira do Banco Central para operações de "open market"). Cubro mercado financeiro e economia há 54 anos e sempre foi o critério mais correto.
O mercado que apostava (sempre, desde os anos 70) em inflação, para ganhos em papéis pós-fixados (juros + correção monetária ou IPCA) na inflação para ganhos com alta de juros, se frustrou porque o governo deu um drible, taxando as exportações de petróleo com os ganhos de preço pela escalada da guerra e usou os recursos para bancar subsídios.
Resultado: a inflação não estourou a faixa de 5% (e muito menos furou os 6%) e o Banco Central, em vez de subir a Selic até 16%, acima dos 15% vigentes até 18 de março, quando reduziu a Selic a 14,75%, segue baixando os juros a 13,75%.
Apesar da turbulência no câmbio, que subiu hoje mais de 1% para R$ 5,4080, agravado pelas perdas dos que apostaram na vitória de Flávio Bolsonaro, o Copom tem chances de nova baixa da Selic semana que vem ou em 9 de dezembro.
Resultado primário positivo em setembro
Em setembro, o resultado primário (receitas menos despesas, sem contara os juros da dívida) do governo central foi positivo em R$ 4,8 bilhões, revertendo déficit de R$ 13,6 bilhões em agosto. Um dos fatores que contribuiu para a melhoria das contas foi o estorno à União de pagamentos de precatórios de exercícios anteriores cancelados pelo Poder Judiciário. Muitos destes precatórios estavam nas manobras corruptas do Banco Master, de Daniel Vorcaro, de antecipar sentenças (algumas até fraudadas) para o reconhecimento prévio de precatórios. Face aos escândalos, cabe investigação mais profunda.
Em setembro, comparado a igual mês de 2025, excluindo a inflação, a receita líquida do TN cresceu 13,6%, mas a despesa líquida teve crescimento de apenas 2,4%.
No acumulado em 12 meses, o déficit primário de setembro, alcançou R$ 51,5 bilhões (0,4% do PIB), redução de 0,1 ponto percentual em relação ao mês anterior. O movimento reforça a normalização da trajetória fiscal após a interrupção provocada pelos diferentes dados de pagamento dos precatórios em 2025 e 2026.
Para a consultoria 4intelligence, a combinação entre receitas ainda robustas, sustentadas pela atividade e pelo petróleo, e o crescimento das despesas em ritmo mais moderado têm contribuído para a redução gradual do déficit acumulado. Este resultado se moveu da trajetória compatível com a projeção da consultoria para o encerramento do ano, em -0,3% do PIB. Estouro, portanto, só em 2027 e o governo está estudando reforços de arrecadação com a reforma tributária.