O Outro Lado da Moeda

Por Gilberto Menezes Côrtes

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O OUTRO LADO DA MOEDA

Jacaré fecha a boca e engole especulador

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Publicado em 26/10/2026 às 14:08

Alterado em 26/10/2026 às 14:08

Eu bem que adverti, semana passada, para o risco dos que especularam trazendo dólares do exterior (sobretudo paraísos fiscais) para aplicar na B3, procurando ganhar com a valorização das ações, apostando na vitória de Flávio Bolsonaro. Quem se defendeu em "hedge" na taxa de câmbio e no Ibovespa, se salvou quase sem perdas.

Os que não fizeram foram surpreendidos pela virada histórica da vitória de Lula por mais de 4,4 milhões de votos e engolidos quando o jacaré fechou a boca e o dólar chegou a subir mais de 10% ante o real. Vale lembrar que no dia 6 de outubro, após a vitória de Flávio no primeiro turno, o dólar chegou a cair quase 10% com o forte ingresso de recursos.

O comportamento de manada na bolsa foi ainda mais dramático. Houve quedas de mais de 50% em algumas ações e interrupção dos negócios com o "circuito breaker", quando o Ibovespa caiu 17% na abertura dos negócios. A última interrupção na B3 foi em março de 2020, na pandemia. Às 12 horas (horário de Brasília) o Ibovespa caía mais de 15%, negociado abaixo dos 173 mil pontos. As ações da B3 tinham perdas de mais de 37%.

A alta do dólar funcionou como gangorra, impulsionando para cima ações das empresas exportadoras que estavam perdendo com a desvalorização do real. A maior alta foi de Suzano ON (uma das maiores exportadoras de celulose do mundo), com ganhou acima de 8%, seguido de Embraer ON (+7,50%). Vale ON Subia 5,6% e Weg ON, 5,3%.

Os destaques na baixa foram significativos, liderados por Taurus Armas (uma aposta na política de confronto do bolsonarismo), que caía 54,5%, seguido de Vamos ON (-54%) e Magazine Luíza (-54%). Ações de empresários ligados a Flávio, como a MRV, de Rubem Menin, tinha queda de 41%. Entre os bancos, a maior queda (-34%) era de BTG-Pactual (de André Esteves, grande ganhador no primeiro turno), seguido de BB ON (que poderia ser privatizado com Flávio, -29%). Bradesco PN caía 24% e Itaú PN (-15%).

A Focus apostava em Flávio

Mas o conjunto de dados mais eloquente da surpresa do resultado para o mercado financeiro foi da Pesquisa Focus, encerrada sexta-feira, com nítida aposta na vitória de Fláavio. Confesso que estranhei quando os jornalistas da Globonews que entrevistaram sábado à tarde a diretora do DataFolha, Luciana Chong, que apresentou a última pesquisa com duas rodadas, uma encerrada sexta-feira e outra sábado, até o meio-dia – não tenham indagado se houve diferenças numéricas entre os pesquisados dos dois dias, pois as consultas de sábado captariam novas tendência após o debate na Globo na noite de sexta-feira.

E teria evitado a surpresa desagradável dos que apostaram firme em Flávio Bolsonaro. Imagine as perdas se as "bets" não tivessem sido proibidas...

A Focus reduziu a inflação de outubro de 0,32% para 0,28% e (0,26% na mediana dos últimos cinco dias úteis após a divulgação de 0,32% para o IPCA-15, na sexta-feira, 23 de outubro. A taxa do ano reduziu de 5,22% para 5,19% (5,30% ne mediana dos últimos cinco dias úteis) e a aposta na Selic foi mantida em 13,25% para dezembro de 2026.

A novidade foi a redução da projeção da Selic de 12,00% para 11,75% em dezembro de 2027, mas a reação do mercado financeiro, que apostava na vitória de Flávio, foi uma alta acima da moderada nos juros futuros.

Vai ser preciso esperar um ou dois dias para o mercado lamber suas feridas e as expectativas decantarem com a nova realidade.

Contas externas sólidas em setembro

As contas externas brasileiras foram melhoradas em setembro de 2026, embora persistam pressões estruturais nas contas de serviços e renda. O déficit em transações correntes caiu de US$ 8,8 bilhões em setembro de 2025 para US$ 5,1 bilhões, enquanto, no acumulado de janeiro a setembro, recuperou 13%, para US$ 49,3 bilhões.

O principal fator foi a ampliação do superávit comercial, de US$ 40,3 bilhões para US$ 54,9 bilhões no acumulado, resultado de um avanço robusto das exportações por conta das vendas elevadas de commodities, favorecidas pela alta do petróleo. Apenas em setembro, o saldo de bens atingiu US$ 6,9 bilhões, quase três vezes o registrado um ano antes.

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