O Outro Lado da Moeda

Por Gilberto Menezes Côrtes

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O OUTRO LADO DA MOEDA

A bolha da IA já preocupa o FMI

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Publicado em 20/10/2026 às 14:18

Alterado em 20/10/2026 às 14:45

A economista Myriã Bast, superintendente sênior da Pesquisa Bradesco, acompanhou as reuniões anuais do FMI e do Banco Mundial, realizadas semana passada em Bangkok, na Tailândia. Nos tempos da crise da dívida externa (anos 80), o Brasil estava no centro das preocupações do mundo financeiro, como grande devedor [cobri a reunião do FMI em Seul, em 1985, quando estava em "O Globo"]. Hoje, como indicam as chamadas do "Wall Street Journal" – "Insegurança em relação à IA e altos preços do petróleo pressionam as ações" – e do "Financial Times" – "Preocupações com dívidas relacionadas à IA provocam aumento na negociação de seguros contra inadimplência", a preocupação com o estouro da bolha da IA, que alarma os mercados, chegou ao FMI. Vejam o relato de Myriã Bast:

Menor euforia com IA, mais espaço para riscos

“(...) as reuniões anuais trouxeram um tom menos otimista do que a edição de primavera. Se, em abril, a euforia com inteligência artificial (IA) dominava o debate, agora outros temas ganharam espaço, especialmente a preocupação com o crescente endividamento público. Não há pessimismo com IA, mas o debate parece estar amadurecendo. Os pontos positivos da IA, como os investimentos que têm mantido o crescimento aquecido, os elevados retornos das ações das empresas ligadas a esse ciclo e aumentos esperados de produtividade continuam em destaque".

"O poder transformador dessa tecnologia, segue sendo caracterizado nos painéis como "sem precedentes" e há muito otimismo com os desenvolvimentos possíveis nos próximos anos em diversas áreas, especialmente na educação e na saúde. Nos últimos anos, apenas esses pontos eram discutidos com entusiasmo e o contraponto eram eventuais consequências negativas sobre o mercado de trabalho".

"O nível de emissão de dívidas das empresas de tecnologia e "hyperscalers", em um contexto em que é esperada uma redução de caixa nos próximos anos, começa a trazer preocupação. O mercado de títulos americanos estaria, em parte, pressionado por essa necessidade de absorção de grandes volumes de emissão de dívidas relacionadas à IA e a grande pergunta é por quanto tempo continuará havendo demanda para financiar todas as emissões, privadas e públicas".

"A preocupação não é necessariamente para o curto prazo, mas vai se avolumando com o passar do tempo. Por ora, o foco de atenção é o segundo semestre do ano que vem, quando há perspectiva de que o Tesouro americano precise aumentar o Treasury Funding e se aproxima um volume relevante de vencimentos das dívidas emitidas durante a pandemia. Ao mesmo tempo, a discussão sobre as próximas eleições nos EUA também pode deixar o mercado mais volátil".

"Com esses elementos, muitos painelistas veem risco de dificuldade de absorção dos níveis de emissão de dívida. Além do endividamento, há grandes dúvidas em relação ao aumento de produtividade que a IA irá efetivamente trazer. Alguns painéis chegaram a apresentar estimativas otimistas de crescimento de 3% a 4% de produtividade, mas os participantes acreditam em algo mais modesto, menor do que 2%. O próprio FMI divulgou expectativa de aumento de 0,8% ao ano, que já seria um resultado relevante. Essas divergências quanto aos possíveis ganhos de produtividade são relevantes para as perspectivas de retorno das empresas, outro tema que também começou a ser discutido com mais cautela".

Cibersegurança X dívida pública

"Por fim, ainda foi tratado o tema de cibersegurança, um investimento necessário para todas as empresas, mas que também representa apenas um custo, sem ganhos de rendimento. Se a euforia com IA é menor, todos os outros riscos emergiram. Nas últimas reuniões, os principais riscos macroeconômicos eram inflação e dívida pública. Nos dois casos, IA poderia ser a solução, afinal, com aumento de produtividade haveria redução de inflação e aumento expressivo de crescimento".

“Os dois temas estão intrinsecamente ligados e, nesse momento, a preocupação com o elevado nível de endividamento supera, em muito, a preocupação com a inflação. Há uma leitura geral de que estamos vivendo uma época de elevada inflação média. Além dos choques de oferta atuais, não há perspectiva de redução das tensões geopolíticas e tarifárias, assim como não há expectativa de redução do endividamento público e de uma política fiscal menos expansionista”.

A desigualdade de renda

“O aumento da desigualdade de renda no mundo, com as famílias de renda mais elevada tendo ganhos expressivos de riqueza com a valorização dos mercados acionários e as demais faixas de renda registrando aumento de renda de trabalho, mas não suficiente para compensar o aumento do custo de vida, levaria a uma demanda social por políticas públicas cada vez mais populistas. Sem espaço político para consolidação fiscal e em um cenário em que há maior inflação média, os juros médios também ficam mais altos. Adicionalmente, o envelhecimento da população e a despoupança gerada por essa faixa etária seria elemento adicional dessa pressão nos juros”.

“Todos esses elementos seriam parte da explicação para a elevação dos juros de longo prazo no mundo, notadamente nos EUA. Assim, entre os participantes, havia um entendimento de que o movimento recente nos juros seria uma reprecificação natural em torno de novos níveis de equilíbrio – mais elevados. Nos últimos anos, recorrentemente havia a discussão sobre juros mais altos por mais tempo, “higher for longer”. Dessa vez, uma frase foi repetida em diversos painéis: “inflation is higher for longer, rates are higher forever”, que resume bem o tom dos debates”.

“A IA ainda pode ser um contraponto a isso, mas mesmo o aumento de produtividade gera elevação do juro estrutural, mas, nesse caso, sem pressão sobre a inflação. A questão volta ao tema sobre qual aumento de produtividade seria necessário para compensar todos os outros fatores altistas”.

“Por ora, não há conclusão. Nesse cenário de inflação média esperada mais alta nos próximos anos, há pouca convicção sobre os próximos passos de política monetária nos EUA. Na verdade, o foco dos debates ficou no médio prazo. Ainda assim, o consenso parece sugerir mais duas altas de juros uma nesse ano e outra no começo de 2027, com expectativa de desaceleração mais clara da economia não diretamente ligada à IA”.

Juros altos e dólar

“É interessante notar que mesmo com expectativa de aumento de juros no curto prazo e uma visão de juro médio consistentemente mais elevado, não há consenso algum sobre o dólar. As incertezas do cenário e o nível de ruído gerado nos EUA impedem uma visão mais clara sobre a moeda nos próximos meses”.

“De fato, é daqui que vem um otimismo com emergentes no geral, como alternativas para investimentos, assim como as commodities. Não há nenhuma visibilidade sobre o futuro do conflito no Oriente Médio. Na falta de qualquer sinal sólido, há um certo consenso de que a guerra deve continuar por muito mais tempo, com risco de escalada após as eleições de meio de mandato nos EUA”.

“Com um conflito permanente, não há como se aproximar dos níveis de equilíbrio do petróleo e a maioria dos participantes trabalha com expectativa de preços próxima a US$ 90, mesmo com o fluxo de petróleo saindo do Oriente Médio próximo aos níveis pré-guerra. A preocupação maior é com os combustíveis refinados, já que a capacidade de refino no mundo segue recuando. Com a normalização dos fluxos de petróleo, mesmo diante de um maior prêmio de risco em um cenário de conflito duradouro, é esperada uma normalização apenas gradual nos refinados, ao longo do ano que vem”.

“Para as “midterms” americanas, que acontecem no começo de novembro, muitos esperam que os democratas consigam uma pequena maioria no Senado. Após as eleições, há grande expectativa sobre eventuais novas ações contra o Irã. Também há algum receio de que haja nova rodada de elevação de tarifas contra alguns países, especialmente China, sob a Seção 301, que permitiria aumentos permanentes dessas tarifas”.

Brasil, destaque entre emergentes

“Há bastante interesse nos países emergentes. Mesmo com juros mais altos no mundo desenvolvido, o nível de incerteza é tal que a necessidade de diversificação segue elevada e beneficiando esses países. Os países asiáticos foram bastante destacados nos painéis, (...) porque muitos estão crescendo de maneira acelerada com exportações de hardware e semicondutores para IA”.

“Os países da América Latina também geraram muito interesse, por serem grandes produtores de “commodities”, estarem distantes dos conflitos e terem elevadas taxas de juros. O Brasil foi novamente um dos destaques dentre os emergentes. A agenda fiscal segue sendo o principal ponto de incerteza, adiante, influenciando as percepções e os debates sobre os preços de juros, câmbio e bolsa”.

“Em um mundo com certa diversificação para fora do dólar, o Brasil era frequentemente mencionado como tendo potencial (energia, terras raras, “commodities”) para capturar parte desse movimento, desde que se distancie do aumento do endividamento observado para o mundo desenvolvido”.

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